quarta-feira, 3 de maio de 2023

Costa em guerra aberta com Marcelo para defender Galamba

 




GOVERNO

Costa em guerra aberta com Marcelo para defender Galamba

 

Primeiro-ministro defende continuidade de João Galamba no Governo mesmo depois de este ter pedido a demissão. Presidente assume discordância em inédita nota oficial.

 

Maria Lopes e Sofia Rodrigues

2 de Maio de 2023, 23:55

https://www.publico.pt/2023/05/02/politica/noticia/costa-guerra-aberta-marcelo-defender-galamba-2048231

 

Depois de nos últimos anos António Costa ter sido sensível aos recados do Presidente da República sobre fragilidades de alguns membros do Governo, desta vez opôs-se. Ao recusar o pedido de demissão do ministro das Infra-estruturas contra a vontade de Marcelo Rebelo de Sousa, o primeiro-ministro começou a marcar aquilo que pode ser uma trincheira intransponível entre os palácios de São Bento e de Belém.

 

A nota de Marcelo Rebelo de Sousa é inédita: a discordância do Presidente sobre as escolhas e decisões de membros do Governo já passou para a opinião pública através de notícias na comunicação social com base em fontes de Belém, mas nunca ficara tão clara numa nota oficial da Presidência.

 

A reacção célere do chefe de Estado contrastou com o seu raro silêncio e evasivas durante o fim-de-semana sobre o tema, em que também entreabriu a porta a uma possível demissão de Galamba quando se referiu à necessidade de "resolver" o problema (e insistia no verbo).

 

Ainda ecoavam os elogios de António Costa a João Galamba pela sua actuação perante um assessor que terá sonegado informação, que "roubou" um computador com informação classificada e "agrediu" pessoal do ministério, mas também pelo seu trabalho como ministro e, antes, como secretário de Estado, já Marcelo Rebelo de Sousa fazia publicar no site da Presidência uma nota em que praticamente lamentava não poder exonerar esse membro do Governo. E em que vincava que "discorda da posição deste [do primeiro-ministro] quanto à leitura política dos factos e quanto à percepção deles resultante por parte dos portugueses, no que respeita ao prestígio das instituições que os regem".

 

Falando no jardim do Palácio de São Bento, António Costa parecia já antecipar essa nota do Presidente. Admitiu que toda esta situação tem sido "deplorável", defendeu a actuação dos serviços secretos, assim como todos os passos de João Galamba à exaustão. Lembrou ser sua competência propor os membros do Governo e assumiu "toda e qualquer responsabilidade" pela decisão de manter Galamba como ministro, incluindo contra a "opinião unânime dos comentadores, da generalidade dos agentes políticos" e até dos seus pares no PS – o presidente Carlos César incluído, de cuja recomendação de "refrescamento" diz ter "tomado boa nota".

 

"Era muito mais fácil ter aceitado o pedido de demissão de João Galamba. Em boa consciência não podia aceitar e prefiro ficar bem com a minha consciência", justificou Costa, defendendo não poder "prescindir deste membro do Governo que deu provas de dedicação ao serviço público".

 

“Não tenho nenhuma razão para entender que esse serviço [das secretas] agiu à margem da lei. Pelo contrário, agiu no exercício próprio das suas competências. Mas quero acrescentar uma coisa: ainda que assim não tivesse sido, essa responsabilidade seria, não do ministro das Infra-estruturas, mas, porventura do director desse serviço, da secretária-geral ou de mim próprio”, advogou Costa sobre a actuação do SIS na recuperação do computador e que foi muito criticada pela oposição.

 

Na nota anunciando o seu pedido de demissão, meia hora antes da declaração do primeiro-ministro, João Galamba justificava a sua decisão "em prol da necessária tranquilidade institucional" – um argumento central na decisão de manter o Governo em funções – e reiterava que a sua "área governativa nunca procurou ocultar qualquer facto ou documento".

 

Confronto institucional, diz oposição

À direita, o PSD reserva para esta quarta-feira uma declaração do líder do partido, mas em comunicado já assinala que a declaração do primeiro-ministro “mostra que o Governo está de costas voltadas para o país e para as instituições”. Mais claro foi André Ventura, que apontou o “confronto institucional” entre Governo e Presidente. O líder do Chega sustentou que o primeiro-ministro tentou uma “vitimização” em busca de legislativas antecipadas. Para o líder da Iniciativa Liberal, houve uma “humilhação pública” ao Presidente da República que deve agora usar os poderes previstos na Constituição.

 

À esquerda, a coordenadora do Bloco criticou a “declaração solene” de Costa “sobre o que foi uma coboiada” no Ministério das Infra-estruturas, lembrando que a prometida “estabilidade” não existe nesta maioria absoluta. Já a líder da bancada do PCP, Paula Santos, desvalorizou o pedido de demissão e a sua recusa, defendendo que é preciso políticas que respondam aos trabalhadores.

 

Apontando a “falta de liderança” de António Costa, o deputado do Livre, Rui Tavares, afastou no entanto a ideia de dissolução do Parlamento. Inês Sousa Real, do PAN, também assumiu preferir uma remodelação do Governo do que legislativas antecipadas.

 

As "vítimas" de Marcelo

Antes de João Galamba, o mais recente recado directo fora para a então secretária de Estado da Agricultura, Carla Alves, no início de Janeiro, quando no dia seguinte a tomar posse foi noticiado que tinha contas bancárias arrestadas num processo-crime do marido. Depois de uma tarde em que o primeiro-ministro defendeu a governante no Parlamento, o Presidente apontou-lhe uma “limitação política”. Carla Alves demitiu-se poucas horas depois.

 

Mas não foram só os avisos do Presidente directamente dirigidos a membros do Governo que se ouviram nestes 13 meses de Governo de maioria absoluta. Por várias vezes, Marcelo fez referência à forma como o Governo se organiza ou como governa. Uma das mais relevantes aconteceu na mensagem de Ano Novo em que o Presidente apontou o ano de 2023 como decisivo e lembrou que só o executivo e a maioria que o suporta “podem enfraquecer ou esvaziar, ou por erros de orgânica, ou por descoordenação, ou por fragmentação interna, ou por inacção, ou por falta de transparência, ou por descolagem da realidade”.

 

Já antes, no dia seguinte ao da demissão da então secretária de Estado Alexandra Reis, quando o Governo já acumulava oito baixas, o Presidente considerou estar em causa “um processo de reajustamento do Governo muito acelerado”, referindo que o executivo tinha “vícios originais ou soluções que não provaram num espaço de tempo muito curto”.

 

Nessa altura, Marcelo defendeu a tese de que a substituição é preferível à degradação da situação: “A história da política portuguesa mostra duas coisas: quando as pessoas não estão nas melhores condições políticas é melhor substituí-las a mantê-las numa situação que é um apodrecimento para o Estado.”

 

Desde que se tem assistido a uma sucessão de demissões e polémicas no Governo, Marcelo tem afastado o cenário de dissolução da Assembleia da República ao mesmo tempo que desafia o Governo a “governar melhor”. E não hesita em apontar o dedo a António Costa pelas suas escolhas.

 

Fê-lo na crise com o despacho sobre o aeroporto publicado pelo Ministério das Infra-estruturas então tutelado por Pedro Nuno Santos, em Junho passado, e voltou a fazê-lo em Janeiro na mini-remodelação em que João Galamba substituiu Pedro Nuno Santos e Marina Gonçalves, que já era secretária de Estado, passou a tomar conta da pasta da habitação.

 

Agora, há quem não esqueça o que o Presidente disse sobre a escolha de se usar apenas a “prata da casa” para as alterações mínimas no Governo: “Vamos ver. Se isso funcionar é boa ideia. Se não, retiraremos daí as conclusões." A bola passou para as mãos de Marcelo e o próprio Costa sinalizou isso mesmo ao responder aos jornalistas sobre a duração da legislatura: "Ela resulta da escolha dos portugueses e de opções que o sr. Presidente da República faça ou não faça."

 

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