quarta-feira, 3 de maio de 2023

Falemos das escolhas de ministros de António Costa




 OPINIÃO

Falemos das escolhas de ministros de António Costa

 

O que passou pela cabeça de Costa para colocar alguém assim num ministério fulcral, que vai ser o centro de duas decisões estruturais, como a privatização da TAP e o novo aeroporto de Lisboa?

 

Maria João Marques

3 de Maio de 2023, 6:28

https://www.publico.pt/2023/05/03/opiniao/opiniao/falemos-escolhas-ministros-antonio-costa-2048217

 

Quando há uns dias (parecem já várias eras glaciares) discutíamos “apenas” se existia ou não o parecer jurídico fundamentando a decisão de despedir a CEO da TAP — umas ministras diziam que sim, outro dizia que não, Mariana Mortágua informou que o parecer só foi pedido depois do anúncio do despedimento que pretendia fundamentar — lembrei-me da série West Wing. Quando Josh, o vice-chefe de gabinete do Presidente americano ficcional, numa conferência de imprensa se embrulhou, no meio do sarcasmo com que queria tratar os jornalistas, e terminou informando de um (inexistente) plano secreto do Presidente para lidar com a inflação.

 

 

A manigância do Governo de enviar os mais variados e corriqueiros documentos à comissão parlamentar de inquérito à TAP classificados como confidenciais — uma vez que havia um muito precioso ativo a proteger: a reputação do Governo face aos sucessivos atropelos à boa gestão dos ativos públicos, da boa governação e ao saudável escrutínio pelas demais instituições — também pode ser encontrada em muitas séries e filmes sobre governos atrevidos.

 

Mas uma cena de pancadaria, um computador desviado, uma exoneração informal feita à bruta por telefonema, uma alegada ameaça de um murro a um assessor por um ministro, mentiras comprovadas pelo mesmo ministro sobre uma excêntrica reunião entre o grupo parlamentar do PS e a CEO da TAP e um perplexo etc.? E que dizer da ainda não explicada intervenção do SIS? Ou da estranha pressa e falta de civilidade na exoneração de um assessor de há vários anos do Governo? Porquê a pressa? Porquê a hostilidade?

 

Para este nível de absurdo, temos de sair dos dramas políticos e saltar para o Fawlty Towers. Para o episódio em que Basil Fawlty tenta provar, por métodos cada vez mais estapafúrdios, que um hóspede solteiro levou uma mulher bonita para o quarto, contra as regras. E termina com a mulher dando-lhe sopapos, convencida de que o marido quer afinal espreitar a hóspede ilícita.

 

Sucede que, ao contrário dos episódios de Fawlty Towers, o episódio Galamba não se esgota proporcionando-nos gargalhadas. Dá-nos um exemplo insalubre como no Ministério das Infraestruturas há uma falta de respeito institucional de ministro para subordinados e vice-versa. De um estilo político chico-esperto, ligeiro, abrutalhado, onde mentir e iludir são partes insofismáveis da governação.

 

Verdade: aparentemente, esta insustentável leveza já vinha do tempo de Pedro Nuno Santos. A provar está o anúncio à desgarrada da localização do novo aeroporto, a indemnização de Alexandra Reis, as interferências na TAP e mais outro perplexo etc. Contudo, Pedro Nuno Santos é o socialista adorado por grande parte do aparelho do PS, venerado por BE e até PCP (vejam bem a economia de críticas que lhe fizeram aquando da demissão) e o rival oficioso de Costa. Tem peso político por si próprio. Galamba é só um produto socrático muito ambicioso.

 

O que me leva a um ponto prévio. Que é, no fundo, o mais grave de todos. Por que diabo António Costa leva a ministro alguém como João Galamba?

 

Por que diabo António Costa leva a ministro alguém como João Galamba?

 

Comecemos pela forma. Tem zero postura institucional. É de uma má criação assustadora — e orgulhosa! — várias vezes publicamente comprovada. Desde sempre cultivou o estilo do seu ídolo: José Sócrates, que o levou para a política. Reações brutas, malcriadas, sem grande respeito pela verdade ou pelos factos. Tudo acompanhado de uma ambição desmedida.

 

Sigamos para o conteúdo. Um ministro que não terminou o doutoramento, demonstrando falta de foco. Pouca experiência profissional fora da política. Um político profissional, com toda a conotação negativa que se costuma dar à expressão. Peso político só tem por associação. Defendeu a forma moralmente indigente de Sócrates fazer política (cujos malefícios não se confinaram ao “mercadejar do cargo”) até dar vergonha alheia. Só abandonou o ídolo quando percebeu que precisava de o fazer para continuar possuidor de carreira política — o que também é todo um retrato.

 

O que passou pela cabeça de Costa para colocar alguém assim num ministério fulcral, que vai ser o centro de duas decisões mais estruturais dos próximos anos? São só a privatização da TAP e, sobretudo, o novo aeroporto de Lisboa. Como é possível não ter existido da parte do primeiro-ministro a preocupação de pôr a pasta das Infraestruturas em mãos competentes, experientes, calejadas nestes temas, politicamente insuspeitas, com prestígio prévio?

 

Lembremos ministros das Obras Públicas do calibre de Ferreira do Amaral e de Jorge Coelho. Estão a anos-luz do pechisbeque político dos últimos anos. Não temos de ir buscar bons exemplos ao Marquês de Pombal e à reconstrução de Lisboa.

 

De resto, o mesmo para a ministra da Habitação. Para resolver um problema também estruturante e sem dúvida com impacto na vida das pessoas e nos seus projetos de vida — a falta de casas a preços comportáveis —, Costa foi buscar uma desconhecida, sem experiência do setor que passou a tutelar, nem vontade ou capacidade para criar consensos. O resultado foi um pacote para a habitação fabricado sem ouvir autarquias, proprietários ou inquilinos. Não será aplicado em vários pontos, hostiliza quem pode disponibilizar casas para arrendar e, nas partes que prevaleceram, algumas terão efeitos contrários ao pretendido.

 

A leviandade e irresponsabilidade das escolhas de Costa não podem prescrever com uma demissão de Galamba ou com nova micro-remodelação. Afinal, quais são os critérios do primeiro-ministro para recrutar ministros? Costa deveria explicar-nos. É a lealdade política? É a falta de independência face ao partido, tornando os ministros maleáveis e controláveis? É a inexistência de melhores oportunidades profissionais?

 

Afinal, quais são os critérios do primeiro-ministro para recrutar ministros? Costa deveria explicar-nos

 

Do que podemos ver, Costa tem tornado o Governo um laboratório de experimentação para os possíveis próximos líderes do PS. Além disso, usa o Governo para resolver problemas internos do PS e apaziguar e equilibrar as várias fações.

 

Lamenta-se, caro primeiro-ministro, mas não é para isso que serve um Governo. A responsabilidade política das más escolhas ministeriais é de Costa. Alguém devia falar-lhe de conceitos como preferir a eficácia à ideologia e à narrativa mediática, bem comum e espírito de servi

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