OPINIÃO
Como nos protegemos dos negacionistas da vacina da covid?
Cada um tem o direito de fazer escolhas para si, para o
seu corpo e saúde. Mas não pode verter sobre o resto da comunidade as consequências
das escolhas que livremente tomou.
Maria João
Marques
24 de Março de
2021, 0:10
https://www.publico.pt/2021/03/24/opiniao/opiniao/protegemos-negacionistas-vacina-covid-1955632
Já me aconteceu,
como a todos, ter cuidados de saúde por causa de viagens. Tomei a vacina da
febre amarela julgo que para ir ao Peru. Quando ia à Índia anualmente em
trabalho fazia a profilaxia da malária (tremendamente tóxica; na última destas
viagens estava a tentar engravidar e já não a tomei, porque de tão benigna
podia ter consequências uterinas). Tenho visto, portanto, com normalidade a
discussão sobre o passaporte de vacinação da covid. É de elementar bom senso
assegurarmos que os vírus e as variantes viajam pouco pelo mundo.
Porém, julgo que
a conversa está só, e mal, focada nas viagens. Inicialmente os cientistas
diziam-nos que a covid provavelmente iria tornar-se mais suave, correria pela
população como uma normal gripe. O que se passa é o contrário. O contágio tem
garantido o surgimento de variantes mais selvagens, mais contagiosas e tão ou
mais mortais. Que podem, ou não (não sabemos), ser combatidas com as vacinas já
existentes.
A vacinação do
mundo todo levará ainda dois ou três anos, nas alternativas mais otimistas. Ora
uma variante surgida numa favela do Rio de Janeiro ou de Deli, ou numa aldeia
da Tanzânia, contagia com facilidade até à Europa. As vacinas poderão ou não
atenuar este contágio. Mas quanto maior a proporção de população não vacinada,
também maior a potencialidade de catástrofe sanitária – e económica – que vem
com estas novas variantes. Por outro lado, se muita gente não se quiser
vacinar, sabemos lá se não nos tornaremos também os felizes produtores de uma
nova estirpe virulenta de covid.
Parece-me, então,
que temos de preparar estratégias para nos proteger do perigo que a população
não vacinada representa. Claro: todas as pessoas adultas têm liberdade de não
se vacinarem. Pela minha parte, nem tenho vontade de debater se as vacinas são
fiáveis ou não. Cada um faz com o seu corpo o que quer. Além disso, a conversa
é inútil. Trata-se de pessoas para quem, primeiro, a pandemia não existia ou
não era mortal. Depois os casos confirmados eram falsos positivos. As máscaras
– que comprovadamente contrariam o contágio de vírus respiratórios, como se viu
com a inexistência de gripe neste inverno que passou – não funcionam e são
elementos de destruição populacional em massa. Os mortos numerosos deveram-se
somente a problemas de falta de capacidade hospitalar. Sabe-se lá por que
razão, estavam ótimos de saúde mas morreram por falta de ventiladores. Foi
teimosia de levar a covid literalmente até ao fim, certamente. E agora a vacina
é um perigo.
Tivemos no fim de
semana passado um ajuntamento de, dizem, três mil pessoas, sem máscaras,
protestando contra o mundo numa manifestação de adolescência serôdia. Os
cartazes contra a vacinação destacavam-se. É fácil rirmo-nos de quem se
manifesta sem levar com uma carga policial enquanto nos garante viver na mais
restritiva ditadura, assim de nazi para cima. Com o ar new age de São Francisco
ali à Rua da Betesga. As rezas de olhos fechados que a multidão parecia fazer
nas fotografias. A satisfação de se considerarem grandes rebeldes, tão
corajosos como (pelo menos) os membros da Resistência na França ocupada da
Segunda Guerra Mundial.
No entanto, o
ridículo não nos pode fazer esquecer o perigo. Um dos organizadores da
manifestação foi diagnosticado com covid. Não sabemos quantas pessoas terá
contagiado. A vacinação está atrasada na União Europeia. Há ainda muita gente
com idade e problemas de saúde pré-existentes suscetíveis de desenvolver formas
agudas e mortais de covid. As pessoas não vacinadas são, e vão continuar a ser
(e com novas variantes pior), um perigo para todos, vacinados ou não.
Posto isto,
questiono-me. Vamos aceitar alunos nas universidades que não se vacinam,
colocando em risco os colegas? Vamos ter pessoas não vacinadas nas empresas com
capacidade de contagiar outros trabalhadores? Teremos gente fazendo atendimento
ao público sem vacina e disseminando covid pelo dito público? Empregados de
mesa em restaurantes, onde os clientes não estão sequer de máscara?
Profissionais como médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, cabeleireiros,
massagistas e por aí em diante: não teremos o direito de saber se aquela pessoa
tem uma maior vulnerabilidade à covid ou se foi vacinada?
Nada disto é
risco teórico. Posso apresentar a minha experiência. Quando tive covid, não fui
contagiada por ninguém num contacto de proximidade sem máscara. Foram todos
testados. Terei sido contagiada por alguém numa loja, num tratamento de saúde
ou restaurante.
Parece-me justo
que, se toda a gente pode recusar a vacina contra a covid, também os demais têm
o direito de se proteger de quem assim se constitui um risco para a saúde. Não
tenho respostas definidas, sobretudo em tocando ao direito à educação e ao
trabalho. Mas é uma conversa que precisamos de ter, para obter um consenso que
concilie quer o direito ao trabalho, à educação e às alucinações dos anti
vacinas, bem como à proteção de todos os restantes seres pensantes do país.
A PSP está a elaborar um processo crime contra os
organizadores da manifestação do passado fim de semana, onde todas as regras
sanitárias foram quebradas. Esperemos que o Ministério Público prossiga com a
intenção
Sem dúvida que em
certas profissões, em implicando proximidade interpessoal, os empregadores têm
de poder exigir o passaporte de vacinação da covid. Não rejeito a ideia de
hotéis, companhias aéreas e outras transportadoras, restaurantes, ginásios,
salões de estética e por aí em diante pedirem o mesmo aos clientes antes de
aceitarem prestar-lhes serviços. É de basilar sensatez alguém num guichet ou
num supermercado, atendendo centenas de pessoas por dia, ter de ser vacinado –
ou colocado noutra função. Uma empresa tem de poder obrigar ao teletrabalho,
caso seja possível, quem com facilidade contagia colegas a cada espirro de
inverno.
Cada um tem o
direito de fazer escolhas para si, para o seu corpo e saúde. Mas não pode
verter sobre o resto da comunidade as consequências das escolhas que livremente
tomou.
Demos, portanto,
lugar aos legisladores para começarem a debater como se protege a sociedade
quando a crise aguda da covid passar. Concretamente, dos negacionistas das
vacinas. Entretanto tratemos de proteger a comunidade já. A PSP está a elaborar
um processo crime contra os organizadores da manifestação do passado fim de
semana, onde todas as regras sanitárias foram quebradas. Esperemos que o
Ministério Público prossiga com a intenção. Afinal os resistentes aos nazis
durante a Segunda Guerra Mundial estavam dispostos a morrer pela causa. Não
esperamos menor espírito de sacrifício dos gloriosos negacionistas da vacina da
covid.
A autora escreve
segundo o novo acordo ortográfico



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