OPINIÃO
Intoxicação da opinião pública
Se pensam que o efeito negativo das mentiras de Galamba e
Pinheiro são os únicos estragos causados nos portugueses, não se esqueçam do
efeito arruaceiro de como alguns deputados intervêm na CPI.
José Pacheco
Pereira
20 de Maio de
2023, 6:22
Eu tinha jurado a
mim próprio não falar das audições dos últimos dias na Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) da TAP, tal é o grau de intoxicação da opinião pública que
todos, actores, perguntadores, jornalistas e comentadores, provocam. O que
escrevi recentemente sobre o modo como, no afã de derrubar o Governo, se está a
estuporar a democracia era suficiente, porque nada mudou e é minha convicção
que nada vai mudar. Nem penso que haja qualquer eficácia em chamar a atenção,
quanto estamos longe de qualquer mecanismo normal numa democracia, como o
escrutínio, ou a exigência de responsabilidades políticas para quem as tem. Do
mesmo modo, as regras do jornalismo desapareceram do espaço público,
substituídas por um tratamento comicieiro e politicamente motivado e orientado,
que, por falta de alternativa, deixa todos entregues à intoxicação. É como as
drogas que criam habituação.
Há excepções, mas
são tão invisíveis no meio da excitação comicieira que não têm qualquer
impacto. O efeito adictivo de uma droga está em pleno funcionamento e tentar
falar racionalmente a uma assembleia intoxicada deliberadamente é em grande
parte inútil. Daí a minha jura de não falar, que quebro contra mim próprio por
uma espécie de sentimento de dever cívico, alimentado, reconheço, por muita
indignação e preocupação. Os estragos que tudo isto está a fazer à democracia
são enormes, em dois planos: um, o do poder político democrático e a sua
legitimação; outro o da degradação acentuada do jornalismo e dos seus
critérios.
Os estragos que tudo isto está a fazer à democracia são
enormes, em dois planos: um, o do poder político democrático e a sua
legitimação; outro o da degradação acentuada do jornalismo e dos seus critérios
Comecemos pelos
actores, homens com poder político (Galamba) e político-burocrático (Frederico
Pinheiro). Ambos estão obviamente a mentir e isso é tão evidente que as suas
mentiras envenenam tudo. Galamba mente em duas áreas0 – uma, os eventos das
reuniões de 16 e 17 de Janeiro, e outra o fio de acontecimentos no dia das
agressões, em particular em tudo o que está associado com o SIS. Há depois
outras mentirolas, omissões, sugestões de falsidade, mas são de menor
importância. Isso ficou tão evidente na inquirição que não é preciso ir mais
longe. Mais ainda, muitas das trapalhadas têm apenas que ver com a cobardia de
não dizer a verdade, que é bastante menos grave do que as mentiras para a
encobrir. E o primeiro-ministro ao dar-lhe cobertura só aumenta a gravidade do
caso para o Governo. O homem já devia ter sido posto na rua.
Mas, no caso de
Frederico Pinheiro, são igualmente evidentes, com o peso da palavra “evidente”,
as suas mentiras, a que acresce o seu comportamento no roubo do computador
(sim, é um roubo) e a violência sobre as senhoras do gabinete. Mas é
interessante ver como se tornou um herói para a oposição e a sua intervenção
foi elogiada, com declarações de que “por intuição” se percebia que estava a
falar verdade, mesmo quando o que ele dizia era inverosímil e havia muitos
testemunhos a contradizê-lo. É igualmente interessante como tudo o que mostrava
que ele estava a mentir era rapidamente esquecido para se passar ao elogio e
para apagar a violência dos seus actos.
Depois os
perguntadores. No seu conjunto, a CPI foi muito hostil a Galamba e muito amável
com Frederico Pinheiro. E o tom de alguns deputados, em particular do PSD, foi de
uma má educação que incluiu chamar “desvairadas” às assessoras agredidas por
Frederico Pinheiro e, em vez de estudar as matérias, substituí-las por
declarações insultuosas. André Ventura pareceu um santo junto do tom agressivo
e despropositado do representante do PSD. Acresce que em muitas perguntas e
proclamações dos deputados incluíram-se também mentiras e factos que estavam
longe de terem sido demonstrados, com perguntas que já continham as conclusões
desejadas. Se pensam que o efeito negativo das mentiras de Galamba e Pinheiro
são os únicos estragos causados nos portugueses, não se esqueçam do efeito
arruaceiro de como alguns deputados intervêm na CPI.
André Ventura pareceu um santo junto do tom agressivo e
despropositado do representante do PSD
Por fim,
jornalistas e comentadores, os que tornaram o veneno das mentiras num aerossol
feito deliberadamente para intoxicar a opinião pública e potenciar os seus
efeitos políticos. E comecemos por aquilo que é impopular referir. Qualquer
manual de jornalismo chama a atenção para que o uso de directos por parte dos
órgãos de comunicação deva ser acompanhado pela maior prudência, porque, entre
outras coisas, eles põem em causa o papel da “edição” que está na essência do
trabalho dos jornalistas. Esse papel inclui, entre outras coisas, moderar o
efeito espetacular e emotivo dos directos com introdução de contexto e
racionalidade.
Mesmo em casos de
maior gravidade, a milhas dos mesquinhos incidentes da CPI, como as audições
sobre a invasão do Congresso americano a 6 de Janeiro, muitos canais
televisivos seguiram as regras dos seus manuais de “boas práticas” sobre os
riscos para o jornalismo dos directos. No caso da CPI mais que se justificava
ter reduzido os directos a certas intervenções, gravar tudo e evitar o efeito
de “lavagem ao cérebro” gerado por horas e horas de repetição das mesmas
perguntas e das mesmas respostas. Por singular coincidência, só houve interrupções
quando era o deputado do PS a fazer perguntas, para introduzir alguns
comentários com a habitual fúria.
Na ausência de
qualquer trabalho jornalístico, que incluía, por exemplo, ter preparado
citações, e imagens, com as versões anteriores dos acontecimentos e mostrado
contradições e mentiras, ou ter construído uma cronologia com o que se sabia, o
que daria uma base muito mais sólida do que usar interpretações capciosas dos
comentadores e jornalistas na base de impressões, ou apresentar como “novidades”
coisas que de há muito eram conhecidas, o papel de imediatamente “interpretar”
o que estava suceder foi entregue a comentadores e jornalistas-comentadores
esmagadoramente de direita, com relevo para a brigada do Observador, agora
também à noite na CNN. Repetiu-se o que aconteceu no dia da crise, a 2 de Maio,
uma fúria incontrolada que, insisto, nada tem que ver com o jornalismo. Quando
um diz mata, o outro diz esfola e, por fim, outro diz esquarteje-se.
O Governo merece?
Merece muito, mas o que se está a passar atinge muito mais a democracia do que
o PS e o Governo, como se verá. Depois queixem-se, mas já será tarde.
O autor é
colunista do PÚBLICO
.jpg)

Sem comentários:
Enviar um comentário