OPINIÃO
O que é e o que representa o PSD?
O mistério não será desfeito pelo novo líder, Luís Montenegro,
cuja maior bandeira é ser contra o socialismo. Mas é a favor de quê? Não se
vislumbra.
Maria João
Marques
1 de Junho de
2022, 6:30
https://www.publico.pt/2022/06/01/opiniao/opiniao/representa-psd-2008432
Se eu fosse
militante do PSD, estaria com um sentimento de sensato pavor pela indiferença
com que o país viveu a mudança de liderança do maior partido da oposição. Estas
nunca seriam as diretas mais emocionantes, é certo. Toda a gente percebe que o
líder eleito tem boa hipótese de ser só temporário. A disputa que conta será
nas próximas diretas, em que se escolherá quem defronta o PS em legislativas.
As próximas
eleições serão as europeias de 2024 – cobiçadíssimas mas com poucos lugares
para distribuir. Donde, até no próprio partido houve pouco frenesim. No país, o
Governo está entregue ao PS por quatro anos, e suportado por maioria absoluta.
As câmaras municipais só voltarão a possíveis reviravoltas em 2025. Temos pela
frente um período de estabilidade política. A luta partidária é encarada com
bocejos.
Ainda assim, é
preocupante o desinteresse com a mudança de líder no PSD. Parece ser um partido
soporífero, que entedia, não interpela e põe os eleitores perguntando se
estreou alguma nova boa série na televisão. E tenho para mim que este
desinteresse vem mais da crise estrutural do PSD que do contexto pouco
aliciante destas diretas e, até, dos candidatos que se apresentaram. Porque, em
boa verdade, a primeira questão que o PSD suscita a qualquer eleitor, do mais
distraído ao mais empenhado, é: aquilo é o quê? O PSD representa o quê? Não sei
responder e nunca encontrei ninguém que soubesse de boa resposta.
O mistério não
será desfeito pelo novo líder, Luís Montenegro, cuja maior bandeira é ser
contra o socialismo. Muito bem. Já sabemos contra o que é. Mas é a favor de
quê? Não se vislumbra. Bom, Montenegro parece pretender uma oposição forte –
mas oposição segundo que linha? É certo que não cabe a um partido de oposição
ter um leque fechado de políticas para o país a quatro anos de eleições, no
entanto seria reconfortante para os potenciais eleitores conhecerem quais os
valores políticos que defende (por si próprios, não contra algo).
Montenegro
descreve-se alegre e orgulhosamente como o herdeiro de Passos Coelho. Deixemos
de lado a incompreensão do eleitorado e da sua repugnância face ao período em
que Passos Coelho governou. Vamos à substância. Passos Coelho era um opositor
da procura interna (só as atividades económicas exportadoras eram dignas), via
o consumo como um vício a ser curado nos portugueses pobres, aplicava políticas
económicas e sociais punitivas sem pestanejar com os custos na população. Além
de ser contra o socialismo, Montenegro é a favor disto? Parece que sim.
O PSD, nas
últimas décadas, tem-se esforçado por ser indefinido ideologicamente. O que, em
boa verdade, lhe deu plasticidade e adaptabilidade. Era um partido catch all
com menu que servia inúmeros gostos diferentes. Sucede que o ar do tempo vai no
sentido oposto ao dos partidos fluidos. O sucesso dos pequenos partidos, com
causas centrais bem definidas, é sinal disso mesmo: os eleitores têm valores
muito robustos num pequeno grupo temático, no qual dificilmente aceitam
compromissos, e cuja identificação determina o voto; em sentido contrário, não
apreciam excessivamente a ambiguidade e a capacidade de engavetar os tais
assuntos por que nutrem sentimentos fortes.
O PSD era um partido catch all com menu que servia inúmeros
gostos diferentes. Sucede que o ar do tempo vai no sentido oposto ao dos
partidos fluidos. O sucesso dos pequenos partidos, com causas centrais bem
definidas, é sinal disso mesmo
Foi também a
indefinição ideológica que estilhaçou o CDS, algo que devia servir de lição. O
CDS teimava em ser a “casa de todas as direitas”. Por isso mesmo perdeu para os
novos partidos à direita mais temáticos e definidos. É certo que o PSD tem
muito mais eleitores que o CDS, a marca está mais entranhada, o que dilata o período
em que o PSD pode ir definhando e, por outro lado, permite maior oportunidade
de renascimento. Em tendo liderança capaz e carismática, claro.
O que também deve
servir de lição ao PSD é o PS não sofrer com esta erosão dos partidos catch all
– ainda que a atomização do eleitorado se note igualmente à esquerda. Talvez
porque o PS não se defina simplesmente contra a direita.
Já o PSD
representa o quê? Defende o quê? A iniciativa privada? As contas públicas
certas? (Mantra que o PS de Costa lhe surripiou.) Reformismo? (Mas reformar o
quê e em que direção?) A sociedade civil? (Trata-se de um partido com enormes
dificuldades em dialogar para fora das suas autofágicas estruturas internas que
vivem em bolhas desligadas da realidade.) Não tenho dúvidas que o PSD tem muito
mais pudor e contenção que o PS na hora de usar o estado para servir o partido,
porém a ética política era uma boa bandeira contra Sócrates; contra Costa não
tem tanto efeito. Um partido regional ou autárquico? (De facto tem lá dentro
muita retórica antiurbana e antilisboeta.) Muito certamente não é o partido da
igualdade de oportunidades, do combate às alterações climáticas, dos direitos
das mulheres, dos jovens – esses temas e eleitorados foram deliberadamente
desconsiderados e perdidos há muito para outros lados.
O único mote que
vejo emergir com consistência no PSD é o conservadorismo social. Não me
entusiasma, porém alguns eleitores poder-se-ão rever. Nesta linha, Montenegro,
nas suas primeiras diretas do PSD, propôs um referendo à eutanásia –
demonstrando desorientação sobre as prioridades para o país, que não passam
certamente por qualquer referendo neste assunto. Não vislumbro, no entanto,
como o conservadorismo social pode ganhar os grandes centros urbanos fulcrais
nas eleições.
Como a única
ideia do PSD tem sido contra o PS, o eleitorado corresponde. Quando o PS abusa
dos tiques de partido dominante, os eleitores dão-lhe uma derrota, elegem o PSD
(o que no futuro terá matemática eleitoral mais complexa graças ao Chega e à
IL) mas só o mantêm enquanto o PS se reorganiza. Como o PSD não se sabe bem o
que é, tem, nos últimos vinte anos, sido escolhido para utensílio de limpeza
política (de legislatura única) entre os ciclos governativos do PS. De resto,
não estou certa que tal não seja a ambição do PSD: ganhar umas câmaras para
distribuir prebendas pelo partido e, de vez em quando, ir quatro anos (no
máximo) ao Governo.
Nos últimos vinte anos, o PSD tem sido escolhido para
utensílio de limpeza política (de legislatura única) entre os ciclos
governativos do PS
Desconhecendo-se
o que representa o PSD, exceto ser muito, muito obcecado com os demónios PS e
socialismo (vistos sintomaticamente como mais perigosos que o Chega e a
extrema-direita), e tendo estas diretas reforçado o desconhecimento, saudemos
pelo menos a renovação geracional. Montenegro e Moreira da Silva não fazem
parte da geração cujos nomes oiço desde criança – alívio! Com sorte, dentro de
dois anos conseguirão até apresentar duas ideias um tudo-nada mais impactantes
para o país que a defesa da ornitologia.
A autora é
colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


Sem comentários:
Enviar um comentário