quinta-feira, 18 de maio de 2023

A República das comadres

 



EDITORIAL

A República das comadres

 

A CPI é inútil? Não. É apenas um instrumento eficaz para nos fazer reflectir sobre o estado da democracia

 

Manuel Carvalho

17 de Maio de 2023, 23:09

https://www.publico.pt/2023/05/17/politica/editorial/republica-comadres-2050092

 

Durante horas, o país teve direito a uma telenovela. A Assembleia da República, através da comissão parlamentar de inquérito (CPI) à tutela política da TAP, empenhou-se em esgadanhar os contornos de um caso de polícia, discutindo quem agrediu, quem foi agredido, quem puxou por uma mochila, quem deu murros, quem chamou a polícia, de que esquadra e a que horas, quem mandou fechar as portas do ministério e porquê, quem chamou o SIS, quando e como. Tudo isto aconteceu por duas razões de cristalina simplicidade: porque, sem um inquérito judicial, jamais saberemos quem mente; e, principalmente, porque o que era importante saber sobre a tutela política da TAP já é mais do que sabido.

 

Chegámos assim àquele limbo em que o detalhe esconde o essencial, a trica prevalece sobre a substância, a raiva e a vingança anulam a sensatez e a verdade sucumbe ao instinto de sobrevivência. O que se passou nesta quarta-feira na Assembleia tornou-se uma novela discutida por comadres – com a devida vénia a essas personagens deliciosas e o indispensável respeito pelos deputados. Para a sanidade democrática, interessa mais saber que o Ministério das Infra-Estruturas é, ou foi, um saco de gatos sem prestígio do que indagar se puxar uma mochila justifica um murro, uma fuga, a selagem das instalações ou a chamada da polícia.

 

Nem Frederico Pinheiro, o assessor exonerado, nem Eugénia Cabaço, a chefe de gabinete, foram claros e inequívocos na sua argumentação. Um e outro exibiram-se como mestres de narrativas buriladas por juristas. A indefinição acaba por beneficiar o ministro João Galamba, cujo destino político está, como se sabe, dependente de uma novidade comprometedora. A chefe de gabinete apresentou (até à hora da escrita deste editorial) uma novela com uma trama bem estudada. Frederico Pinheiro uma história com sentido. Podemos convocar a intuição para acreditar mais num ou mais noutro, mesmo que seja necessário considerar que a máquina do Governo e o instinto gregário do gabinete de Galamba tornam este jogo desigual.

 

Esqueça-se assim a novela desta quarta-feira, e, enquanto se espera a prestação do ministro, salvemos a CPI com aquilo que já conseguiu: a demonstração de que o ministro tentou condicionar audições na Comissão de Economia, que tentou esconder reuniões com a CEO da TAP onde esse condicionamento foi urdido, que o incidente se tornou no Rubicão para a credibilidade do Governo, que o Ministério das Infra-Estruturas da República é um saloon de cowboys onde, na ânsia de explorar politicamente o caso, os deputados trocaram a substância do decoro pela zaragata do folhetim. A CPI é inútil? Não. É apenas um instrumento eficaz para nos fazer reflectir sobre o estado da democracia.

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