“António Costa vestiu as penas do falcão. A curto
prazo, precisará de garras para o novo ecossistema político que acabou de
promover. Mostrar-se contra tudo e contra todos alimenta a sua aura de líder. E
expõe a sua cada vez maior fragilidade.”
EDITORIAL
Uma encenação absurda e perigosa, mas corajosa
António Costa vestiu as penas do falcão. A curto prazo,
precisará de garras para o novo ecossistema político que acabou de promover.
Manuel Carvalho
2 de Maio de
2023, 22:20
https://www.publico.pt/2023/05/02/politica/editorial/encenacao-absurda-perigosa-corajosa-2048229
O ministro das
Infra-Estruturas demitiu-se com um comunicado e, pouco menos de uma hora
depois, o primeiro-ministro recusou a demissão. Primeira pergunta: por que
razão deixou António Costa que João Galamba se demitisse, sabendo que esse
gesto seria inútil? Primeira resposta: porque precisava de um momento com
solenidade e drama para assumir que recusava a demissão. Montar uma encenação
para fazer um pronunciamento político é absurdo. Dar a cara como António Costa
deu, em nome da sua “consciência”, desafiando tudo e todos, é um acto de
coragem com consequências imprevisíveis.
No meio de um
governo a caminho acelerado para a ruína, a proclamação de Costa é uma forma
óbvia de mostrar ao país que ainda há quem mande: ele próprio. É ele quem
escolhe, é dele a interpretação sobre quem é culpado ou inocente pelos factos
“deploráveis” no gabinete de Galamba, é ele que marca o destino do seu Governo.
Acossado pelas críticas que alastraram ao PS, o primeiro-ministro tentou
mostrar uma faceta combativa. Logo confrontacional. É neste momento que a
política portuguesa vira a página. Em causa fica um dos pilares da estabilidade
dos últimos anos: a mão protectora do Presidente da República.
A partir do
momento em que António Costa recusa de forma aberta e ostensiva a leitura
política de Marcelo sobre a “novela” da TAP, depois de desafiar o quase
consenso do país (a maioria dos cidadãos ou a quase generalidade dos analistas
políticos, como reconheceu), está disposto a romper uma relação. O choque foi
assumido pelas partes. O seu desafio estende-se a sectores do PS e deixa aberta
portas a novas acusações da oposição ao suposto imobilismo e decadência do
Governo. Mas o que mais importa saber é o que resta da proximidade de Marcelo.
Até porque, nesse
diálogo entre Belém e São Bento vai pesar a correlação de força política entre
ambos, que corre em favor do Presidente. António Costa ganha ao manter Galamba
pela convicção, por ser a opção mais difícil de assumir, logo a mais corajosa.
Mas perde por se expor na pele de um líder arrogante, autocentrado, que perdeu
a dimensão da gravidade dos problemas e a ligação às exigências dos cidadãos.
Vai ser preciso
tempo para se perceber as consequências do que se passou. Ainda há muito
inquérito a fazer na comissão parlamentar da TAP. Muitos pormenores sórdidos e
comprometedores podem aparecer. Perante todas as dúvidas, certezas e
incertezas, António Costa vestiu as penas do falcão. A curto prazo, precisará
de garras para o novo ecossistema político que acabou de promover. Mostrar-se
contra tudo e contra todos alimenta a sua aura de líder. E expõe a sua
cada vez maior fragilidade.


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