EDITORIAL
A República das comadres
A CPI é inútil? Não. É apenas um instrumento eficaz para
nos fazer reflectir sobre o estado da democracia
Manuel Carvalho
17 de Maio de
2023, 23:09
https://www.publico.pt/2023/05/17/politica/editorial/republica-comadres-2050092
Durante horas, o
país teve direito a uma telenovela. A Assembleia da República, através da
comissão parlamentar de inquérito (CPI) à tutela política da TAP, empenhou-se
em esgadanhar os contornos de um caso de polícia, discutindo quem agrediu, quem
foi agredido, quem puxou por uma mochila, quem deu murros, quem chamou a
polícia, de que esquadra e a que horas, quem mandou fechar as portas do
ministério e porquê, quem chamou o SIS, quando e como. Tudo isto aconteceu por
duas razões de cristalina simplicidade: porque, sem um inquérito judicial,
jamais saberemos quem mente; e, principalmente, porque o que era importante
saber sobre a tutela política da TAP já é mais do que sabido.
Chegámos assim
àquele limbo em que o detalhe esconde o essencial, a trica prevalece sobre a
substância, a raiva e a vingança anulam a sensatez e a verdade sucumbe ao
instinto de sobrevivência. O que se passou nesta quarta-feira na Assembleia
tornou-se uma novela discutida por comadres – com a devida vénia a essas
personagens deliciosas e o indispensável respeito pelos deputados. Para a
sanidade democrática, interessa mais saber que o Ministério das
Infra-Estruturas é, ou foi, um saco de gatos sem prestígio do que indagar se
puxar uma mochila justifica um murro, uma fuga, a selagem das instalações ou a
chamada da polícia.
Nem Frederico
Pinheiro, o assessor exonerado, nem Eugénia Cabaço, a chefe de gabinete, foram
claros e inequívocos na sua argumentação. Um e outro exibiram-se como mestres
de narrativas buriladas por juristas. A indefinição acaba por beneficiar o
ministro João Galamba, cujo destino político está, como se sabe, dependente de
uma novidade comprometedora. A chefe de gabinete apresentou (até à hora da
escrita deste editorial) uma novela com uma trama bem estudada. Frederico
Pinheiro uma história com sentido. Podemos convocar a intuição para acreditar
mais num ou mais noutro, mesmo que seja necessário considerar que a máquina do
Governo e o instinto gregário do gabinete de Galamba tornam este jogo desigual.
Esqueça-se assim
a novela desta quarta-feira, e, enquanto se espera a prestação do ministro,
salvemos a CPI com aquilo que já conseguiu: a demonstração de que o ministro
tentou condicionar audições na Comissão de Economia, que tentou esconder
reuniões com a CEO da TAP onde esse condicionamento foi urdido, que o incidente
se tornou no Rubicão para a credibilidade do Governo, que o Ministério das
Infra-Estruturas da República é um saloon de cowboys onde, na ânsia de explorar
politicamente o caso, os deputados trocaram a substância do decoro pela
zaragata do folhetim. A CPI é inútil? Não. É apenas um instrumento eficaz para
nos fazer reflectir sobre o estado da democracia.


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