EDITORIAL
Quem acredita em Aleksander Lukashenko?
Se há alguma verdade nas declarações de Aleksander
Lukashenko das últimas horas é a sua promessa de que não haverá repetição de
eleições “até que me matem”
Manuel Carvalho
17 de Agosto de
2020, 22:26
https://www.publico.pt/2020/08/17/mundo/editorial/acredita-aleksander-lukashenko-1928399
Pressionado pelas
maiores manifestações na história recente do país, acossado pelos protestos de
trabalhadores em greve e aturdido pela reacção da União Europeia, o ditador da
Bielorrússia ensaiou uma pose de diálogo e promete rever a constituição para partilhar
o poder. Mas apenas admite dar esse passo com uma condição que expõe com crueza
a sua falta de boa fé: avançará nesse caminho se a pressão popular nas ruas da
Bielorrússia acabar.
O déspota que
organizou a fraude eleitoral e que respondeu com mão-de-ferro aos primeiros
protestos, tenta agora mostrar espírito de abertura desde que a pressão que o
obrigou a ceder seja retirada. Só por ingenuidade se pode acreditar nas suas
palavras. A Europa vai ter de se preparar para um duro desafio nos próximos tempos.
Se há alguma
verdade nas declarações de Aleksander Lukashenko das últimas horas é a sua
promessa de que não haverá repetição de eleições “até que me matem”. Não
havendo a mínima vontade em corrigir o pecado original de toda a instabilidade
política, não parece haver condições para o diálogo. Lukashenko sabe-o e foi
por isso que tratou de recordar aos manifestantes que, no lado oriental das
suas fronteiras, está a Rússia de Putin com força militar mais do que
suficiente para os calar. Quem admite convidar um exército estrangeiro para
reprimir o seu próprio povo é capaz de tudo.
Depois de se
mostrar incapaz de travar a anexação da Crimeia na sequência de protestos a
favor da democracia (e contra a influência do Kremlin) na Ucrânia, a Europa
será confrontada com uma pressão enorme se as tropas russas forem enviadas para
as ruas de Minsk. Não apenas pelas consequências que esse movimento teria na
desafortunada população da Bielorrússia; também porque esse seria mais um sinal
de que Putin pode recorrer a todos meios para travar as democracias que podem
florescer ou de as corromper onde estão consolidadas – na Europa e nos Estados
Unidos - com total impunidade.
Depois da
Crimeia, de dar a mão a Assad ou a Erdogan, de se imiscuir no “Brexit” ou na
Catalunha, de apoiar Salvini, Orbán ou a nova plêiade de aspirantes a
ditadores, uma intervenção na Bielorrússia transformaria a nova guerra cínica
entre a UE e a Rússia num conflito grave.
Há razões para o
temer: a história do século XX mostra-nos que o apaziguamento não funciona com
líderes autoritários. O que se passar estes dias em Minsk e em Moscovo dirá
muito sobre o futuro da democracia e sobre a relação entre o ocidente e o leste
da Europa. Como escreveu Rui Tavares, dirá muito sobre as nossas vidas.


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