terça-feira, 16 de maio de 2023

Em queda na pandemia, economia portuguesa recupera apesar da guerra

 


PIB

Em queda na pandemia, economia portuguesa recupera apesar da guerra

 

Nos últimos quatro anos, perante o impacto de dois choques de grande dimensão, Portugal, à semelhança de outros países do Sul, perdeu terreno ao início, mas agora está a recuperar mais rapidamente

 

Sérgio Aníbal

16 de Maio de 2023, 6:47

https://www.publico.pt/2023/05/16/economia/noticia/queda-pandemia-economia-portuguesa-recupera-apesar-guerra-2049754

 

Queda e retoma do turismo têm marcado desempenho da economia nos últimos quatro anos

 

Depois de ter sido, nos dois anos após o início da pandemia, o segundo país com um pior desempenho económico na zona euro, Portugal prepara-se para ser, em 2022 e 2023, um dos que melhor estão a conseguir lidar com o novo choque trazido pela guerra na Ucrânia. É uma característica que partilha com vários outros países do Sul da Europa que, com a ajuda da retoma forte do turismo, estão a recuperar o terreno que antes tinham perdido.

 

As previsões de Primavera publicadas esta segunda-feira pela Comissão Europeia revelam, de forma clara, a existência de dois tipos de países na forma como as suas economias estão a reagir aos dois grandes choques externos de que foram alvo desde o final de 2019.

 

Por um lado, há os países, localizados predominantemente no Norte e Leste da Europa, que, por terem uma economia em que os serviços não têm um peso muito significativo, sentiram um impacto relativamente mais moderado da pandemia em 2020 e 2021, mas que, quando os efeitos da guerra na Ucrânia se fizeram sentir a partir de 2022, sofreram com a sua maior dependência das importações de energia da Rússia.

 

Por outro lado, mais a sul, países menos industrializados, que têm no turismo uma das suas fontes principais de receita e que de uma forma geral foram forçados a ser mais prudentes nos apoios orçamentais concedidos, viram as suas economias a caírem de forma particularmente abrupta em 2020. Agora, contudo, estão, mesmo perante a escalada de preços trazida pelo conflito na Ucrânia, a conseguir recuperar mais rápido à medida que o sector dos serviços regressa aos níveis de procura que existiam no passado.

 

Portugal é, mostram os números publicados pela Comissão, um dos casos exemplares deste segundo grupo de países.

 

No ano de 2021, o PIB português cresceu 5,5%, mas ficou muito longe de conseguir compensar integralmente a queda de 8,3% que tinha registado em 2020. No total dos dois anos, a perda do PIB português foi de 3,3%, o segundo pior resultado entre os 27 países da União Europeia, apenas à frente da Espanha. Em média, na União Europeia, a perda no PIB registada entre 2019 e 2021 foi de 0,5%, com 19 dos 27 países já a registarem um PIB em 2021 superior ao nível pré-pandemia.

 

A partir de 2022, no entanto, a economia portuguesa começou a recuperar o terreno perdido. Com o regresso muito rápido da actividade turística ao país a ajudar decisivamente, a economia portuguesa foi a terceira que mais cresceu no ano passado e, agora, de acordo com a nova previsão da Comissão Europeia publicada esta segunda-feira, estará novamente entre as mais rápidas este ano.

 

Feitas as contas, entre 2019 (o último ano sem o efeito das duas últimas grandes crises) e 2023, a economia portuguesa já cresceu 5,7%, tendo subido, face a 2021, 10 lugares na tabela dos melhores desempenhos dentro da UE (foi o 16.º país com melhor resultado no total dos últimos quatro anos) e regista já um desempenho superior ao da média da União Europeia, que apresenta uma variação do PIB entre 2019 e 2023 de 4%.

 

A economia portuguesa até tem características que a prejudicam na actual conjuntura de inflação alta e agravamento das taxas de juro. O elevado nível de endividamento e o peso dos contratos de crédito a taxas de juro variáveis constituem um entrave à evolução do consumo privado e do investimento. Mas, em compensação, tal como acontece com outros países como Chipre, Malta, Grécia ou Eslovénia, a forma como as exportações de serviços de turismo regressaram, contra as expectativas iniciais, aos níveis anteriores à pandemia e depois continuaram a crescer foi mais do que suficiente para que a economia portuguesa crescesse mais do que a média europeia.

 

Crescimento revisto em alta

Este desempenho apenas se tornou evidente quando foram divulgados os resultados do primeiro trimestre deste ano, que surpreenderam a maioria dos analistas, incluindo os da Comissão Europeia. E nas previsões de Primavera divulgadas esta segunda-feira os responsáveis do executivo europeu viram-se forçados a rever as suas previsões de crescimento para Portugal.

 

Depois de se ficar a saber que, no primeiro trimestre do ano, a economia cresceu 1,6% em cadeia, uma forte aceleração face à quase estagnação registada nos trimestres anteriores, Bruxelas fez uma revisão em alta da sua previsão para o total de 2023, que em Fevereiro era de um crescimento de 1%, passando a projectar uma variação do PIB português de 2,4%.

 

É um número que fica acima dos 1,8% previstos pelo Governo no Programa de Estabilidade, mas que é mais baixo que os 2,6% projectados pelo Fundo Monetário Internacional na semana passada.

 

Este crescimento de 2,4% de Portugal, a concretizarem-se as estimativas agora divulgadas pela Comissão, voltaria a colocar o país, tal como já aconteceu em 2022, nos lugares cimeiros da UE no que diz respeito ao desempenho da economia. Em 2022, Portugal, com uma variação do PIB de 6,7%, não só superou a média da UE de 3,5%, como foi, entre os 27 países da UE, o terceiro que mais cresceu, apenas atrás da Irlanda e de Malta.

 

Para 2023, a previsão de crescimento de 2,4% é mais do dobro da média estimada para UE, de 1%, e é a quarta maior entre os 27 países da UE, atrás novamente da Irlanda e de Malta, para além também da Roménia.

 

De notar que, no caso da Irlanda, como nota a Comissão Europeia nas suas previsões, os fortes crescimentos de 12% no ano passado e de 5,5% previsto para este ano se devem em larga medida aos resultados das multinacionais presentes no país, sendo que “a procura interna modificada, que melhor reflecte a actividade económica subjacente do país, se estima ter crescido 8,2% em 2022 e 2% em 2023”.

 

Com um desempenho inverso ao português, destacam-se vários países do Leste e do Norte da Europa, que em 2020 e 2021 resistiram relativamente bem ao impacto da pandemia, mas que agora revelam dificuldades, perante os impactos da guerra, em acelerar. Países como a Eslováquia ou a Finlândia, que no final de 2021 já apresentavam um PIB superior ao de 2019, cresceram muito pouco a partir daí, o que faz com o que seu desempenho nos últimos quatro anos já seja inferior ao de Portugal.

 

É também isto que faz, de acordo com as previsões da Comissão, com que Portugal, apesar de ser ultrapassado pela Roménia no PIB per capita em paridade do poder de compra, possa conseguir, no ano de 2023, recuperar a posição que tinha perdido anteriormente neste ranking para a Polónia e a Hungria.

 

Esta ultrapassagem, contudo, pode ser temporária, já que a Comissão Europeia prevê que, em 2024, apesar de continuar a crescer mais do que média da UE (1,8% contra 1,7%), volte a ficar atrás da maioria dos países de pequena e média dimensão da União.

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