Agricultura intensiva: População do concelho de Odemira
teme pelo seu futuro
Seis mil cidadãos assinaram uma petição para salvar o
Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina face ao avanço
descontrolado da agricultura intensiva. A população teme pelo seu futuro e pelo
da região.
Sandra Gonçalves
03 Março 2020 — 17:53
Juntos pelo
Sudoeste, um movimento de cidadãos de Odemira e Aljezur em defesa do Sudoeste
(JPS), entregou na segunda-feira (2 de março), na Assembleia da República, uma
petição pública com 6.000 assinaturas para alertar para o avanço
"galopante" da agroindústria, nomeadamente as culturas cobertas por
quilómetros de plástico, num modelo agrícola em regime intensivo. O JPS teme
pela integridade social, ambiental e económica do território.
O Governo aprovou
em Conselho de Ministros, a 24 de outubro de 2019, uma resolução que aumenta em
mais 1.200 hectares a área destinada à instalação de estufas, túneis elevados,
túneis e estufins (pequenas estufas), que vêm acrescer aos 3.600 já existentes no
Perímetro de Rega do Mira (PRM). A decisão foi encarada com perplexidade pelo
movimento JPS, porque aumenta a área de culturas cobertas para um máximo de 40%
da área total do PRM - que é de 12.000 hectares, "quando não deveria
ultrapassar os 30%".
Os signatários
pretendem que esta iniciativa suscite, com urgência, um debate sério sobre a
situação do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV).
Saliente-se que as petições são apreciadas em plenário sempre que sejam
subscritas por mais de 4.000 cidadãos.
Além da referida
resolução "não dar solução aos graves problemas e infrações identificadas
em relatórios oficiais, permitiu triplicar a área coberta de plástico que já
existe no PNSACV", alerta Sara Serrão, membro do JPS. Além disso,
prosseguiu, a população está indignada pelo facto de o Governo ter autorizado a
colocação de contentores dentro das explorações agrícolas, em pleno Parque
Natural, para albergar trabalhadores imigrantes até um valor que pode chegar a
36.000 pessoas, numa região com uma população registada de 26.000 habitantes,
"e cujos serviços púbicos - Saúde, Segurança Social, Finanças, Escolas,
Segurança Pública, Infraestruturas - estão já em estado de rutura".
Teme-se que se nada for feito a tempo, a região tome um
rumo irreversível
Face aos
compromissos do Estado português com o Green Deal (Pacto Ecológico) - política
comunitária estruturada a partir das prioridades e das urgências ambientais, o
movimento "não entende a incúria do Governo no zelo da preservação de um
valioso património ecologicamente sensível, classificado a nível nacional como
Parque Natural e a nível europeu como Rede Natura 2000", adiantou ainda
Sara Serrão.
O movimento de
cidadãos defende que "num Parque Natural não pode predominar uma lógica de
desenvolvimento económico à custa da degradação do território, gerando-se uma
situação ambiental, paisagística e social tão insustentável quanto explosiva,
sem que haja uma reflexão e soluções consistentes, que respondam às
preocupações da população e de outros setores fundamentais da região do
Sudoeste, com vista a uma compatibilização entre os valores de um território
classificado e o tipo de agricultura que lá se pratica", lê-se no
comunicado divulgado aquando da entrega da petição "O Parque Natural do
Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina não aguenta mais agricultura intensiva!".
O movimento
"teme que se nada for feito a tempo, a região tome um rumo irreversível. E
não se percebe como é que com tantos compromissos ambientais, a proteção desta
região não esteja na agenda do Governo", insurgiu-se Sara Serrão.
"Há casas
degradadas a serem arrendadas a migrantes e nem sequer é possível imaginar a
precariedade em que estes vivem"
"O problema
é gritante, salta à vista de todos. Veem-se milhares de trabalhadores agrícolas
de nacionalidade estrangeira, de manhã e ao final do dia, a percorrerem as
bermas das estradas para se abastecerem. Veem-se os serviços públicos - que já
nem sequer são suficientes para os habitantes do concelho - a rebentar pelas
costuras. Isto sem falar do problema da habitação. Há casas degradadas a serem
arrendadas a migrantes e nem sequer é possível imaginar a precariedade em que
estes vivem. Não sou governante, nem política, e não preciso de ter um retrato
fidedigno da situação. Mas preocupa-me o legado que vai ficar para o
futuro", prosseguiu a signatária.
"A população
está alarmada, teme que os cursos de água e os solos estejam a ser
contaminados"
Além disso,
segundo Sara Serrão, "subsistem sérias preocupações sobre o impacto desta
indústria na saúde dos que ali vivem. A população está alarmada, teme que os
cursos de água e os solos estejam a ser contaminados, sem falar da destruição
de habitats únicos, que são a casa de uma vasta biodiversidade".
Além da petição
entregue na AR, o movimento de cidadãos "tem vários contactos
institucionais em curso, e assegura estar aberto ao diálogo com todos os grupos
parlamentares", mas pretende, "sobretudo, que o assunto seja
colocado, com a maior urgência possível, na agenda do Governo".



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