quarta-feira, 3 de maio de 2023

Uma encenação absurda e perigosa, mas corajosa

 



“António Costa vestiu as penas do falcão. A curto prazo, precisará de garras para o novo ecossistema político que acabou de promover. Mostrar-se contra tudo e contra todos alimenta a sua aura de líder. E expõe a sua cada vez maior fragilidade.”


EDITORIAL

Uma encenação absurda e perigosa, mas corajosa

 

António Costa vestiu as penas do falcão. A curto prazo, precisará de garras para o novo ecossistema político que acabou de promover.

 

Manuel Carvalho

2 de Maio de 2023, 22:20

https://www.publico.pt/2023/05/02/politica/editorial/encenacao-absurda-perigosa-corajosa-2048229

 

O ministro das Infra-Estruturas demitiu-se com um comunicado e, pouco menos de uma hora depois, o primeiro-ministro recusou a demissão. Primeira pergunta: por que razão deixou António Costa que João Galamba se demitisse, sabendo que esse gesto seria inútil? Primeira resposta: porque precisava de um momento com solenidade e drama para assumir que recusava a demissão. Montar uma encenação para fazer um pronunciamento político é absurdo. Dar a cara como António Costa deu, em nome da sua “consciência”, desafiando tudo e todos, é um acto de coragem com consequências imprevisíveis.

 

No meio de um governo a caminho acelerado para a ruína, a proclamação de Costa é uma forma óbvia de mostrar ao país que ainda há quem mande: ele próprio. É ele quem escolhe, é dele a interpretação sobre quem é culpado ou inocente pelos factos “deploráveis” no gabinete de Galamba, é ele que marca o destino do seu Governo. Acossado pelas críticas que alastraram ao PS, o primeiro-ministro tentou mostrar uma faceta combativa. Logo confrontacional. É neste momento que a política portuguesa vira a página. Em causa fica um dos pilares da estabilidade dos últimos anos: a mão protectora do Presidente da República.

 

A partir do momento em que António Costa recusa de forma aberta e ostensiva a leitura política de Marcelo sobre a “novela” da TAP, depois de desafiar o quase consenso do país (a maioria dos cidadãos ou a quase generalidade dos analistas políticos, como reconheceu), está disposto a romper uma relação. O choque foi assumido pelas partes. O seu desafio estende-se a sectores do PS e deixa aberta portas a novas acusações da oposição ao suposto imobilismo e decadência do Governo. Mas o que mais importa saber é o que resta da proximidade de Marcelo.

 

Até porque, nesse diálogo entre Belém e São Bento vai pesar a correlação de força política entre ambos, que corre em favor do Presidente. António Costa ganha ao manter Galamba pela convicção, por ser a opção mais difícil de assumir, logo a mais corajosa. Mas perde por se expor na pele de um líder arrogante, autocentrado, que perdeu a dimensão da gravidade dos problemas e a ligação às exigências dos cidadãos.

 

Vai ser preciso tempo para se perceber as consequências do que se passou. Ainda há muito inquérito a fazer na comissão parlamentar da TAP. Muitos pormenores sórdidos e comprometedores podem aparecer. Perante todas as dúvidas, certezas e incertezas, António Costa vestiu as penas do falcão. A curto prazo, precisará de garras para o novo ecossistema político que acabou de promover. Mostrar-se contra tudo e contra todos alimenta a sua aura de líder. E expõe a sua cada vez maior fragilidade.

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