quinta-feira, 18 de maio de 2023

João “dois socos” Galamba e um gabinete em roda livre

 



OPINIÃO

João “dois socos” Galamba e um gabinete em roda livre

 

Estamos perante uma telenovela patética derivada da obsessão do gabinete das Infra-Estruturas com o controlo da informação.

 

João Miguel Tavares

18 de Maio de 2023, 0:01

https://www.publico.pt/2023/05/18/opiniao/opiniao/joao-dois-socos-galamba-gabinete-roda-livre-2050090

 

Aquilo que se passou exactamente no Ministério das Infra-Estruturas na noite de 26 de Abril não é claro, e é perfeitamente possível que as imagens das câmaras de vigilância venham a revelar Frederico Pinheiro de cabeça perdida, tenha ele atirado a bicicleta contra a entrada ou não, tenha ele quebrado vidros ou não, tenha ele magoado alguém ou não. Aliás, se há cinco pessoas a lutar violentamente por uma mochila, o mais provável é que todas tenham saído com nódoas negras, e a seguir qualquer uma delas pode ir ao hospital mais próximo requisitar o relatório das respectivas contusões.

 

Só que isso é totalmente irrelevante para a avaliação política do episódio. E para essa avaliação, que é o que importa, o depoimento de Frederico Pinheiro não poderia ser mais esclarecedor, nem a sua audição mais credível. Mesmo o depoimento da chefe de gabinete de João Galamba, Eugénia Correia – que tem um tonzinho impaciente e autoritário que combina muito bem com o do seu ministro, e que pelos vistos é capaz de dar a sua vida para impedir o rapto de um computador do Estado –, apenas credibiliza a tese que deriva do depoimento de Frederico Pinheiro, com a sua preocupação e a sua monomania acerca das “notas” do adjunto. E a tese é esta: estamos perante uma telenovela patética derivada da obsessão do gabinete das Infra-Estruturas com o controlo da informação, perante a necessidade de ocultar uma reunião embaraçosa de João Galamba com Christine Ourmières-Widener no dia 16 de Janeiro de 2023.

 

A cronologia é agora conhecida: no dia 16 de Janeiro, Galamba reuniu-se com a CEO da TAP; no dia 17, a CEO da TAP reuniu-se com deputados do PS para combinar as perguntas e a estratégia para a audição do dia seguinte; no dia 18, ocorreu a audição de Christine Widener, a propósito do caso Alexandra Reis, após um requerimento potestativo do Chega. Só que isto, que hoje se conhece, foi sempre escondido por João Galamba e pelo seu gabinete, nomeadamente no comunicado das Infra-Estruturas de 6 de Abril – o dia em que Frederico Pinheiro viu a sua vida andar para trás.

 

Esse comunicado mentia com os dentes todos. Dizia que tinha sido a CEO da TAP a pedir para assistir à reunião de 17 de Janeiro com deputados do PS, e nunca referia a reunião com o próprio ministro no dia 16. Pior, na perspectiva de Frederico Pinheiro – citava explicitamente o seu nome, sem que o próprio tivesse previamente sido informado, afirmando que “o adjunto dr. Frederico Pinheiro e a técnica especialista eng.ª Cátia Rosas” tinham estado presentes na reunião de dia 17, em representação do Ministério das Infra-Estruturas. A partir desse momento, como explicou na audição desta quarta-feira, Frederico Pinheiro sabia que poderia vir a ser chamado a depor na comissão de inquérito à TAP – e logo por causa de um comunicado que ele sabia ser uma mentira descarada. As notas que tinha tomado nas reuniões de 16 e 17 tornaram-se, então, um grande problema e um tema altamente sensível.

 

A partir daí, veio a avalanche de equívocos, mentiras, ameaças e agressões, que incluíram um ministro a prometer ao telefone dar “dois socos” ao adjunto. Em resumo: isto é um grupo de gente que enlouqueceu porque achou que estava a perder o controlo da informação. A partir de uma mentira para proteger o ministro de uma reunião embaraçosa, criou-se uma tempestade da mais absoluta loucura e irresponsabilidade. Que António Costa tenha abençoado tal loucura, é um mistério sem explicação.

 

O autor é colunista do PÚBLICO

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