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OPINIÃO
A divina sabedoria
Na Aya Sophia não se sai como se entra, não se chamasse à
coisa “divina sabedoria”, mas entrar como mesquita não é a mesma coisa que
entrar num museu.
JOSÉ PACHECO
PEREIRA
11 de Julho de
2020, 0:05
Duvido que alguém
preste muita atenção ao facto que motiva este artigo: a ameaça do retorno da
Aya Sophia da sua actual função de museu para ser mesquita de novo. (Uso o nome
turco, em vez do grego Hagia Sophia, mas como todas as coisas que têm muita
história, tem muitos nomes.) É um ataque desnecessário e puramente político a
um local dos mais importantes da nossa história comum do Ocidente, incluindo a
própria Turquia, e que nada tem de religioso. Na própria história dos locais
sagrados do Islão este nunca foi muito relevante. O significado mais forte
desta opção é o abandono de uma das decisões fundamentais de Atatürk na sua
tentativa verdadeiramente revolucionária de laicizar a Turquia. É contra isso
que vai Erdogan.
Aya Sophia foi
uma igreja cristã ortodoxa, uma igreja cristã latina, depois uma mesquita
(estão lá os minaretes que foram acrescentados) e, por fim, um museu, no
milénio e meio da sua história. As datas cruciais são 1453, 1931-5, mas estamos
em 2020 e o significado deste processo, na Turquia de Erdogan, é um ainda maior
afastamento do resto da Europa. Neste processo, a União Europeia tem muitas
culpas: prometeu à Turquia o ingresso na União, se cumprisse determinadas
condições, a Turquia cumpriu-as, e depois tiraram-lhe o tapete. Erdogan está lá
também por causa disso, agora sob a asa sinistra de Trump, cujo secretário de
Estado Pompeo, todos muito religiosos, já lavou as mãos do futuro da Aya
Sophia.
A transformação de museu em mesquita não é inócua do
ponto de vista político e geopolítico e implica riscos para o património
cultural preservado até hoje. O grande mosaico do Cristo Pantocrator e outros
mosaicos bizantinos terão de ser de novo emparedados, como estiveram muitos
séculos, e muitos detalhes da história cristã,
por todo o edifício, terão de ser retirados ou escondidos.
A Aya Sophia é um
daqueles locais difíceis da história pelo excesso de sagrado e pela densidade
da sua própria história, tal como Jerusalém. Como todos os turistas acidentais
visitei várias vezes a Aya Sophia. Como todos os turistas acidentais
intelectuais, há sempre a presunção de que o olhar é diferente, ou de que,
iludindo os outros visitantes comuns, se está lá como um viajante do século
XVIII que foi visitar a Porta partindo de Marselha à procura do exótico.
Tretas. Mas o que se vê é o que se vê.
Quando entrei
pela primeira vez, repeti a sensação atribuída ao seu construtor, o imperador
Justiniano, sobre a dimensão da cúpula, um feito arquitectónico e de engenharia
que permitiu resistir a terramotos, vandalismo, destruições. A gigantesca
cúpula, aliás, foi o modelo para as mesquitas, porque não havia precedente
arquitectónico no Islão e Aya Sophia sempre foi durante séculos o maior prédio
do mundo. Mas eu sou homem de detalhes e perdi-me pelos detalhes e ainda hoje,
se lá voltar outra vez, vou de novo aos detalhes. Os detalhes e as histórias à
volta deles, meias lendas, meias verdades.
Começo pelo
Umbigo do Mundo, o Omphalos, o círculo de mármore onde eram coroados os
imperadores bizantinos. Não é todos os dias que se está no Umbigo do Mundo. À
minha volta, no piso térreo, se houver fantasmas, passarão os cruzados latinos
da Quarta Cruzada que profanaram a catedral, entrando com um carro de bois com
prostitutas, quando da conquista de Bizâncio no século XIII, no meio do saque
generalizado da cidade. Muito do saque foi para Veneza, cujo doge Dandolo, que
participou no assalto, teve os ossos atirados aos cães e depois colocados num túmulo
térreo, que só foi marcado no século XIX numa galeria da catedral. Este foi um
dos incidentes que mais marcaram o cisma entre os católicos e os ortodoxos,
pelo qual o Papa pediu desculpa.
Outro grupo de
fantasmas é o dos que estiveram na última missa realizada na catedral
imediatamente antes da invasão otomana, com a presença de Constantino XI
Paleólogo, o último imperador bizantino. Saiu dali para combater e desapareceu,
nunca tendo sido encontrado o seu corpo. Numa versão sebastianista, corrente entre
os gregos da diáspora, não teria morrido e estaria no interior das muralhas à
espera de sair e libertar a cidade dos turcos. Até hoje.
Lá fora há muitas distracções, desinteresse e geopolítica
e cá dentro é um assunto tão remoto como a estrela Sirius, mas temos gente que
sabe história e é sensível à cultura que podia pressionar a embaixada e a nossa
diplomacia
Subindo às
galerias, é a explosão da grande arte bizantina dos mosaicos, em honra de
vários imperadores e imperatrizes e sob a égide de Cristo Pantocrator,
omnipotente, todo-poderoso. Olha-se para estas figuras, que sobreviveram aos
iconoclastas, ao emparedamento, e nunca há cansaço, há sempre novos detalhes
numa figuração densa de símbolos religiosos. Verdade seja dita, também as
devemos ao sultão Abdul Medid, que as protegeu e restaurou.
Na Aya Sophia não
se sai como se entra, não se chamasse à coisa “divina sabedoria”, mas entrar
como mesquita não é a mesma coisa que
entrar num museu. Não porque haja algum mal nas mesquitas – Istambul tem algumas
das mais belas mesquitas do mundo –, mas o olhar muda, os gestos mudam, e muito
do que hoje vemos não pode ser exposto numa mesquita sem violar preceitos do
Islão.
Lá fora há muitas
distracções, desinteresse e geopolítica e cá dentro é um assunto tão remoto
como a estrela Sirius, mas temos gente que sabe história e é sensível à cultura
que podia pressionar a embaixada e a nossa diplomacia. Em nome inclusive da
herança de Mustafa Kemal Atatürk, o pai dos turcos, coisa que não é certamente
Erdogan.

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