sábado, 11 de julho de 2020

Ministério Público vai acusar Salgado de liderar organização criminosa dentro do BES / Prosecutors will accuse Salgado of leading criminal organization within the BES

IMAGEM DE OVOODOCORVO


RICARDO SALGADO
Ministério Público vai acusar Salgado de liderar organização criminosa dentro do BES

O Ministério Público prepara-se para revelar o despacho de acusação do caso BES até dia 15. A investigação leva o MP a considerar a existência de uma organização criminosa liderada por Ricardo Salgado

Cristina Ferreira
Cristina Ferreira 11 de Julho de 2020, 6:52

O Ministério Público inclina-se para a tese de que Ricardo Salgado liderou uma associação criminosa enquanto líder do Grupo Espírito Santo, criando uma estrutura fraudulenta dentro do próprio BES, sustentada no Departamento Financeiro e de Mercados, tutelado pelo ex-CFO (director financeiro) Amílcar Morais Pires. Uma organização montada sem conhecimento da maioria da equipa de gestão e das entidades de fiscalização do banco, nomeadamente, do Banco de Portugal.

Depois dos sucessivos adiamentos, tudo indica que o Ministério Público vai cumprir o prazo anunciado para divulgar o despacho de acusação ao processo Universo Espírito Santo, o que terá de fazer até à próxima quarta-feira, 15 de Julho. Todas as informações que têm vindo a público permitem antecipar que este será, talvez, o maior escândalo financeiro da história do país.

E a expectativa é que o caso possa produzir a mais grave acusação alguma vez feita até hoje a um banqueiro em Portugal. Segundo informações a que o PÚBLICO teve acesso, os novos factos apurados no âmbito da investigação vieram sustentar a tese de que Ricardo Salgado foi o cérebro e o líder de uma rede criminosa, por si estruturada dentro GES e do BES, com a finalidade de cometer delitos de forma organizada. E com o propósito de fazer pagamentos ocultos, de cometer fraude no comércio internacional e de desviar fundos de centenas de milhões de euros para corrupção, tendo desnatado o BES em mais de mil milhões de euros.

Na prática, Salgado terá construído dentro do BES uma entidade paralela, que funcionava à margem dos órgãos de gestão e de controlo e dos supervisores, com o objectivo de “segurar” o GES, financiando a divida das empresas da família. Na sequência das investigações terá sido desenhado um organigrama criminoso, que nasceu das necessidades financeiras do GES.

As autoridades também terão concluído que Salgado só pôde levar por diante a sua estratégia alegadamente fraudulenta, pelo menos desde o início de 2009 até meados de 2014, contando com actores de fachada, que lhe garantiam o sucesso. Um pequeno núcleo, estável, de quadros, dirigido pelo ex-presidente do BES que interagiu com eles para encontrar e executar soluções que viabilizassem a prossecução dos fins ilícitos, através da sua experiência e conhecimento técnico de vária natureza. Tudo terá sido arquitectado no departamento financeiro e de mercados do BES, que tinha à frente Isabel Ferreira, e era tutelado pelo ex-CFO Amilcar Morais Pires, que de acordo com fontes conhecedoras do processo é classificado como sendo o “cérebro financeiro das operações criminosas”.

Para além de José Castela (tesoureiro), de Machado da Cruz (contabilista) e do ex-CFO do BES, Amílcar Morais Pires, neste pequeno comité aparece ainda envolvida a ex-directora do Departamento Financeiro de Mercados e Estudos (DFME) do BES, Isabel Almeida. Há outros nomes que funcionaram na órbita deste departamento: Pedro Costa, Cláudia Faria, Paulo Ferreira, António Soares, Pedro Serra, Nuno Escudeiro e Pedro Pinto. E que se envolveram a troco de contrapartidas em dinheiro, bónus, prémios anuais, poder de influência e subida na hierarquia do grupo.


 As peças do puzzle
Toda a estratégia de Salgado beneficiou da forma como foi arquitectado o grupo de empresas, existindo um organigrama que fontes próximas da investigação consideram ser criminoso. O banqueiro estava em Lisboa, a gerir as operações, recorrendo a várias entidades instrumentais domiciliadas em paraísos fiscais, por exemplo, nas Ilhas Virgens Britânicas, no Panamá ou nas Bahamas, onde prevalecem regimes contabilísticos e tributários pouco regulados e permissíveis. O acompanhamento operacional e contabilístico dessas sociedades era feito a partir da Suíça, onde estavam os testas-de-ferro: Alexandre Cadosh, Michel Creton e Nicoló di San Germano e Jean-Luc Schneider.

Uma das peças da estratégia foi a suíça Eurofin (ligada ao grupo, mas sem ser assumida como tal) a partir da qual se movimentavam os fundos emprestados pelos clientes do BES, e que eram usados para tapar os buracos abertos nas empresas do grupo, em particular na ESI, a holding mais importante da família Espírito Santo. Em 2009, a ESI já se encontrava tecnicamente insolvente, com capitais próprios negativos de 962 milhões de euros, e resultados negativos transitados de 1,2 mil milhões.

Em 2009 Ricardo Salgado terá ordenado a José Castela (tesoureiro) e a Machado da Cruz (o contabilista) que manipulassem as contas desta holding e fabricassem documentos falsos, para ocultar o quadro de falência da holding em que se encontrava, de modo a que ESI apresentasse lucros.

A 31 de Dezembro de 2012, a ESI tinha capitais próprios negativos de 1,609 mil milhões e prejuízos de quase 180 milhões, mas na fotografia que revelava às autoridades era lucrativa. Nesse mesmo ano, a ESI contraíra divida junto de entidades terceiras (parte junto de clientes do BES) de 4,7 mil milhões de euros, valor que chegou a Setembro do ano seguinte em 5,6 mil milhões. E tiram-se conclusões: Salgado arrastou, conscientemente, para um quadro de falência várias sociedades e clientes do BES chamados a aplicar poupanças na ESI.

Face ao quadro de falência da ESI, Salgado usou a sociedade na Suíça, a Eurofin, para funcionar em esquema Ponzi: o BES emitia obrigações a cupão zero, ou seja, sem pagar juros, que depois vendia à Eurofin que, por seu turno, as revendia a taxas de juro elevadas. O lucro era retido pelo Eurofin e depois destinado às empresas do GES já em grandes dificuldades. E estamos a falar de centenas de milhões de euros. O BdP apurou que entre 2009 e 2014, o BES foi desnatado, via Eurofin, em três mil milhões brutos, que resultaram numa perda líquida de 1,3 mil milhões.

A rede comercial do BES foi usada para Salgado ir levantar fundos junto dos clientes, com emissão de obrigações, para injectar em empresa moribundas do GES. E face à total incapacidade de pagar o passivo, Ricardo Salgado desviou a fonte do financiamento, com origem nos clientes, para o próprio banco e muniu-se de um esquema de manipulação de preços destas obrigações. Entre 2009 e 2014, também ocultou a ligação accionista da Eurofin ao GES.

No jogo das offshore
Nas últimas semanas, os mais de 40 arguidos do caso BES terão tido a confirmação, no quadro das notificações que receberam do Ministério Público, de que foi logo no início da primeira década do século que Salgado começou a adoptar um esquema Ponzi, de dívida em carrossel, e que garantiu a sobrevivência do universo Espirito Santo até à descoberta dos ilícitos. O MP terá chegado à conclusão que, desde 2004, o GES funcionava neste modelo. Nesse ano foi criada a EG Premium, que vendia valores mobiliários junto dos clientes do BES, e, com o produto da actividade, financiava as empresas do grupo sem condições para irem ao mercado levantar fundos. Estavam insolventes.

Para lá da Eurofin, o GES usava outra sociedade suíça, a Esfil, que recolhia o dinheiro da área financeira do GES, e cujas operações eram encabeçadas por Jean-Luc Schneider.  Por ordem de Salgado, Schneider era quem movimentava as verbas subtraídas do património do BES, e que destinava, nomeadamente, à ES Enterprise (Ilhas Virgem Britânicas) e à Alpha Management. Ambas escondidas intencionalmente do conhecimento das autoridades, mas servindo ao banqueiro para deslocar fundos, para várias entidades e pessoa, sem deixar rasto, a titulo de pagamentos de prémios ou contrapartidas ocultas. O que aconteceu até serem descobertas. O modus operandi é conhecido: os executores das transferências recorrem a linhas de comunicação privadas, conhecidos por private net, encobrindo as práticas criminosas.

A Operação Marquês, que envolve o ex-primeiro ministro José Sócrates, por exemplo, apanhou uma verba em trânsito saída da ES Enterprises de 69 milhões de euros. O que também se sabe é que entre 2009 e 2014, via Eurofin, Salgado terá desviado centenas de milhões de euros (que se admite rondarem os 300 milhões, sem confirmação) para a Enterprise e, a partir de 2013, para a Alpha  Management.

Um dos factos que terá sido detectado pelos investigadores, é que a maioria dos gestores e dos quadros do BES desconheciam as intenções dos dois homens fortes da instituição, o presidente e o CFO, e ignoravam o uso dado ao departamento financeiro e de mercados.

Seis anos na Justiça
Ao ser detido a 24 de Julho de 2014, na sua residência do Estoril, no âmbito do Processo Monte Branco, que investigava a maior rede de fraude fiscal e branqueamento de capitais descoberta em Portugal, o ex-presidente do BES não imaginava que dali em diante a sua vida pessoal e profissional seria alvo de escrutínio apertado por parte de uma equipa restrita do Ministério Público. Indiciado por suspeitas de burla, de abuso de confiança, de falsificação e de branqueamento de capitais, a detenção de Ricardo Salgado para interrogatório (que culminou com ordem de prisão domiciliária, entretanto levantada), coincidiu com o colapso do Grupo Espírito Santo (GES), e antecedeu em oito dias a intervenção ao BES. Duas instituições dirigidas pelo banqueiro ao longo de mais de duas décadas, com o beneplácito de toda a sua família e dos accionistas que foi atraindo para a sua esfera.

O episódio da detenção fez então as manchetes de todos os órgãos de comunicação social. Afinal Ricardo Salgado era o rosto do mais influente centro de poder da vida política, social e financeira portuguesa. Seis anos passados, Salgado está envolvido em processos de natureza criminal, administrativa e contra-ordenacional. As acções interpostas pelo BdP (que considerou Salgado o principal responsável pela queda do BES/GES) já culminaram na inibição de ocupação de cargos na banca e em instituições financeiras e na aplicação de multas, a última das quais de 3,7 milhões de euros.

tp.ocilbup@arierrefc

ENGLISH TRANSLATION
RICARDO SALGADO
Prosecutors will accuse Salgado of leading criminal organization within the BES

The public prosecutor prepares to reveal the order of prosecution of the BES case until the 15th. The investigation leads the MP to consider the existence of a criminal organization led by Ricardo Salgado

Cristina Ferreira
Cristina Ferreira July 11, 2020, 6:52

The Public Prosecutor's Office leans towards the thesis that Ricardo Salgado led a criminal association as leader of the Espírito Santo Group, creating a fraudulent structure within the BES itself, supported by the Financial and Markets Department, protected by former CFO (cfo) Amílcar Morais Pires. An organization set up without knowledge of the majority of the management team and the supervisory entities of the bank, namely Banco de Portugal.

After the successive postponements, everything indicates that the public prosecutor will meet the deadline announced to disclose the order of indictment to the process Universe Espirito Santo, which will have to do until next Wednesday, July 15. All the information that has been made public allows us to anticipate that this will be perhaps the biggest financial scandal in the history of the country.

And the expectation is that the case may produce the most serious accusation ever made to date to a banker in Portugal. According to information to which the PUBLIC had access, the new facts determined in the investigation supported the thesis that Ricardo Salgado was the brains and the leader of a criminal network, structured by him within GES and bes, with the purpose of committing crimes in an organized way. And for the purpose of making hidden payments, committing fraud in international trade and embezzling funds from hundreds of millions of euros for corruption, having skimmed the BES into more than €1 billion.

In practice, Salgado will have built within the BES a parallel entity, which operated outside the management and control bodies and supervisors, with the aim of "insuring" the GES, financing the debt of the family companies. Following the investigations, a criminal organigram was drawn up, which was born from the financial needs of GES.

The authorities will also have concluded that Salgado could only carry on his allegedly fraudulent strategy, at least from the beginning of 2009 until mid-2014, relying on front actors to guarantee his success. A small core, stable, of staff, directed by the former president of BES who interacted with them to find and execute solutions that would enable the pursuit of illicit purposes, through their experience and technical knowledge of various nature. Everything will have been architected in the financial and markets department of BES, which had ahead Isabel Ferreira, and was tutored by former CFO Amilcar Morais Pires, who according to sources familiar with the process is classified as being the "financial brain of criminal operations".

In addition to José Castile (treasurer), Machado da Cruz (accountant) and former BES CFO, Amílcar Morais Pires, this small committee also appears to be involved the former director of the Financial Department of Markets and Studies (DFME) of BES, Isabel Almeida. There are other names that worked in the orbit of this department: Pedro Costa, Cláudia Faria, Paulo Ferreira, António Soares, Pedro Serra, Nuno Escudeiro and Pedro Pinto. And they got involved in exchange for cash considerations, bonuses, annual prizes, power of influence and rise in the group hierarchy.

The puzzle pieces
Salgado's entire strategy benefited from the way the group of companies was architected, and there was an organization chart that sources close to the investigation consider to be criminal. The banker was in Lisbon, managing the operations, using various instrumental entities domiciled in tax havens, for example in the British Virgin Islands, Panama or the Bahamas, where low-regulated and permissible accounting and tax regimes prevail. The operational and accounting monitoring of these companies was made from Switzerland, where the iron foreheads were: Alexandre Cadosh, Michel Creton and Nicoló di San Germano and Jean-Luc Schneider.

One of the pieces of the strategy was the Swiss Eurofin (linked to the group, but without being assumed as such) from which the funds borrowed by BES customers moved, and which were used to plug the open holes in the group's companies, in particular at ESI, the most important holding company of the Espírito Santo family. In 2009, ESI was already technically insolvent, with negative equity of 962 million euros, and negative results of EUR 1.2 billion.

In 2009 Ricardo Salgado ordered José Casta (treasurer) and Machado da Cruz (the accountant) to manipulate the accounts of this holding company and fabricate false documents, to hide the bankruptcy of the holding company in which it was, so that ESI would make profits.

As of 31 December 2012, ESI had negative equity of 1.609 billion and losses of almost 180 million, but in the photograph it revealed to the authorities it was profitable. That same year, ESI had contracted a debt to third parties (part of BES customers) of EUR 4.7 billion, a figure that reached 5.6 billion euros in September of the following year. And conclusions are drawn: Salgado consciously dragged into a bankruptcy framework several COMPANIES and BES customers called upon to apply savings in ESI.

In view of ESI's bankruptcy, Salgado used the company in Switzerland, Eurofin, to operate in a Ponzi scheme: BES issued zero coupon bonds, i.e. without paying interest, which then sold to Eurofin, which in turn resold them at high interest rates. The profit was retained by Eurofin and then destined to GES companies already in great difficulty. And we're talking hundreds of millions of euros. The BdP found that between 2009 and 2014, BES was skimmed via Eurofin into three billion gross, resulting in a net loss of 1.3 billion.

Bes' commercial network was used for Salgado to raise funds from clients, issuing bonds, to inject into dying GES companies. And in view of the total inability to pay the liability, Ricardo Salgado diverted the source of the financing, originating from the clients, to the bank itself and armed himself with a scheme of price manipulation of these obligations. Between 2009 and 2014, it also concealed Eurofin's shareholder link to GES.

In the set of offshore
In recent weeks, the more than 40 defendants in the BES case will have had the confirmation, in the framework of the notifications they received from the public prosecutor, that it was at the beginning of the first decade of the century that Salgado began to adopt a Ponzi scheme, debt in carousel, and that ensured the survival of the universe Espirito Santo until the discovery of the illicit. The MP will have come to the conclusion that, since 2004, the GES worked in this model. That year, EG Premium was created, which sold securities to BES customers, and, with the proceeds of the activity, financed the group companies without conditions to go to the market to raise funds. They were insolvent.

In other than Eurofin, GES used another Swiss company, Esfil, which collected money from ges' financial area, and whose operations were headed by Jean-Luc Schneider.  By order of Salgado, Schneider was the one who moved the funds subtracted from the assets of the BES, and which was allocated, inter alia, to ES Enterprise (British Virgin Islands) and Alpha Management. Both intentionally hidden from the knowledge of the authorities, but serving the banker to shift funds, to various entities and person, without a trace, the title of premium payments or hidden counterparts. What happened until they were discovered. The modus operandi is known: the executors of the transfers resort to private lines of communication, known as private net, covering up criminal practices.

Operation Marquis, which involves former Prime Minister José Sócrates, for example, picked up a sum in transit from ES Enterprises of 69 million euros. What is also known is that between 2009 and 2014, via Eurofin, Salgado will have diverted hundreds of millions of euros (which is allowed to be around 300 million, without confirmation) to the Enterprise and, from 2013, to Alpha Management.

One of the facts that has been detected by the researchers is that most of the managers and staff of the BES were unaware of the intentions of the two strongmen of the institution, the president and the CFO, and ignored the use given to the financial and markets department.

Six years in court
When he was arrested on July 24, 2014, at his Estoril residence, under the Monte Branco Process, which investigated the largest network of tax fraud and money laundering discovered in Portugal, the former president of BES did not imagine that from then on his personal and professional life would be subject to close scrutiny by a restricted team of the Public Prosecutor's Office. Indicted on suspicion of fraud, abuse of trust, forgery and money laundering, the arrest of Ricardo Salgado for questioning (which culminated in a house arrest order, however raised), coincided with the collapse of the Espírito Santo Group (GES), and preceded the intervention to BES in eight days. Two institutions run by the banker over more than two decades, with the benefit of his entire family and the shareholders he has been attracting to his sphere.

The arrest episode then made headlines for all the media. After all Ricardo Salgado was the face of the most influential center of power of Portuguese political, social and financial life. Six years later, Salgado is involved in criminal, administrative and counter-ordaining proceedings. The actions brought by the BdP (which considered Salgado to be primarily responsible for the fall of BES/GES) have already resulted in the inhibition of occupation of positions in banking and financial institutions and the imposition of fines, the latter of which is 3.7 million euros.


tp.ocilbup@arierrefc

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