terça-feira, 14 de julho de 2020

Ricardo Salgado é um dos 25 arguidos acusados no colapso do BES / Defesa de Ricardo Salgado diz que acusação “falsifica” a história do BES

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Ricardo Salgado é um dos 25 arguidos acusados no colapso do BES

Ministério Público acusou 18 pessoas e sete empresas. Procuradores contabilizam em 11.800 milhões de euros, o “valor que integra o produto de crimes e prejuízos com eles relacionados”.

Mariana Oliveira 14 de Julho de 2020, 20:54

O ex-banqueiro Ricardo Salgado foi esta terça-feira acusado de vários crimes no inquérito relacionado com o colapso do Banco Espírito Santo (BES) e do grupo com o mesmo nome (GES), anunciou a Procuradoria-Geral da República em comunicado. Salgado é um dos 25 arguidos, 18 pessoas e sete empresas, acusados pelo Departamento Central de Investigação e Acção Penal (DCIAP), que durante quase seis anos tentou desvendar uma complexa teia de empresas e esquemas financeiros que levaram ao colapso do universo Espírito Santo, em 2014.

O Ministério Público contabiliza em 11.800 milhões de euros o “valor que integra o produto de crimes e prejuízos com eles relacionados”. Do rol de acusados, fazem parte o antigo braço direito de Salgado, Amílcar Morais Pires; Isabel Almeida, directora financeira do banco; o contabilista Francisco Machado da Cruz e membros da família como José Manuel Espírito Santo e Manuel Fernando Espírito Santo.

A lista de crimes imputados pela vasta equipa liderada pelo procurador José Ranito inclui associação criminosa, vários tipos de corrupção, burla qualificada, falsificação de documentos, branqueamento de capitais, infidelidade, entre outros. Isso mesmo é referido pela nota da procuradoria. “Foi deduzida acusação pelo crime de associação criminosa (relativamente a 12 pessoas singulares e cinco pessoas colectivas) e pelos crimes de corrupção activa e passiva no sector privado, de falsificação de documentos, de infidelidade, de manipulação de mercado, de branqueamento e de burla qualificada contra direitos patrimoniais de pessoas singulares e colectivas”, lê-se no comunicado.

O DCIAP acredita que Salgado terá construído dentro do BES uma entidade paralela, que funcionava à margem dos órgãos de gestão e de controlo e dos supervisores, com o objectivo de “segurar” o GES, financiando a dívida das empresas da família.

A defesa de Ricardo Salgado reagiu logo que foi anunciada a acusação, confirmando ter sido notificada do documento e queixando-se do comportamento do Ministério Público neste processo. Numa nota assinada pelos dois advogados do antigo banqueiro estes garantem que o cliente “não praticou qualquer crime e esta acusação ‘falsifica’ a história do Banco Espírito Santo”. Admitem que Salgado cometeu “erros” e voltam a fazer um ataque violento contra o governado do Banco de Portugal, Carlos Costa, que em Agosto de 2014 determinou a resolução do BES. “Foi este mesmo Banco de Portugal liderado pelo Dr. Carlos Costa que, depois de apagar das fachadas uma marca com mais de 140 anos de existência, interveio neste inquérito-crime, em claro e manifesto conflito de interesses”, destaca a defesa de Salgado.

O Ministério Público juntou mais de duas centenas e meia de inquéritos numa investigação principal, que chega agora ao fim. Mas este não será o ponto final nesta história, já que é certo que alguns casos laterais vão levar à extracção de cópias de elementos de prova já recolhidos e dar origem a novos inquéritos que deverão continuar a ser investigados pelo procurador José Ranito e pela colega Olga Barata. Estes são dois dos sete procuradores que assinam a acusação e que nesta investigação contaram com o apoio de mais de duas dezenas e meia de profissionais de múltiplas instituições. A Polícia Judiciária chegou a ter uma dezena de elementos em exclusivo neste caso, mas a PSP, o Banco de Portugal, a Autoridade Tributária, a Comissão do Mercado de Valores Mobiliários, o Núcleo de Assessoria Técnica da Procuradoria-Geral da República e a Inspecção-Geral de Finanças também disponibilizaram especialistas. Nunca antes um inquérito criminal teve uma equipa multidisciplinar com esta dimensão e diversidade.


A complexidade do caso e o facto do universo Espírito Santo estar disperso por várias jurisdições levou em Maio de 2015 as autoridades portuguesas e suíças a lançar uma equipa de investigação conjunta, acordada em sede de Eurojust. Foi nesse âmbito que foi trocada informação e foram realizadas diligências a pedido do Ministério Público português, que incluíram buscas e audições de pessoas.

O problema é que a informação, que o DCIAP sabia que existia, mas à qual não podia aceder, demorou mais de três anos a chegar a Portugal e parte dela, considerada relevante, ainda não chegou. O Ministério Público decidiu avançar mesmo assim para a acusação, mantendo alguma expectativa, no entanto, que essa prova ainda possa chegar a Portugal a tempo de ser usada durante o julgamento.

Mas a Suíça foi só um dos vários países a que foi necessário recorrer para desfiar este enorme novelo. Em Março do ano passado, num balanço sobre a investigação, a Procuradoria-Geral da República dava conta que no âmbito deste caso foi necessário recorrer à cooperação judiciária com outras dez autoridades: Brasil, Espanha, Estados Unidos, Macau, Panamá, Dubai, Holanda, Bélgica, Alemanha e Luxemburgo. O objectivo foi obter dados bancários, realizar audições e arrestar bens.
 
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Defesa de Ricardo Salgado diz que acusação “falsifica” a história do BES
Mariana Espírito Santo
21:23

Equipa de Ricardo Salgado garante que ex-banqueiro "não desistirá de se defender e levará até às últimas consequências a sua defesa".

O Ministério Público do Departamento Central de Investigação e Ação Penal deduziu acusação contra 25 arguidos, no âmbito do processo principal do designado “Universo Espírito Santo”. Em reação, a defesa de Ricardo Salgado, acusado de associação criminosa e corrupção, diz que o antigo banqueiro “não praticou qualquer crime” e afirma que a acusação “falsifica” a história do Banco Espírito Santo (BES).

Os advogados Francisco Proença de Carvalho e Adriano Squilacce garantem que Salgado “não desistirá de se defender e levará até às últimas consequências a sua defesa”, em comunicado enviado às redações. A equipa argumenta que, “durante todo o inquérito, as provas foram escondidas do Dr. Ricardo Salgado” e que este “foi confrontado com infindáveis juízos de valor vagos e genéricos, em vez de ter sido confrontado com factos concretos”.

A defesa do ex-banqueiro aponta o dedo a Carlos Costa, reiterando que esta foi “uma acusação pré-anunciada desde o dia 3 de agosto de 2014”, quando o “Governador cessante do Banco de Portugal (BdP) anunciou a morte do BES (depois deste banco ter sido afundado em provisões ilegais) e proferiu a “sua sentença” para justificar o desastre da resolução, que, agora, está a condicionar a Justiça”. Aponta, assim, que o BdP “interveio neste inquérito-crime, em claro e manifesto conflito de interesses”.

A equipa defende que “a resolução do BES foi um erro colossal que causou e causa prejuízos inquantificáveis ao País”, sublinhando que os lesados são do BdP, “porque é indesmentível que, enquanto o Dr. Ricardo Salgado esteve no BES, os Clientes foram reembolsados em 1,5 mil milhões de euros de papel comercial só no 1º semestre de 2014”. “Enquanto o Dr. Ricardo Salgado esteve no BES, não houve lesados”, ressalvam.

Salgado “assume e assumirá a responsabilidade pelos atos que praticou, demonstrando que não praticou atos ilícitos, explicando as suas motivações e mostrando que sempre agiu de boa-fé naquilo que lhe parecia ser o melhor interesse do Banco que teve a honra de ajudar a reconstruir”, diz a defesa.

A equipa de advogados finaliza afirmando que “em face da dimensão e enorme complexidade do processo (grande parte dele ilegalmente “escondido” da Defesa até agora), espera-se que, depois de tantas e sucessivas prorrogações de prazo que foram concedidas ao Ministério Público para concluir o inquérito, seja também concedido à Defesa um prazo razoável e condições dignas para o exercício cabal dos seus direitos com igualdade em relação a quem agora o acusa”.

Com Salgado, foram acusadas mais de quatro dezenas de pessoas, entre os quais ex- administradores e gestores do Grupo Espírito Santo. São, no total, 18 pessoas singulares e 7 pessoas coletivas, nacionais e estrangeiras. Segundo a acusação, na lista de crimes estão burla qualificada, branqueamento de capitais, associação criminosa, falsificação de documentos, fraude no comércio internacional e desvio de fundos e corrupção ativa e passiva. A acusação diz ainda que estes alegados crimes podem ter contribuído para a derrocada do BES e do grupo Espírito Santo.

“A investigação levada a cabo e que termina com o despacho de acusação em referência apurou um valor superior a 11 mil e oitocentos milhões de euros, em consequência dos factos indiciados, valor que integra o produto de crimes e prejuízos com eles relacionados”, lê-se no comunicado da Procuradoria-Geral da República.

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