quinta-feira, 18 de maio de 2023

Ex-adjunto aumenta pressão sobre Galamba e fragiliza actuação das secretas

 



TAP

Ex-adjunto aumenta pressão sobre Galamba e fragiliza actuação das secretas

 

O telemóvel de trabalho do ex-adjunto de Galamba é um elemento central da argumentação de Pinheiro. Ex-adjunto fala em “máquina de propaganda do Governo” e em “abuso de poder usado pelo Estado”.

 

Marta Moitinho Oliveira e Henrique Pinto de Mesquita

17 de Maio de 2023, 22:12

https://www.publico.pt/2023/05/17/politica/noticia/exadjunto-aumenta-pressao-galamba-fragiliza-actuacao-secretas-2050080

 

O ex-adjunto do Ministério das Infra-Estruturas, Frederico Pinheiro, acusou esta quarta-feira o Governo de usar o Estado para o condicionar, argumentando que se realmente o objectivo do executivo fosse recuperar documentos confidenciais lhe teriam tirado também o telemóvel de serviço e não apenas o computador do ministério (o único equipamento que tinha as notas por si tiradas nas reuniões preparatórias da reunião secreta). Numa audição que durou cerca de cinco horas, Frederico Pinheiro aumentou a pressão sobre o ministro das Infra-Estruturas, João Galamba, que esta quinta-feira estará também a depor na comissão parlamentar de inquérito (CPI) à TAP. Pressão aproveitada pelos partidos à direita que vêem um ministro com menos condições para continuar no cargo.

 

Frederico Pinheiro arrancou a audição com uma longa intervenção, na qual foi muito claro: foi “ameaçado pelo Serviço de Informações de Segurança (SIS)” - versão que o director do SIS já tinha negado -; foi “injuriado pelo primeiro-ministro”; e “alvo de campanha por parte da poderosa máquina de comunicação do Governo”. Uma acusação da qual admite vir a retirar consequências, agindo judicialmente tendo em conta as declarações do primeiro-ministro, António Costa, e do ministro das Infra-Estruturas, – que o acusaram de "roubar" o computador – com quem trabalhava desde que Galamba substituiu Pedro Nuno Santos e que conhecia há dez anos.

 

Na base da acusação, Frederico Pinheiro apresentou um argumento central para tentar desmontar o motivo invocado para a intervenção das secretas. Mas se o SIS agiu para recuperar documentos confidenciais que estavam no computador de Frederico Pinheiro, por que razão não levou também o telemóvel de trabalho do ex-adjunto? Foi esta a dúvida que o ex-adjunto foi semear na cabeça dos deputados da CPI.

 

"Toda a coacção e abuso de poder usado pelo Estado" foram dirigidos exclusivamente para a recuperação do computador e não para o telemóvel, contou, exibindo o aparelho que tinha consigo. Isto porque, explicou, é apenas no computador que estão as notas que tirou nas reuniões de 16 e 17 de Janeiro que serviram para preparar a ida da ex-líder da TAP, Christine Ourmières-Widener, à comissão parlamentar de Economia, dar explicações sobre a indemnização paga pela companhia aérea à ex-administrador Alexandra Reis. Já no telemóvel está uma vasta série de documentos classificados, mas as notas não.

 

As tais notas que tirou comprometiam o ministro, tendo em conta a informação que era conhecida a 4 de Abril, dia em que foi pública a existência de uma reunião para preparar a ex-CEO da TAP ao Parlamento. E, portanto, Frederico Pinheiro atirou directo a João Galamba: "Havia intenção de omitir informação” e uma “clara tentativa de desresponsabilização política". ​

 

O telemóvel passou a ser objecto de interesse para a CPI. O líder do Chega André Ventura pediu que o aparelho ficasse na comissão ou fosse entregue à Polícia Judiciária (PJ) e Frederico Pinheiro aceitou entregá-lo. No final da audição, o ex-adjunto deixou o aparelho na comissão, que o entregará à PJ para tentar recuperar mensagens de WhatsApp que foram apagadas por um técnico de informática do ministério e que, segundo explicou Pinheiro ajudariam a provar a sua tese – de que o Governo teve a intenção de ocultar informação à CPI.

 

Para Galamba explicar quinta-feira, Pinheiro deixou uma lista de três "omissões" do ministro, numa tentativa de detalhar o que o governante queria esconder do Parlamento. Galamba escondeu que tinha havido uma reunião preparatória a 16 de Janeiro no ministério; depois omitiu o seu "papel explícito" no convite à ex-CEO da TAP para a reunião de 17 de Janeiro; e o email que prepara a resposta à CPI revela ocultações de várias ordens.

 

Frederico Pinheiro reiterou ainda aos deputados que esteve "sequestrado" no ministério, que nunca fugiu com o computador, que não partiu qualquer vidro do ministério, que sofreu pressão por parte do SIS, cujo agente terá referido pressões que vinham de cima "sem especificar", e que não agrediu os quatro membros da equipa de Galamba. "Sou agredido e não o agressor", disse, acrescentando que sofreu ameaças físicas por parte do próprio ministro no telefonema em que Galamba o demitiu.

 

O relato feito pelo ex-adjunto levou os partidos à direita a apontar para a falta de condições de Galamba para continuar como ministro. Paulo Rios de Oliveira, do PSD, disse que o ministro não tem "condições mínimas", André Ventura, do Chega, e Bernardo Blanco da IL alinharam pela mesma bitola.

 

Enquanto Pinheiro falava, os quatro membros do gabinete que dizem ter sido agredidas por Pinheiro enviaram uma nota à Lusa a acusar o ex-adjunto de mentir e a argumentar que as câmaras de videovigilância podem provar que Pinheiro arremessou a sua bicicleta contra o vidro do Ministério. Logo a seguir, também na comissão, Eugénia Correia, a chefe de gabinete de Galamba, manteve as acusações, acusando o ex-adjunto de distribuir "murros" e adiantou que as câmaras de vigilância do andar em que ocorreram as alegadas agressões não funcionam.

 

A responsável confirmou ter accionado as secretas, já que o computador tinha documentos classificados. Já a intervenção da PJ no ministério foi accionada por intervenção da ministra da Justiça, solicitada pelo ministro João Galamba, revelou Catarina Sarmento e Castro na comissão parlamentar de assuntos constitucionais.

 

Eugénia Correia disse ainda aos deputados que até 24 de Abril desconhecia que Pinheiro tinha notas das reuniões de Janeiro e que foi o ex-adjunto quem apagou as mensagens de WhatsApp, embora sob supervisão do técnico informático. Com J.V.P. e S.R.

 

Ministra da Justiça diz que só accionou a PJ a pedido de Galamba

A ministra da Justiça, Catarina Sarmento e Castro, confirmou que o ministro das Infra-Estruturas, João Galamba, lhe telefonou para que o pusesse em contacto com a Polícia Judiciária (PJ) por causa da recuperação do computador do seu ex-adjunto Frederico Pinheiro. A ministra assim fez, ligando de seguida ao director-nacional da PJ, Luís Neves, mas rejeitou ter falado sobre o SIS na mesma conversa com o seu colega de Governo.  

 

Os esclarecimentos de Catarina Sarmento e Castro foram dados durante uma audição pedida pelo Chega em que os deputados da oposição procuraram perceber a fita do tempo e o circuito de contactos feitos por João Galamba para recuperar o computador do seu ex-adjunto e que levaram à actuação do Serviço de Informações de Segurança (SIS) por alegadamente conter informação classificada.

 

“O ministro telefonou-me eram 11h da noite e o que pretendia era que o pusesse em contacto com a PJ”, disse, afastando qualquer referência aos serviços secretos: “Não falou do SIS.”

 

O ministro tinha afirmado, na conferência de imprensa a 29 de Abril, que, após contacto com o Ministério da Justiça, lhe foi dito que devia comunicar os acontecimentos ao SIS e à PJ. A audição da ministra não permitiu esclarecer quem pediu e autorizou a intervenção das secretas neste caso. Sofia Rodrigues

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