A SEMANA POLÍTICA
João Galamba, ministro no organigrama
João Galamba continuou a puxar membros do Governo para a
confusão, qual náufrago que, no desespero de se salvar, não hesita em afogar os
que estão à sua volta num mar revolto.
São José Almeida
20 de Maio de
2023, 7:15
https://www.publico.pt/2023/05/20/politica/opiniao/joao-galamba-ministro-organigrama-2050298
João Galamba pode
continuar colado à cadeira do poder, mas, enquanto ministro, tem a sua
credibilidade política profundamente abalada e revela uma total falta de
sentido institucional. A teia de contradições que resultam das audições, na
comissão parlamentar de inquérito (CPI) à gestão política da tutela ministerial
da TAP, quer do ministro das Infra-Estruturas, quer da chefe do seu gabinete,
Eugénia Correia, quer do ex-adjunto Frederico Pinheiro, demonstram um
comportamento absurdo na forma como o ministério funcionava e uma completa
ausência de sentido de Estado e de respeito pelas instituições.
Estou convencida
de que nunca será apurada a verdade de toda esta telenovela rocambolesca, mas a
forma como João Galamba apresentou a sua versão dos factos na CPI demonstra um
responsável governativo que está à defesa, tentando sobreviver politicamente,
que desvaloriza a gravidade do que se passou no seu ministério, que se esconde
atrás do depoimento feito na véspera pela chefe do seu gabinete, que se aplica
a descredibilizar o seu ex-adjunto e que continua a envolver outros membro do
Governo e o próprio primeiro-ministro
Nas longas sete
horas que durou a audição, João Galamba normalizou o facto de alguém – que diz
não saber quem é – ter mandado fechar o ministério para que o ex-adjunto
Frederico Pinheiro não saísse, o que configura sequestro, um eventual crime que
João Galamba desvalorizou. Isto ao mesmo tempo que continuava a insistir na
ideia de que Frederico Pinheiro tinha roubado um computador com informação de
Estado, sem nunca dizer realmente de que se tratava – o Expresso noticiou que
em causa estavam informações sobre cabos submarinos. Mais: João Galamba acusou
o ex-adjunto de ir ao ministério a “horas impróprias” para “tirar muitas cópias
e impressões”.
Demonstrou uma
total ausência de conhecimento – ou uma propositada ignorância – da importância
que, neste caso, tem o recurso aos serviços de informações. Continuando a não
esclarecer e a assumir os contornos que a intervenção do SIS teve e
apresentando até pormenores que mais adensam a gravidade desta intervenção.
Começa por se colar à chefe de gabinete, confirmando que a decisão de accionar
o SIS foi de Eugénia Correia, para horas depois assumir que a indicação lhe foi
dada a ele mesmo pelo secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro,
António Mendonça Mendes.
Escondeu-se atrás
da chefe de gabinete não só em relação à participação do caso ao SIS, como o
faz em relação a todos os episódios irregulares que se passaram, na noite de 26
de Abril, no Ministério das Infra-Estruturas, desde desvalorizar o eventual
sequestro de Frederico Pinheiro à eventual violência física. Repetindo
sistematicamente que não estava lá e colando-se à versão dos factos apresentada
à CPI, na quarta-feira, por Eugénia Correia.
O ministro das
Infra-Estruturas prosseguiu na cavalgada de envolver e responsabilizar membros
do Governo em todo o caso. Na conferência de imprensa que deu a 29 de Abril,
tinha assumido que telefonou ao primeiro-ministro, que não atendeu porque
“estava a conduzir”, segundo João Galamba. Telefonou ao secretário de Estado
adjunto do primeiro-ministro, António Mendonça Mendes, que estava junto do
secretário de Estado da Digitalização e da Modernização Administrativa, Mário
Campolargo, acrescentou João Galamba. Tendo, então, ainda assumido que
telefonou à ministra da Justiça, Catarina Sarmento e Castro.
Na quinta-feira,
perante a CPI, João Galamba continuou a puxar membros do Governo para a
confusão, qual náufrago que, no desespero de se salvar, não hesita em afogar os
que estão à sua volta num mar revolto. Começou por revelar que o seu primeiro
telefonema foi para o ministro da Administração Interna, José Luís Carneiro,
para que o pusesse em contacto com a PSP. Horas depois, revelou que afinal
tinha sido o secretário de Estado adjunto a dizer-lhe que tinha de participar
aos serviços de informações. E acabou a audição envolvendo directamente o
primeiro-ministro, António Costa, ao afirmar que falou com ele ao início da
madrugada de 27 de Abril.
É bom lembrar que
o Presidente da República pediu publicamente a demissão do ministro das
Infra-Estruturas e que o primeiro-ministro o recusou. O mesmo Marcelo Rebelo de
Sousa que, na quinta-feira, ao receber a selecção nacional de andebol em
cadeira de rodas, aproveitou a sua intervenção para deixar implícito o que
continua a pensar sobre todo este caso. “É uma ilusão achar-se que se pode ser
importante sem pagar o preço, que se pode ter poder sem ter responsabilidade.
Isso não existe. Também no vosso caso é assim”, afirmou, para insistir na ideia
de que “o prestígio das instituições é fundamental, é mais importante do que a
economia, a sociedade”.
O
primeiro-ministro pode, como disse que faria, aguardar pelo fim da CPI para, só
então, tirar as conclusões e – “doa a quem doer”, como tem referido – então
decidir demitir João Galamba. Aliás, é bom recordar que esta CPI foi
constituída para investigar a forma como se processou a indemnização de meio
milhão de euros à ex-administradora da TAP Alexandra Reis, quando esta saiu da
TAP, pagamento que foi autorizado pelo ex-ministro das Infra-Estruturas Pedro
Nuno Santos. Sendo depois nomeada por este ex-ministro para a administração da
NAV. E, posteriormente, na formação do actual Governo, ser convidada para secretária
de Estado do Tesouro pelo ministro das Finanças, Fernando Medina. Não pode
também ser minimizado o facto de que Pedro Nuno Santos será ouvido, na CPI, a
15 de Junho e Fernando Medina a 16, último dia previsto para audições na CPI.
António Costa
pode querer manter João Galamba no Governo, para afirmar a sua posição de força
e autonomia perante o Presidente da República. Ou pode optar por dar o passo e
proceder a uma ampla remodelação. Mas, de facto, e perante o país, João Galamba
perdeu a credibilidade política e o sentido institucional da função que ocupa.
Continua ministro no sentido em que o primeiro-ministro o mantém no organigrama
do Governo.


Sem comentários:
Enviar um comentário