PIB
Em queda na pandemia, economia portuguesa recupera apesar
da guerra
Nos últimos quatro anos, perante o impacto de dois
choques de grande dimensão, Portugal, à semelhança de outros países do Sul,
perdeu terreno ao início, mas agora está a recuperar mais rapidamente
Sérgio Aníbal
16 de Maio de
2023, 6:47
Queda e retoma do turismo têm marcado desempenho da
economia nos últimos quatro anos
Depois de ter
sido, nos dois anos após o início da pandemia, o segundo país com um pior
desempenho económico na zona euro, Portugal prepara-se para ser, em 2022 e
2023, um dos que melhor estão a conseguir lidar com o novo choque trazido pela
guerra na Ucrânia. É uma característica que partilha com vários outros países
do Sul da Europa que, com a ajuda da retoma forte do turismo, estão a recuperar
o terreno que antes tinham perdido.
As previsões de
Primavera publicadas esta segunda-feira pela Comissão Europeia revelam, de
forma clara, a existência de dois tipos de países na forma como as suas
economias estão a reagir aos dois grandes choques externos de que foram alvo
desde o final de 2019.
Por um lado, há
os países, localizados predominantemente no Norte e Leste da Europa, que, por
terem uma economia em que os serviços não têm um peso muito significativo,
sentiram um impacto relativamente mais moderado da pandemia em 2020 e 2021, mas
que, quando os efeitos da guerra na Ucrânia se fizeram sentir a partir de 2022,
sofreram com a sua maior dependência das importações de energia da Rússia.
Por outro lado,
mais a sul, países menos industrializados, que têm no turismo uma das suas
fontes principais de receita e que de uma forma geral foram forçados a ser mais
prudentes nos apoios orçamentais concedidos, viram as suas economias a caírem
de forma particularmente abrupta em 2020. Agora, contudo, estão, mesmo perante
a escalada de preços trazida pelo conflito na Ucrânia, a conseguir recuperar
mais rápido à medida que o sector dos serviços regressa aos níveis de procura
que existiam no passado.
Portugal é,
mostram os números publicados pela Comissão, um dos casos exemplares deste
segundo grupo de países.
No ano de 2021, o
PIB português cresceu 5,5%, mas ficou muito longe de conseguir compensar
integralmente a queda de 8,3% que tinha registado em 2020. No total dos dois
anos, a perda do PIB português foi de 3,3%, o segundo pior resultado entre os
27 países da União Europeia, apenas à frente da Espanha. Em média, na União
Europeia, a perda no PIB registada entre 2019 e 2021 foi de 0,5%, com 19 dos 27
países já a registarem um PIB em 2021 superior ao nível pré-pandemia.
A partir de 2022,
no entanto, a economia portuguesa começou a recuperar o terreno perdido. Com o
regresso muito rápido da actividade turística ao país a ajudar decisivamente, a
economia portuguesa foi a terceira que mais cresceu no ano passado e, agora, de
acordo com a nova previsão da Comissão Europeia publicada esta segunda-feira,
estará novamente entre as mais rápidas este ano.
Feitas as contas,
entre 2019 (o último ano sem o efeito das duas últimas grandes crises) e 2023,
a economia portuguesa já cresceu 5,7%, tendo subido, face a 2021, 10 lugares na
tabela dos melhores desempenhos dentro da UE (foi o 16.º país com melhor
resultado no total dos últimos quatro anos) e regista já um desempenho superior
ao da média da União Europeia, que apresenta uma variação do PIB entre 2019 e
2023 de 4%.
A economia
portuguesa até tem características que a prejudicam na actual conjuntura de
inflação alta e agravamento das taxas de juro. O elevado nível de endividamento
e o peso dos contratos de crédito a taxas de juro variáveis constituem um
entrave à evolução do consumo privado e do investimento. Mas, em compensação,
tal como acontece com outros países como Chipre, Malta, Grécia ou Eslovénia, a forma
como as exportações de serviços de turismo regressaram, contra as expectativas
iniciais, aos níveis anteriores à pandemia e depois continuaram a crescer foi
mais do que suficiente para que a economia portuguesa crescesse mais do que a
média europeia.
Crescimento revisto em alta
Este desempenho
apenas se tornou evidente quando foram divulgados os resultados do primeiro
trimestre deste ano, que surpreenderam a maioria dos analistas, incluindo os da
Comissão Europeia. E nas previsões de Primavera divulgadas esta segunda-feira
os responsáveis do executivo europeu viram-se forçados a rever as suas
previsões de crescimento para Portugal.
Depois de se
ficar a saber que, no primeiro trimestre do ano, a economia cresceu 1,6% em
cadeia, uma forte aceleração face à quase estagnação registada nos trimestres
anteriores, Bruxelas fez uma revisão em alta da sua previsão para o total de
2023, que em Fevereiro era de um crescimento de 1%, passando a projectar uma
variação do PIB português de 2,4%.
É um número que
fica acima dos 1,8% previstos pelo Governo no Programa de Estabilidade, mas que
é mais baixo que os 2,6% projectados pelo Fundo Monetário Internacional na
semana passada.
Este crescimento
de 2,4% de Portugal, a concretizarem-se as estimativas agora divulgadas pela
Comissão, voltaria a colocar o país, tal como já aconteceu em 2022, nos lugares
cimeiros da UE no que diz respeito ao desempenho da economia. Em 2022,
Portugal, com uma variação do PIB de 6,7%, não só superou a média da UE de
3,5%, como foi, entre os 27 países da UE, o terceiro que mais cresceu, apenas
atrás da Irlanda e de Malta.
Para 2023, a
previsão de crescimento de 2,4% é mais do dobro da média estimada para UE, de
1%, e é a quarta maior entre os 27 países da UE, atrás novamente da Irlanda e
de Malta, para além também da Roménia.
De notar que, no
caso da Irlanda, como nota a Comissão Europeia nas suas previsões, os fortes
crescimentos de 12% no ano passado e de 5,5% previsto para este ano se devem em
larga medida aos resultados das multinacionais presentes no país, sendo que “a
procura interna modificada, que melhor reflecte a actividade económica
subjacente do país, se estima ter crescido 8,2% em 2022 e 2% em 2023”.
Com um desempenho
inverso ao português, destacam-se vários países do Leste e do Norte da Europa,
que em 2020 e 2021 resistiram relativamente bem ao impacto da pandemia, mas que
agora revelam dificuldades, perante os impactos da guerra, em acelerar. Países
como a Eslováquia ou a Finlândia, que no final de 2021 já apresentavam um PIB superior
ao de 2019, cresceram muito pouco a partir daí, o que faz com o que seu
desempenho nos últimos quatro anos já seja inferior ao de Portugal.
É também isto que
faz, de acordo com as previsões da Comissão, com que Portugal, apesar de ser
ultrapassado pela Roménia no PIB per capita em paridade do poder de compra,
possa conseguir, no ano de 2023, recuperar a posição que tinha perdido
anteriormente neste ranking para a Polónia e a Hungria.
Esta
ultrapassagem, contudo, pode ser temporária, já que a Comissão Europeia prevê
que, em 2024, apesar de continuar a crescer mais do que média da UE (1,8%
contra 1,7%), volte a ficar atrás da maioria dos países de pequena e média
dimensão da União.

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