EDITORIAL
O fabuloso negócio da banca
Os bancos vivem o melhor dos mundos: ganham com as altas
comissões, ganham com a subida dos juros e continuam a ganhar com a segunda
taxa de juros para os depósitos mais baixa da zona euro.
Manuel Carvalho
15 de Maio de
2023, 21:30
https://www.publico.pt/2023/05/15/economia/editorial/fabuloso-negocio-banca-2049756
A banca nacional registou no primeiro trimestre resultados exuberantes e esse desempenho esconde uma dimensão irracional. Ter uma banca sólida, com liquidez e lucros para os seus accionistas seria uma excelente notícia se esses resultados não resultassem em grande parte do castigo aos depositantes portugueses, cujas poupanças são as segundas mais mal remuneradas da zona euro. O BCP ganhou em três meses 215 milhões, a Caixa 285, o Santander 180 e o Novo Banco 148 não apenas porque a economia está a crescer ou porque a sua gestão foi maravilhosa: esses números resultam de uma relação desequilibrada com os seus clientes.
Em tempos, a
banca justificava as comissões por vezes brutais que os seus clientes pagam com
as baixas taxas de juro que lhe impunham margens financeiras (a diferença entre
os juros que cobra e os que paga) reduzidas. Ouviram-se críticas, mas havia um
fundamento racional no argumento. Mas, como bem notou o Presidente da
República, tudo tem o seu tempo. A realidade mudou em favor da banca e a banca
não mudou para se ajustar à realidade. Num contexto de crise, em que os
encargos com os empréstimos disparam, começa a colocar-se no papel do
especulador que carece de responsabilidade social. É um erro.
O mercado poderia
responder a esta disfunção, mas já se percebeu que não responde. A ausência de
uma concorrência agressiva ajuda a banca. Muitos portugueses reagiram aos
estímulos do mercado dos Certificados de Aforro e mudaram as suas poupanças.
Entre Julho de 2022 e Março deste ano, o volume total de depósitos dos bancos
nacionais reduziu-se em 35 mil milhões de euros. Nem isso parece demover a
banca.
O enorme stock de
poupança à sua guarda, estimado em Março na casa dos 345 mil milhões de euros
(mais do que o produto interno bruto anual do país), é mais do que suficiente
para as suas necessidades. E, de mansinho, os bancos vivem o melhor dos mundos:
dão-se ao luxo de ganhar com as altas comissões, ganham com a subida dos juros
e continuam a ganhar com a segunda taxa de juros para os depósitos mais baixa
da zona euro.
De momento, a sua
estratégia resulta em lucros elevados. A prazo, os bancos ficarão mais
vulneráveis à guerrilha que os extremismos da política lhes movem. Depreciarão
a sua relação com os clientes. Ressuscitarão a imagem do banqueiro obeso, de
cartola e charuto. Uma banca robusta e saudável para a economia faz falta; uma
banca que acumula lucros recorde por espremer os clientes nem por isso.


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