OPINIÃO
João “dois socos” Galamba e um gabinete em roda livre
Estamos perante uma telenovela patética derivada da
obsessão do gabinete das Infra-Estruturas com o controlo da informação.
João Miguel
Tavares
18 de Maio de
2023, 0:01
Aquilo que se
passou exactamente no Ministério das Infra-Estruturas na noite de 26 de Abril
não é claro, e é perfeitamente possível que as imagens das câmaras de
vigilância venham a revelar Frederico Pinheiro de cabeça perdida, tenha ele
atirado a bicicleta contra a entrada ou não, tenha ele quebrado vidros ou não,
tenha ele magoado alguém ou não. Aliás, se há cinco pessoas a lutar
violentamente por uma mochila, o mais provável é que todas tenham saído com
nódoas negras, e a seguir qualquer uma delas pode ir ao hospital mais próximo
requisitar o relatório das respectivas contusões.
Só que isso é
totalmente irrelevante para a avaliação política do episódio. E para essa
avaliação, que é o que importa, o depoimento de Frederico Pinheiro não poderia
ser mais esclarecedor, nem a sua audição mais credível. Mesmo o depoimento da
chefe de gabinete de João Galamba, Eugénia Correia – que tem um tonzinho
impaciente e autoritário que combina muito bem com o do seu ministro, e que
pelos vistos é capaz de dar a sua vida para impedir o rapto de um computador do
Estado –, apenas credibiliza a tese que deriva do depoimento de Frederico
Pinheiro, com a sua preocupação e a sua monomania acerca das “notas” do
adjunto. E a tese é esta: estamos perante uma telenovela patética derivada da
obsessão do gabinete das Infra-Estruturas com o controlo da informação, perante
a necessidade de ocultar uma reunião embaraçosa de João Galamba com Christine
Ourmières-Widener no dia 16 de Janeiro de 2023.
A cronologia é
agora conhecida: no dia 16 de Janeiro, Galamba reuniu-se com a CEO da TAP; no
dia 17, a CEO da TAP reuniu-se com deputados do PS para combinar as perguntas e
a estratégia para a audição do dia seguinte; no dia 18, ocorreu a audição de
Christine Widener, a propósito do caso Alexandra Reis, após um requerimento
potestativo do Chega. Só que isto, que hoje se conhece, foi sempre escondido
por João Galamba e pelo seu gabinete, nomeadamente no comunicado das
Infra-Estruturas de 6 de Abril – o dia em que Frederico Pinheiro viu a sua vida
andar para trás.
Esse comunicado
mentia com os dentes todos. Dizia que tinha sido a CEO da TAP a pedir para
assistir à reunião de 17 de Janeiro com deputados do PS, e nunca referia a
reunião com o próprio ministro no dia 16. Pior, na perspectiva de Frederico
Pinheiro – citava explicitamente o seu nome, sem que o próprio tivesse
previamente sido informado, afirmando que “o adjunto dr. Frederico Pinheiro e a
técnica especialista eng.ª Cátia Rosas” tinham estado presentes na reunião de
dia 17, em representação do Ministério das Infra-Estruturas. A partir desse
momento, como explicou na audição desta quarta-feira, Frederico Pinheiro sabia
que poderia vir a ser chamado a depor na comissão de inquérito à TAP – e logo
por causa de um comunicado que ele sabia ser uma mentira descarada. As notas
que tinha tomado nas reuniões de 16 e 17 tornaram-se, então, um grande problema
e um tema altamente sensível.
A partir daí,
veio a avalanche de equívocos, mentiras, ameaças e agressões, que incluíram um
ministro a prometer ao telefone dar “dois socos” ao adjunto. Em resumo: isto é
um grupo de gente que enlouqueceu porque achou que estava a perder o controlo
da informação. A partir de uma mentira para proteger o ministro de uma reunião
embaraçosa, criou-se uma tempestade da mais absoluta loucura e
irresponsabilidade. Que António Costa tenha abençoado tal loucura, é um
mistério sem explicação.
O autor é
colunista do PÚBLICO


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