terça-feira, 16 de maio de 2023

O fabuloso negócio da banca






EDITORIAL

O fabuloso negócio da banca

 

Os bancos vivem o melhor dos mundos: ganham com as altas comissões, ganham com a subida dos juros e continuam a ganhar com a segunda taxa de juros para os depósitos mais baixa da zona euro.

 

Manuel Carvalho

15 de Maio de 2023, 21:30

https://www.publico.pt/2023/05/15/economia/editorial/fabuloso-negocio-banca-2049756


A banca nacional registou no primeiro trimestre resultados exuberantes e esse desempenho esconde uma dimensão irracional. Ter uma banca sólida, com liquidez e lucros para os seus accionistas seria uma excelente notícia se esses resultados não resultassem em grande parte do castigo aos depositantes portugueses, cujas poupanças são as segundas mais mal remuneradas da zona euro. O BCP ganhou em três meses 215 milhões, a Caixa 285, o Santander 180 e o Novo Banco 148 não apenas porque a economia está a crescer ou porque a sua gestão foi maravilhosa: esses números resultam de uma relação desequilibrada com os seus clientes.

 

Em tempos, a banca justificava as comissões por vezes brutais que os seus clientes pagam com as baixas taxas de juro que lhe impunham margens financeiras (a diferença entre os juros que cobra e os que paga) reduzidas. Ouviram-se críticas, mas havia um fundamento racional no argumento. Mas, como bem notou o Presidente da República, tudo tem o seu tempo. A realidade mudou em favor da banca e a banca não mudou para se ajustar à realidade. Num contexto de crise, em que os encargos com os empréstimos disparam, começa a colocar-se no papel do especulador que carece de responsabilidade social. É um erro.

 

O mercado poderia responder a esta disfunção, mas já se percebeu que não responde. A ausência de uma concorrência agressiva ajuda a banca. Muitos portugueses reagiram aos estímulos do mercado dos Certificados de Aforro e mudaram as suas poupanças. Entre Julho de 2022 e Março deste ano, o volume total de depósitos dos bancos nacionais reduziu-se em 35 mil milhões de euros. Nem isso parece demover a banca.

 

O enorme stock de poupança à sua guarda, estimado em Março na casa dos 345 mil milhões de euros (mais do que o produto interno bruto anual do país), é mais do que suficiente para as suas necessidades. E, de mansinho, os bancos vivem o melhor dos mundos: dão-se ao luxo de ganhar com as altas comissões, ganham com a subida dos juros e continuam a ganhar com a segunda taxa de juros para os depósitos mais baixa da zona euro.

 

De momento, a sua estratégia resulta em lucros elevados. A prazo, os bancos ficarão mais vulneráveis à guerrilha que os extremismos da política lhes movem. Depreciarão a sua relação com os clientes. Ressuscitarão a imagem do banqueiro obeso, de cartola e charuto. Uma banca robusta e saudável para a economia faz falta; uma banca que acumula lucros recorde por espremer os clientes nem por isso.


Sem comentários: