OPINIÃO
Uma República de Garotos
Pelo carácter atrabiliário e irascibilidade adolescente.
Pela palavra gratuita, pela moral que muda, pela crueldade, pela hipocrisia:
muitas destas pessoas não deviam ter acesso a postos de comando.
António Barreto
20 de Maio de
2023, 6:43
https://www.publico.pt/2023/05/20/opiniao/opiniao/republica-garotos-2050354
Podemos ter a
certeza: neste caso da TAP, dos respectivos antecedentes e das devidas
sequelas, há, entre os seus intervenientes, um ou vários malfeitores. O
problema consiste em saber se são todos ou só alguns.
Podemos ter outra
certeza: há, neste processo, um ou vários mentirosos. Falta saber se são todos
ou só alguns.
É ainda certo que
há alguém a preparar um roubo, a cometer uma fraude, a obter algo
indevidamente, a tentar assassinar politicamente alguém, a liquidar um
adversário e a destruir quem sabe segredos. Só não sabemos se é só um, se são
vários ou se são todos os intervenientes.
Sabemos também
que estão envolvidos titulares de cargos políticos, altos funcionários do
Estado e altíssimos responsáveis da Administração Pública, universo este que
pode incluir um primeiro-ministro, vários ministros e ex-ministros, diversos
secretários de Estado e ex-secretários de Estado, chefes de gabinete, adjuntos,
assessores, auditores jurídicos e administradores de empresas públicas. Uma vez
mais, não sabemos se todos ou só alguns têm culpas e responsabilidades.
É seguro que algo
está em causa, mais importante do que um computador, dois socos, três bofetadas
e uma ameaça de agressão. Num ministério como este, das Infra-Estruturas, é
difícil encontrar documentos confidenciais muito sérios. Também num país como o
nosso, não é crível haver segredos de Estado vitais, ainda por cima gravados no
computador de um adjunto! Muito dinheiro, muitos interesses, enormes favores e
imensas negociações: eis o que pode estar em causa.
Temos diante de
nós a coreografia ou o cenário perfeito da mentira: do mesmo acontecimento, dos
mesmos factos, com os mesmos protagonistas, existem pelo menos duas versões
contraditórias, dois elencos factuais diferentes e opostos e evidentemente dois
perpetradores.
Um bando em
funções de Estado, instituições supostamente respeitáveis, departamentos
governamentais com responsabilidades, deputados eleitos e representantes
directos dos cidadãos, empresas públicas, escritórios de advogados famosos,
salteadores de capitais internacionais, funcionários de Estado obrigados a
limpar as estrebarias e empresas internacionais de consultadoria estão
atarefados à volta de um ministério. Este, por sua vez, ocupa-se de tudo quanto
é importante na economia futura do país: aviões, aeroportos, comboios,
caminho-de-ferro, portos fluviais e marítimos, grandes pontes, energia, rede
eléctrica nacional, barragens e centrais térmicas e mais, tanto mais, em duas
palavras, quase tudo, nas mãos de um ministro… É isso que está em causa! São
decisões de muitos milhares de milhões! São os marcos da economia futura do
país. É o maior investimento de que há memória e de que haverá crónica no
futuro! É isso que está em causa, não é um computador, um telemóvel, uma ameaça
contra quatro mulheres, um murro de um homem, uma grosseria de um ministro, um
engano de um telefonema…
Já se percebeu
que houve mentira, traição, ciúme, engano, ameaça, violência e abuso. Mas
porquê? O que estava em causa realmente? Dinheiro? Interesses estrangeiros? A
companhia de aviação? O aeroporto? O lítio? Os comboios e o TGV? A rede
eléctrica nacional? As “renováveis”? Uma coisa parece certa: para que os
intervenientes se tenham deixado enredar em cenas ridículas próprias de
telenovela, é necessário estarem de acordo sobre um ponto: o silêncio sobre o
essencial. Fica-nos a certeza de que este silêncio e a zanga têm origem num
passado de cumplicidade.
Ao longo deste
processo, pelo que se sabe, alguns ou todos se portaram mal, abusaram de poder
e de funções, mentiram, esconderam, ameaçaram, agrediram, roubaram, destruíram,
quebraram, negaram, tentaram liquidar, apagaram documentos, “limparam”
telemóveis e computadores, sonegaram provas, esconderam fontes e acusaram
falsamente outras pessoas. Todos? Só alguns? Quem?
Raramente, nestas
décadas que levamos de democracia, se atingiu um ponto tão baixo de miséria
moral, de atentado político, de vilania, de imoralidade e de sem vergonha! Há
gente que, por bem menos, reside actualmente na penitenciária, em Custóias ou
em Pêro Pinheiro. Raramente como agora a justiça portuguesa esteve tanto em
causa. Raramente como agora o Estado de direito esteve tão ameaçado.
Na máfia, nos
gangs de Nova Iorque, entre oligarcas de Moscovo, nas redes de tráfico de
droga, no mercado do sexo e de trabalhadores clandestinos, nos serviços de
imigrantes, no comércio de armamento, nos arranha-céus de magnates do petróleo
ou nos resorts dos bilionários dos metais raros, há procedimentos parecidos com
aqueles que se adivinham neste processo. Com a diferença de montantes e de
pessoas envolvidas, com certeza. Mas com uma similitude moral indiscutível.
Parece a
República dos Garotos. Pelo que se julgam superiores e infalíveis. Pela
superioridade moral de que crêem usufruir. Pela inteligência sistémica com que
tratam as estratégias de longo prazo e nada entendem da vida real. Pelo
desprezo com que avaliam os outros, a opinião pública e os eleitores. Pelo modo
como substituem as regras e as leis pelos seus gestos, os seus gostos e os seus
valores. Pelo seu carácter atrabiliário e pela irascibilidade adolescente. Pela
palavra gratuita, pela moral que muda, pela crueldade constante, pelo cinismo
indisfarçável e pela hipocrisia como hábito e regra: por estes e outros
atributos, estas pessoas, algumas destas pessoas, muitas destas pessoas não
deveriam ter acesso a postos de comando, nem ter a capacidade de influenciar a
vida de outros. Estamos perante pessoas que só têm regras claras e precisas:
eles próprios, os seus amigos, os seus partidos, as suas famílias, as suas
empresas e as suas auréolas de glória narcisista que designam por interesse
público. Estes Garotos divertem-se com o mal dos outros, brincam e desprezam os
inferiores e os menos dotados, odeiam e perseguem os superiores e mais capazes.
E têm enorme consideração por si próprios.
Como é possível
que alguns ministros capazes, alguns governantes decentes, alguns altos
funcionários competentes, alguns deputados honestos e alguns profissionais
honrados se deixem enlamear por estes Garotos? Nunca se perceberá a razão pela
qual académicos probos, professores dedicados, engenheiros competentes,
autarcas responsáveis, sindicalistas empenhados, intelectuais com sentido moral
da vida e políticos ciosos do bem comum se deixam envolver nesta história a
todos os títulos tão sórdida.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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