sábado, 20 de maio de 2023

Intoxicação da opinião pública




OPINIÃO

Intoxicação da opinião pública

 

Se pensam que o efeito negativo das mentiras de Galamba e Pinheiro são os únicos estragos causados nos portugueses, não se esqueçam do efeito arruaceiro de como alguns deputados intervêm na CPI.

 

José Pacheco Pereira

20 de Maio de 2023, 6:22

 

Eu tinha jurado a mim próprio não falar das audições dos últimos dias na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da TAP, tal é o grau de intoxicação da opinião pública que todos, actores, perguntadores, jornalistas e comentadores, provocam. O que escrevi recentemente sobre o modo como, no afã de derrubar o Governo, se está a estuporar a democracia era suficiente, porque nada mudou e é minha convicção que nada vai mudar. Nem penso que haja qualquer eficácia em chamar a atenção, quanto estamos longe de qualquer mecanismo normal numa democracia, como o escrutínio, ou a exigência de responsabilidades políticas para quem as tem. Do mesmo modo, as regras do jornalismo desapareceram do espaço público, substituídas por um tratamento comicieiro e politicamente motivado e orientado, que, por falta de alternativa, deixa todos entregues à intoxicação. É como as drogas que criam habituação.

 

Há excepções, mas são tão invisíveis no meio da excitação comicieira que não têm qualquer impacto. O efeito adictivo de uma droga está em pleno funcionamento e tentar falar racionalmente a uma assembleia intoxicada deliberadamente é em grande parte inútil. Daí a minha jura de não falar, que quebro contra mim próprio por uma espécie de sentimento de dever cívico, alimentado, reconheço, por muita indignação e preocupação. Os estragos que tudo isto está a fazer à democracia são enormes, em dois planos: um, o do poder político democrático e a sua legitimação; outro o da degradação acentuada do jornalismo e dos seus critérios.

 

Os estragos que tudo isto está a fazer à democracia são enormes, em dois planos: um, o do poder político democrático e a sua legitimação; outro o da degradação acentuada do jornalismo e dos seus critérios

 

Comecemos pelos actores, homens com poder político (Galamba) e político-burocrático (Frederico Pinheiro). Ambos estão obviamente a mentir e isso é tão evidente que as suas mentiras envenenam tudo. Galamba mente em duas áreas0 – uma, os eventos das reuniões de 16 e 17 de Janeiro, e outra o fio de acontecimentos no dia das agressões, em particular em tudo o que está associado com o SIS. Há depois outras mentirolas, omissões, sugestões de falsidade, mas são de menor importância. Isso ficou tão evidente na inquirição que não é preciso ir mais longe. Mais ainda, muitas das trapalhadas têm apenas que ver com a cobardia de não dizer a verdade, que é bastante menos grave do que as mentiras para a encobrir. E o primeiro-ministro ao dar-lhe cobertura só aumenta a gravidade do caso para o Governo. O homem já devia ter sido posto na rua.

 

Mas, no caso de Frederico Pinheiro, são igualmente evidentes, com o peso da palavra “evidente”, as suas mentiras, a que acresce o seu comportamento no roubo do computador (sim, é um roubo) e a violência sobre as senhoras do gabinete. Mas é interessante ver como se tornou um herói para a oposição e a sua intervenção foi elogiada, com declarações de que “por intuição” se percebia que estava a falar verdade, mesmo quando o que ele dizia era inverosímil e havia muitos testemunhos a contradizê-lo. É igualmente interessante como tudo o que mostrava que ele estava a mentir era rapidamente esquecido para se passar ao elogio e para apagar a violência dos seus actos.

 

Depois os perguntadores. No seu conjunto, a CPI foi muito hostil a Galamba e muito amável com Frederico Pinheiro. E o tom de alguns deputados, em particular do PSD, foi de uma má educação que incluiu chamar “desvairadas” às assessoras agredidas por Frederico Pinheiro e, em vez de estudar as matérias, substituí-las por declarações insultuosas. André Ventura pareceu um santo junto do tom agressivo e despropositado do representante do PSD. Acresce que em muitas perguntas e proclamações dos deputados incluíram-se também mentiras e factos que estavam longe de terem sido demonstrados, com perguntas que já continham as conclusões desejadas. Se pensam que o efeito negativo das mentiras de Galamba e Pinheiro são os únicos estragos causados nos portugueses, não se esqueçam do efeito arruaceiro de como alguns deputados intervêm na CPI.

 

André Ventura pareceu um santo junto do tom agressivo e despropositado do representante do PSD

 

Por fim, jornalistas e comentadores, os que tornaram o veneno das mentiras num aerossol feito deliberadamente para intoxicar a opinião pública e potenciar os seus efeitos políticos. E comecemos por aquilo que é impopular referir. Qualquer manual de jornalismo chama a atenção para que o uso de directos por parte dos órgãos de comunicação deva ser acompanhado pela maior prudência, porque, entre outras coisas, eles põem em causa o papel da “edição” que está na essência do trabalho dos jornalistas. Esse papel inclui, entre outras coisas, moderar o efeito espetacular e emotivo dos directos com introdução de contexto e racionalidade.

 

Mesmo em casos de maior gravidade, a milhas dos mesquinhos incidentes da CPI, como as audições sobre a invasão do Congresso americano a 6 de Janeiro, muitos canais televisivos seguiram as regras dos seus manuais de “boas práticas” sobre os riscos para o jornalismo dos directos. No caso da CPI mais que se justificava ter reduzido os directos a certas intervenções, gravar tudo e evitar o efeito de “lavagem ao cérebro” gerado por horas e horas de repetição das mesmas perguntas e das mesmas respostas. Por singular coincidência, só houve interrupções quando era o deputado do PS a fazer perguntas, para introduzir alguns comentários com a habitual fúria.

 

Na ausência de qualquer trabalho jornalístico, que incluía, por exemplo, ter preparado citações, e imagens, com as versões anteriores dos acontecimentos e mostrado contradições e mentiras, ou ter construído uma cronologia com o que se sabia, o que daria uma base muito mais sólida do que usar interpretações capciosas dos comentadores e jornalistas na base de impressões, ou apresentar como “novidades” coisas que de há muito eram conhecidas, o papel de imediatamente “interpretar” o que estava suceder foi entregue a comentadores e jornalistas-comentadores esmagadoramente de direita, com relevo para a brigada do Observador, agora também à noite na CNN. Repetiu-se o que aconteceu no dia da crise, a 2 de Maio, uma fúria incontrolada que, insisto, nada tem que ver com o jornalismo. Quando um diz mata, o outro diz esfola e, por fim, outro diz esquarteje-se.

 

O Governo merece? Merece muito, mas o que se está a passar atinge muito mais a democracia do que o PS e o Governo, como se verá. Depois queixem-se, mas já será tarde.

 

O autor é colunista do PÚBLICO


Sem comentários: