OPINIÃO
TAP: (mais) um elefante branco
Se usarmos apenas da racionalidade e com uma política
generosa de apoio aos trabalhadores, nada justifica que a TAP continue a sorver
dinheiros públicos.
Sílvia Amaro
André Lamas Leite
4 de Maio de
2021, 0:20
https://www.publico.pt/2021/05/04/opiniao/noticia/tap-elefante-branco-1960978
Admito que, por
dificuldade minha, não consigo compreender a estratégia de sucessivos Governos
em relação à TAP, ao invés de me ser grato aplaudir – e lamentar o atraso – o
relançamento da ferrovia, essencial ao desenvolvimento harmonioso de todo o
país.
É conhecido o
movimento europeu e mundial de os Estados se retirarem como accionistas das
empresas de transporte aéreo. Países muito mais ricos, como a Alemanha, França,
Holanda e Espanha, há muito deixaram cair a “companhia de bandeira”. E não
consta que estão menos empenhados na criação de riqueza e de emprego ou numa
forte estratégia de afirmação no mundo. Há muitos anos que a TAP acumula
prejuízos, com raríssimas excepções. O argumento de manter a continuidade
territorial não colhe, pois as ligações às Regiões Autónomas conseguem-se a
mais baixo custo, através de empresas privadas, com financiamento do Estado nas
hipóteses em que tal se justifique, de modo a que os habitantes dos Açores e da
Madeira não sejam impedidos, pelo preço, de se deslocarem ao continente e
vice-versa. Por outro lado, a ligação às comunidades portuguesas, para além de
se conseguir do mesmo modo, não é justificação para que todos nós paguemos mais
um elefante branco. Parece que nada aprendemos com o BES e o desastre de outras
instituições financeiras e que somos tão ricos que nos podemos dar ao luxo de
atirar dinheiro para um buraco sem fundo.
Basta ler os
relatórios de gestão dos últimos anos para perceber que a TAP não pode estar
dependente de apoios públicos que não sejam, como acontece com a crise
pandémica, aqueles que a Comissão e os Estados-membros lhes vêm atribuindo. Mas
não mais que isso. O que nos preocupa – e bem – são os postos de trabalho.
Todavia, não podemos ter trabalhadores de primeira e de segunda. Devem os da
TAP ser beneficiários de todos os subsídios previstos para as hipóteses de
insolvência, admitindo mesmo que, excepcionalmente, estes sejam majorados
durante algum tempo. Não podemos manter ligada à máquina uma empresa que, em
tempos, mudou toda a sua frota, tendo “mais olhos que barriga”, que presta um
péssimo serviço na ponte aérea Porto-Lisboa, que é conhecida pelos frequentes atrasos
e que levou ao anedótico “TAP = Take Another Plane”.
Tenho todo o
respeito por quem trabalhou e trabalha na TAP, mas não o tenho por sucessivas
administrações perdulárias que não tomaram as medidas acertadas pela linear
razão de que os contribuintes lá estariam para pagar. Não podendo viver-se sem
transporte aéreo na vida moderna, que também é dos mais poluentes, as ligações
internas são com enormes vantagens substituídas por um bom serviço ferroviário,
que também não temos, pelo que se impõe uma CP capitalizada, de gestão
inteligente, racional e que não esqueça o fosso cada vez maior entre o interior
e o litoral. Para mais largas distâncias, não faltam companhias que nos liguem
ao mundo e, quando estritamente necessário, por razões humanitárias, compreendo
que o Estado financie os nossos concidadãos que vivem no estrangeiro.
Não defendo uma
economia liberal desregulada; parece-me que há sectores em que o Estado deve
ser o titular do essencial dos meios de produção e distribuição, como acontece
com telecomunicações, saúde, educação. Daí que lamente profundamente que a REN
ou a EDP tenham sido levadas a um estado tal que se tornou economicamente
impossível que o Estado cumprisse as suas obrigações constitucionais. Neste
ponto, aproximo-me de partidos como o PCP, que sempre defendeu que as funções
de soberania devem estar nas mãos do Estado. Mas não vejo o transporte aéreo
como uma dessas funções.
Por outro lado,
também não sou daqueles que entende que a administração pública de uma empresa
é sempre má. Há bons e maus gestores no público e no privado. Simplesmente, a
chaga endémica que quase 50 anos de democracia não ultrapassou é o jobs for the
boys, sendo o exemplo mais recente o da nomeação de alguém do aparelho, sem
qualquer currículo relevante para o cargo, para presidente da Segurança Social,
mesmo que em regime de substituição. Ora, como a lei exige que nos 90 dias
seguintes se abra concurso público e estas coisas demoram, com uma Cresap
(Comissão de Recrutamento e Selecção para a Administração Pública) depauperada,
é natural que o dirigente precário conste da short list, por ter experiência a
que só chegou pela cor do cartão de militante.
Se usarmos apenas
da racionalidade e com uma política generosa de apoio aos trabalhadores – a
nossa preocupação –, é patente que nada justifica que a TAP continue a sorver
dinheiros públicos e a constituir-se, cada vez mais, numa afronta àqueles que,
fruto da actual crise económico-financeira, começam a não ter o que pôr na
mesa.
Professor da
Faculdade de Direito da Universidade do Porto

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