EDITORIAL
As máscaras da extrema-direita continuam a cair
De suposto intelectual com um projecto mundial de
transformação política, Steve Bannon passou a ser um banal suspeito de
vigarice.
Manuel Carvalho
20 de Agosto de
2020, 22:09
https://www.publico.pt/2020/08/20/mundo/editorial/mascaras-extremadireita-continuam-cair-1928795
Um a um, os
profetas do populismo de extrema-direita vão mostrando a sua verdadeira face,
estatelando-se em casos de corrupção que tinham prometido não só combater, mas
erradicar na Europa ou nas américas. Um dos mais perigosos missionários dessa
promessa de regeneração moral, Steve Bannon, foi detido esta quinta-feira por
alegadamente se ter apropriado de um milhão de dólares de donativos para a
construção do muro na fronteira sul dos Estados Unidos.
O exemplo é
esclarecedor da mentira e da hipocrisia do personagem e não é o primeiro a
desvendar a natureza dos que se propõem restaurar as sociedades, depurando-as
de imigrantes, fazendo regressar os ressentimentos nacionalistas ou acabando
com a corrupção: já tínhamos os exemplos de Heinz-Christian Strache na Áustria,
os negócios duvidosos patrocinados pela Rússia na Itália de Salvini ou nos
Estados Unidos de Trump, já para não falar das relações suspeitas do presidente
brasileiro com as redes criminosas do Rio de Janeiro.
A queda de Steve
Bannon é, no entanto, particularmente importante para se desmascarar a
extrema-direita porque se tinha tornado o impulsionador da estratégia que se
propunha erguer uma espécie de internacional populista. Depois de se afastar de
Donald Trump e de desistir dos panfletos extremistas que assinava no Breitbart
News, Bannon empenhou-se em disseminar o vírus da extrema-direita na Europa.
A sua proximidade
com Marine Le Pen é conhecida. O seu papel no apoio a Nigel Farage para
garantir o Brexit, que saudou como uma vitória, é público. O seu projecto de
criar uma universidade em Itália para disseminar o populismo foi travado in
extremis. A sua detenção por um crime tão prosaico e velhaco como o desvio de
fundos doados por militantes da sua causa xenófoba é a prova de que a
extrema-direita se alicerça não apenas em ideias erradas, mas também em homens
sem carácter.
A remissão de
Bannon para o estatuto de criminoso comum (caso seja condenado, obviamente) é,
por isso, importante pelo simbolismo que impõe. De suposto intelectual com um
projecto mundial de transformação, passou a ser um banal suspeito de vigarice.
Não chega para afastar o perigo do autoritarismo, nacionalismo e xenofobia que
paira sobre a Europa – e continuará a pairar enquanto for promovido pela Rússia
de Putin.
Mas se juntarmos
ao caso a possibilidade real de uma derrota de Trump, a completa
descredibilização de Bolsonaro ou a recuperação da iniciativa das forças
democráticas em Itália ou na França, podemos respirar um pouco melhor. E um
dia, quando soubermos quem é de facto André Ventura ou quando alguém nos
explicar como paga tantos outdoors pelo país fora, talvez possamos juntar Portugal
às boas notícias.
The masks of the
far right continue to fall
A supposed intellectual with a worldwide project of
political transformation, Steve Bannon has become a banal suspect of con.
Manuel Carvalho
August 20, 2020,
22:09
https://www.publico.pt/2020/08/20/mundo/editorial/mascaras-extremadireita-continuam-cair-1928795
One by one, the
prophets of far-right populism are showing their true face, in cases of
corruption that they had promised not only to fight, but to eradicate in Europe
or the Americas. One of the most dangerous missionaries of this promise of
moral regeneration, Steve Bannon, was arrested on Thursday for allegedly taking
a million dollars in donations for the construction of the wall on the southern
border of the United States.
The example is
enlightening of the lie and hypocrisy of the character and is not the first to
unravel the nature of those who propose to restore societies, debugging them of
immigrants, returning nationalist resentments or ending corruption: we already
had the examples of Heinz-Christian Strache in Austria, the dubious business
sponsored by Russia in Salvini's Italy or in the United States of Trump , not
to mention the brazilian president's suspicious relations with rio de janeiro's
criminal networks.
The fall of Steve
Bannon is, however, particularly important to unmask the far right because it
had become the driving force of the strategy that was proposed to erect a kind
of populist international. After walking away from Donald Trump and giving up
the extremist pamphlets he signed at Breitbart News, Bannon pledged to spread
the far-right virus in Europe.
Its proximity to
Marine Le Pen is well known. His role in supporting Nigel Farage to secure
Brexit, which he hailed as a victory, is public. His project to create a
university in Italy to spread populism was waged in extremis. His arrest for a
crime as prosaic and rogue as the embezzlement of funds given by militants of
his xenophobic cause is proof that the far right is based not only on wrong
ideas, but also on men without character.
Bannon's
remission to the status of common criminal (if convicted, of course) is
therefore important for the symbolism it imposes. Of alleged intellectual with
a worldwide project of transformation, he became a banal suspect of con. It is
not enough to ward off the danger of authoritarianism, nationalism and
xenophobia hanging over Europe – and it will continue to hover as long as it is
promoted by Putin's Russia.
But if we add to
the case the real possibility of a defeat of Trump, the complete discreditof
Bolsonaro or the recovery of the initiative of the democratic forces in Italy
or France, we can breathe a little better. And one day, when we know who André
Ventura really is or when someone explains to us how he pays so many billboards
around the country, maybe we can add Portugal to the good news.


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