terça-feira, 7 de fevereiro de 2023

5 de Janeiro de 2017: Risco sísmico em Lisboa: "É como estar em cima de um barril de pólvora" / Seismic risk in Lisbon: "It's like being on top of a powder keg"

 

Um cenário como o de 1755 não é assim tão improvável, defendeu o especialista


LISBOA

Risco sísmico em Lisboa: "É como estar em cima de um barril de pólvora"

 

Mário Lopes, investigador do Instituto Superior Técnico, esteve numa reunião com deputados da assembleia municipal e criticou a inércia do poder político face ao tema.

 

João Pedro Pincha

5 de Janeiro de 2017, 8:35

https://www.publico.pt/2017/01/05/local/noticia/risco-sismico-em-lisboa-e-como-estar-em-cima-de-um-barril-de-polvora-1757115

 

Erros vários, má fortuna, indiferença. “Se tivermos a repetição de 1755, um terço de Lisboa fica em escombros [e ninguém parece verdadeiramente preocupado com isso]”, lamenta Mário Lopes, professor do Instituto Superior Técnico que há décadas estuda sismos e como prevenir os seus efeitos. O especialista diz que o assunto só não é encarado de frente por falta de vontade política.

 

“O problema sísmico não se resolve a nível técnico. Isto é, como muitos outros problemas do país, um problema político”, disse Mário Lopes esta quarta-feira aos deputados das comissões de Urbanismo e Mobilidade da Assembleia Municipal de Lisboa. “Nós estamos em cima do problema. É como estar em cima de um barril de pólvora e a mecha estar a arder”, afirmou o especialista, que encontra muitas semelhanças entre a capital portuguesa e Amatrice.

 

Naquela cidade italiana, abalada várias vezes entre Agosto e Dezembro do ano passado, “não vai ficar uma única construção de pé” e isso deve-se sobretudo a reabilitação urbana mal feita. “O que se faz é um peeling aos edifícios e o resultado é este”, disse o docente universitário, enquanto mostrava aos deputados fotografias de Amatrice destruída. “É uma reabilitação como a que nós fazemos aqui em Lisboa”, atirou.

 

Mário Lopes deu o exemplo de Nórcia, uma cidade a cerca de 60 quilómetros de Amatrice, também fortemente abalada por terramotos em 2016. O investigador explicou que, nos últimos 40 anos, quase todas as infra-estruturas de Nórcia tiveram obras de reforço sísmico, o que contribuiu para que as consequências tenham sido muito menos graves ali.

 

Em Lisboa, lamentou, nem as construções novas, nem as reabilitações têm em conta o risco de terramotos. “A Baixa é um marco da história da humanidade que nós próprios temos andado a destruir”, disse, referindo-se à remoção das chamadas "gaiolas pombalinas" e ao aumento do número de pisos sem o reforço das bases dos edifícios. “Isto é a receita para o desastre.”

 

“Pontes são mais seguras do que os prédios”

Mário Lopes, vice-presidente do Instituto de Engenharia de Estruturas, Território e Construção do Técnico e, durante muitos anos, presidente da Sociedade Portuguesa de Engenharia Sísmica (SPES), já muitas vezes discutiu estes temas com o poder político – mas até agora sem grande sucesso. “Isto não é um conjunto de aldrabões que inventaram aqui umas patranhas para ganhar algum dinheiro à custa da reabilitação urbana, isto é um problema de todos os portugueses”, disse.

 

Recordando uma intervenção do professor universitário no Parlamento, há uns anos, que a deixou “aterrorizada”, a deputada municipal do PSD Rosa Carvalho da Silva perguntou a Mário Lopes se as duas pontes de Lisboa também corriam risco de colapso em caso de sismo. A resposta do especialista provocou burburinho entre os presentes: “Está-se mais seguro em cima da Ponte 25 de Abril ou da Vasco da Gama do que em muitos prédios de Lisboa.”

 

O problema é tanto de legislação – que não estabelece regras claras para reabilitações –, como de fiscalização das obras, disse o docente. Os deputados municipais não fizeram comentários ou perguntas sobre esse tópico, mas Mário Lopes insistiu uma vez mais que “é fundamental que o Estado dê o exemplo”, uma vez que “o problema não existe no inconsciente das pessoas”.

 

Esta foi a primeira de um conjunto de reuniões sobre o risco sísmico de Lisboa promovidas pela Comissão de Urbanismo da assembleia municipal. No fim, os deputados querem publicar um relatório com as conclusões de todas as audiências.

 

tp.ocilbup@ahcnip.oaoj


LISBON

Seismic risk in Lisbon: "It's like being on top of a powder keg"

 

Mário Lopes, a researcher at the Instituto Superior Técnico, was in a meeting with deputies of the municipal assembly and criticized the inertia of political power in the face of the theme.

 

John Peter Pincha

5 January 2017, 8:35

https://www.publico.pt/2017/01/05/local/noticia/risco-sismico-em-lisboa-e-como-estar-em-cima-de-um-barril-de-polvora-1757115

 

Various mistakes, bad fortune, indifference. "If we have the repetition of 1755, a third of Lisbon is in rubble [and no one seems really concerned about it]," laments Mário Lopes, a professor at the Instituto Superior Técnico who has been studying earthquakes for decades and how to prevent their effects. The expert says that the subject is not only faced head-on for lack of political will.

 

"The seismic problem is not solved at the technical level. This is, like many other problems in the country, a political problem", Mário Lopes said wednesday to members of the Committees of Urbanism and Mobility of the Lisbon Municipal Assembly. "We're on top of the problem. It's like being on top of a powder keg and the wick is on fire," said the expert, who finds many similarities between the Portuguese capital and Amatrice.

 

In that Italian city, shaken several times between August and December last year, "there will not be a single building standing" and this is mainly due to the poorurban rehabilitation done. "What you do is a peeling of the buildings and the result is this," said the university professor, while showing deputies photographs of amatrice destroyed. "It's a rehabilitation like the one we do here in Lisbon," he said.

 

Mário Lopes gave the example of Nórcia, a town about 60 kilometers from Amatrice, also heavily shaken by earthquakes in 2016. The researcher explained that in the last 40 years, almost all of Nórcia's infrastructure has had seismic reinforcement works, which has contributed to the consequences being much less serious there.

 

In Lisbon, he lamented, neither new constructionnor rehabilitation take into account the risk of earthquakes. "Baixa is a landmark in the history of humanity that we ourselves have been destroying," he said, referring to the removal of so-called "Pombaline cages" and the increase in the number of floors without strengthening the bases of buildings. "This is the recipe for disaster."

 

"Bridges are safer than buildings"

Mário Lopes, vice-president of the Institute of Structural Engineering, Territory and Construction of the Technician and, for many years, president of the Portuguese Society of Seismic Engineering (SPES), has often discussed these issues with political power – but so far without much success. "This is not a set of crooks who invented here some bosses to make some money at the expense of urban rehabilitation, this is a problem of all Portuguese," he said.

 

Recalling an intervention by the university professor in Parliament a few years ago, which left her "terrified", psd municipal deputy Rosa Carvalho da Silva asked Mário Lopes if the two bridges in Lisbon were also at risk of collapse in the event of an earthquake. The response of the specialist provoked a buzz among those present: "It is safer on top of the Bridge 25 de Abril or Vasco da Gama than in many buildings in Lisbon."

 

The problem is both legislation – which does not establish clear rules for rehabilitation – and supervision of works, said the professor. The municipal deputies did not comment or question on this topic, but Mário Lopes insisted once again that "it is essential that the State set an example", since "the problem does not exist in people's unconscious".

 

This was the first of a set of meetings on the seismic risk of Lisbon promoted by the City Council's Urbanism Commission. In the end, Members want to publish a report with the conclusions of all hearings.

 

tp.ocilbup@ahcnip.oaoj


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