PALÁCIO DA AJUDA
O Museu do Tesouro Real chega com muito brilho e gestão
do Turismo
Um novo museu com as jóias da coroa abre esta semana ao
público num projecto conjunto do Turismo e da Cultura. No seu centro está uma
caixa-forte que guarda mais de 700 peças e 18 mil diamantes.
Isabel Salema
(Texto) e Daniel Rocha (Fotografia)
31 de Maio de
2022, 22:21
Não é difícil imaginar
um guião de um filme 007 que passe pelo novo Museu do Tesouro Real em Lisboa,
esta quarta-feira inaugurado às 18h por uma comitiva que incluirá o Presidente
da República, o primeiro-ministro e Duarte Pio de Bragança, herdeiro da Casa de
Bragança e alegado pretendente ao trono português. Tem uma das maiores
caixas-fortes do mundo, muito ouro e diamantes do Brasil e uma história com
muitas peripécias que inclui um aparatoso roubo de seis jóias num museu em Haia
nunca recuperadas.
Foi a vontade de
pôr trancas à porta depois da casa roubada e o seguro das jóias recebido por
Portugal que deram o pontapé de saída para que esta quinta-feira possa abrir ao
público no Palácio da Ajuda um novo museu em Lisboa que exibirá de forma
permanente 736 peças, entre as quais a coroa real, exactamente 20 anos depois
de ter ocorrido uma das mais significativas perdas, simbólica e materialmente,
do património português no século XXI, nomeadamente do maior diamante que
existia na colecção.
Termos este tesouro fabuloso guardado em caixas de banco
durante décadas era indigno para todos os portugueses”
José Alberto Ribeiro, director do Museu do Tesouro Real
“Termos este
tesouro fabuloso guardado em caixas de banco durante décadas era indigno para
todos os portugueses”, disse ao PÚBLICO o director do Museu do Tesouro Real,
José Alberto Ribeiro, no final de uma visita guiada aos jornalistas realizada
esta semana.
Para entrar no
museu, os visitantes vão ter de passar num controlo de segurança semelhante ao
dos aeroportos, inédito nos museus portugueses, mas comum na Europa e nos
Estados Unidos. Chegam de elevador ao terceiro andar, para descobrirem uma
exposição que é inteiramente mostrada dentro de uma grande caixa-forte dourada.
“Estas portas com cinco toneladas cada não são decorativas. Há uma na entrada e
outra na saída e que fecham no final do dia quando acaba o percurso de visita”,
aponta o director.
O novo edifício e
respectiva caixa-forte, ambos terminados em 2021, já tinham sido visitados há
um ano por Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa, numa pré-inauguração para a
qual também foram convidados os jornalistas, mas que não se tinha estendido ao
público em geral que agora terá a oportunidade para ver pela primeira vez o
interior da nova ala do Palácio da Ajuda.
Alta-segurança
A segurança foi
“um dos maiores desafios do projecto” de arquitectura, voltou a lembrar o
director-geral do Património Cultural, João Carlos Santos, autor do desenho do
edifício que foi aproveitado para rematar o palácio a poente, inacabado há 226
anos. O arquitecto não se cansa de sublinhar o tamanho inusitado da caixa-forte
(“uma das maiores do mundo”, escreve o comunicado de imprensa): “Tem 40 metros
de comprido por 10 metros de largura por 10 metros de altura onde a exposição
se desenvolve em três níveis distintos.”
40 metros
de comprido por 10 metros de largura por 10 metros de
altura, dimensões da caixa-forte onde a exposição se desenvolve em três níveis
Quando as portas
blindadas estão abertas, a entrada e saída na caixa-museu é protegida por duas
portas com vidros à prova de bala, através das quais se faz uma rigorosa
contagem electrónica dos visitantes. “Não pode haver falhas na contabilidade”,
comenta o arquitecto. “Essa alta-segurança”, acrescenta o director, alarga-se
ainda às 76 vitrinas que também têm vidros à prova de bala.
Já mergulhados no
ambiente lusco-fusco do interior, vislumbram-se facilmente as peças mais
conhecidas e excepcionais da colecção: à esquerda, a coroa mandada fazer com o
ouro do Brasil por D. João VI; à direita, o diadema das estrelas de brilhantes
de D. Maria Pia (mulher de D. Luís), a laça de esmeraldas de D. Mariana (irmã
de D. Maria Pia), a caixa de tabaco de D. José. Juntou-se-lhes, num empréstimo
que chegou recentemente da Suíça, a tiara de safiras e diamantes de D. Maria II
que o museu não conseguiu num leilão na Christie’s no ano passado.
São o “top da
colecção”, afirmou o director aos jornalistas. É por este núcleo que passará,
principalmente, a história da extracção de ouro e de diamantes do Brasil – a
colecção tem cerca de 22 mil pedras, 18 mil das quais são diamantes. Esses
importantes monopólios da coroa portuguesa dão origem a uma joalharia que passa
a ser definida pela presença de pedras e não tanto dos metais preciosos como o
ouro e a prata.
A brilhar mais ao
fundo, está outro dos destaques do museu, a insígnia da Ordem do Tosão de Ouro,
que D. João VI mandou fazer ainda como príncipe regente e cuja autoria acabou
de ser revista numa investigação recente. Novo momento alto está reservado para
o terceiro nível, quase à saída da caixa-forte, quando nos deparamos com uma
encenação construída em redor da Baixela Germain, encomendada por D. José após
o terramoto de 1755 “ao maior ourives de Paris”, afirma o director. É um
exemplar único da “prata rococó”, de que o museu tem mais de 400 peças.
Homens e mulheres
com vestuário do Antigo Regime, introduzidos através de um filme realizado com
actores do Teatro do Bolhão, conversam numa mesa posta para 24 pessoas, num dos
aspectos da museografia, que esteve na mão de três empresas distintas, que será
provavelmente mais discutido. A exposição juntou também peças da baixela que
pertencem ao Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, mas não conseguiu trazer
o centro de mesa que é exibido em permanência no Museu do Louvre, em Paris, por
causa do valor do seguro. Os franceses, porém, já autorizaram que se faça uma
réplica, conta o director.
Vida da coroa
A museologia da
exposição permanente começou a ser pensada há seis anos por uma equipa que
inclui duas conservadoras do museu, Manuela Santana e Teresa Maranhas, e três
investigadores externos, Inês Líbano Monteiro, Hugo Xavier e João Júlio Rumsey
Teixeira, além do director. Uma das referências mais importantes foi o Tesouro
Imperial do Palácio de Hofburg, em Viena, da Casa Imperial de Habsburgo, mas
também se olhou para as exposições das jóias da Casa Real da Dinamarca no Castelo
de Rosenborg ou da Residenz de Munique, o palácio dos reis da Baviera.
“O Tesouro de
Viena também tem os apartamentos reais como nós. [No Palácio da Ajuda], há todo
um complexo ligado à família real que começou a ser construído no século XVIII.
Em lugar de expormos as peças de forma cronológica ou temática procurámos
mostrar cerimónias ou aspectos ligados à vida da coroa”, diz a comissária
Manuela Santana ao PÚBLICO. Ao lado da coroa real, cujo tamanho mostra que não
foi concebida para ser usada, uma regra da Casa Bragança, estão dois mantos: um
do Antigo Regime, que foi usado pela última vez na cerimónia de aclamação de D.
João VI no Brasil; outro já liberal feito para o rei D. Luís, uma vez que o que
pertenceu a D. Pedro IV desapareceu.
O museu, que tem
onze núcleos no total, mostra igualmente a importância de coleccionadores como
D. Fernando e D. Luís, as viagens do tesouro real, que incluem uma arriscada
travessia do oceano Atlântico após as invasões francesas, um dos muitos
episódios da “vida atribulada” do tesouro real, comenta José Alberto Ribeiro.
No núcleo das ofertas diplomáticas, brilha o ouro de uma capa oferecida pelo
papa Pio VI quando nasceu o filho primogénito do futuro D. João VI e D. Carlota
Joaquina, D. António Pio, que morreu um ano depois de a ter recebido, com seis
anos.
Ao contrário da
Torre de Londres, onde estão as jóias da coroa britânica, não haverá limite de
tempo para visitar o Museu do Tesouro Real (aberto todos os dias das 10h às
19h). A exposição começa com uma cronologia didáctica, mostrando os momentos
importantes em que o público já teve contacto com o tesouro real, como a
exposição pioneira realizada em 1991 no Palácio da Ajuda, mas 400 das peças
estarão a ser mostradas pela primeira vez, afirmou o director ao PÚBLICO.
Assinala-se também aqui, numa cronologia que começa em Afonso Henriques, que o
Museu Nacional de Arte Antiga guarda peças como a Cruz Processional de D.
Sancho I ou a Custódia de Belém, encomendada por D. Manuel I e feita com o ouro
de Quilôa, esta última considerada a obra-prima da ourivesaria portuguesa. É
para o museu das Janelas Verdes que voltarão cerca de metade das peças da
Baixela Germain terminado o empréstimo de um ano.
Se este
empréstimo terá causado alguma tensão entre os dois museus, mais polémico foi o
modelo de gestão adoptado para o novo Museu do Tesouro Real, principalmente na
sua relação com o Palácio da Ajuda. Apresentado como “um projecto conjunto”
entre o Turismo e a Cultura, que reúne o Ministério da Cultura, através da
DGPC, a Câmara Municipal de Lisboa e a Associação do Turismo de Lisboa (ATL),
num investimento de mais de 31 milhões de euros, que duplicou o orçamento
inicial, o Museu do Tesouro Real foi o projecto que até hoje recebeu mais
dinheiro do Fundo de Desenvolvimento Turístico de Lisboa, alimentado pela taxa
turística sobre as dormidas na cidade, disse aos jornalistas Vítor Costa,
director-geral da ATL.
“Os meios
financeiros reunidos [vieram] do Estado, do remanescente que existia do seguro
recebido pelo roubo das jóias na Holanda, e isso representou 4,4 milhões de
euros. A ATL, através de um empréstimo e de capitais próprios, reuniu nove
milhões de euros. Os outros 18 milhões foram através das taxas do turismo de
Lisboa.” O director-geral acrescentou que nas mãos da ATL ficará apenas a
“gestão operacional”, numa concessão que tem um prazo de 20 anos. “A
propriedade mantém-se no Estado, como é evidente, e a gestão científica será da
Direcção-Geral do Património Cultural. O director do Palácio da Ajuda é
simultaneamente o director do Museu do Tesouro Real.”
José Alberto
Ribeiro é, na verdade, o “director científico” do novo museu, tendo como
director-executivo Pedro Moreira, da ATL. Para já, ainda não há bilhete
conjunto que dê acesso aos dois equipamentos geridos pelo mesmo director.
tp.ocilbup@amelas.lebasi









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