OPINIÃO
O momento de não-retorno de António Costa
A original habilidade política demonstrada pelo
Presidente não deixa de ter um problema de fundo em democracia: o da introdução
da discricionariedade e da arbitrariedade próprias de Estados não-democráticos.
São José Almeida
3 de Abril de
2021, 7:18
https://www.publico.pt/2021/04/03/politica/opiniao/momento-nao-retorno-antonio-costa-1956984
António Costa
viveu muito provavelmente o momento de não-retorno da sua carreira política, na
quarta-feira, ao comunicar ao país que iria enviar para o Tribunal
Constitucional o pedido de fiscalização sucessiva com urgência das três leis
com origem no Parlamento, aprovadas pelos partidos da oposição, que violam a
norma-travão, ao aumentarem os apoios sociais, que foram promulgados pelo
Presidente da República no domingo.
Tal como Passos
Coelho viveu, no dia 2 de Julho de 2013, o seu dia de afirmação política como
estadista responsável e zelador do regular funcionamento das instituições, ao
recusar o pedido de demissão “irrevogável” do seu então ministro de Estado e
dos Negócios Estrangeiros e parceiro de coligação governativa, Paulo Portas,
Costa pode ter tido o seu momento decisivo de governação.
É certo que a
situação criada mostra um primeiro-ministro isolado e cercado por uma
convergência estratégica entre o Presidente e os partidos da oposição
parlamentar, mas esta solidão de Costa e do PS, este “esplêndido isolamento”
como o classificou em editorial o director do PÚBLICO, Manuel Carvalho, pode
bem ser a demonstração por parte do primeiro-ministro de que é um estadista
responsável e preocupado com a defesa do sistema democrático, que é alguém que
não admite que nenhuma crise de saúde pública e as suas dramáticas
consequências sobre a economia e a sociedade ponham em causa as regras-base do
regime constitucional português. Não foi por adesão partidária, mas por solidez
da defesa dos contornos do Estado de direito democrático que a promulgação pelo
Presidente de três leis que violam a norma-travão da Constituição foi
frontalmente criticada por constitucionalistas como Jorge Miranda, Jorge Reis
Novais, Paulo Otero, Vital Moreira, Pedro Bacelar de Vasconcelos, Tiago Duarte,
Maria de Oliveira Martins.
É certo que
eleitoralmente esta atitude de Costa pode vir a prejudicar o PS, assim como
trazer mais popularidade ao Presidente, que revela, aliás, uma extraordinária
habilidade política na nota justificativa da promulgação que colocou no site da
Presidência no domingo. Estendendo a novos patamares o semipresidencialismo,
Marcelo Rebelo de Sousa deu mais um passo na assunção de um perfil mais
interventivo neste seu segundo mandato. Ergueu-se como líder de uma parte do
país, concretizou a preocupação com o bem-estar dos portugueses na terrível
crise social que se instala, como prometeu no discurso da sua vitória nas
presidenciais.
E deu uma lição
sobre como percebe o que é o jogo político, ao promulgar as leis da oposição,
numa demonstração clara de que não está mais disponível para andar com o
Governo “ao colo”. Já na quinta-feira, aliás, reagindo à resposta de Costa,
declarou ao Expresso que “é o Direito que serve a política, não é a política
que serve o Direito”. E foi isso que fez. Promulgou três diplomas que são uma
espécie de “golpe de Estado orçamental”, em conivência com a oposição
parlamentar.
Mas o que é facto
é que o Presidente desrespeitou a Constituição que jurou cumprir e defender.
Pior: fê-lo tendo no currículo o facto de ter sido deputado à Assembleia
Constituinte e durante décadas professor de Direito Constitucional. Fê-lo com
habilidade política, repito. Até deu conselhos ao Governo sobre como contornar
o problema, ao lembrar que este ainda não aprovou o decreto de execução
orçamental, pelo que poderia desviar dinheiro para, pelo menos, o pagamento
parcial deste apoio.
Só que esta
original habilidade política demonstrada pelo Presidente não deixa de ter um
problema de fundo em democracia: o da introdução da discricionariedade e da
arbitrariedade próprias de Estados não-democráticos. Como bem questionou o
primeiro-ministro: “Como iríamos aplicar esse limite? Dando apoios a uns e não
a outros? Dando apenas aos que fossem mais rápidos a pedir, até se esgotar o
plafond disponível, e recusando todos os pedidos posteriores? Reduzindo o
montante do apoio pago a todos, violando o disposto na lei?”
Este episódio
terá certamente implicações não só no actual Orçamento do Estado, uma vez que o
Governo vai ter de pagar os apoios aprovados até o Tribunal se pronunciar, o
que pode levar meses, mas também nas negociações das próximas contas públicas.
O Presidente já assumiu que quer os dois próximos orçamentos aprovados e que
não quer crises políticas. Um recado que não é só para o Governo e para a sua
intransigência em violar os limites das contas pública e o controlo do défice –
o verdadeiro património de governação de Costa, mesmo perante Bruxelas –, mas
também para a oposição. A líder do BE, Catarina Martins, deu já sinais, numa
entrevista a Vítor Gonçalves, na RTP3, de estar disponível para negociar. Aguardemos.

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