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ANÁLISE
Nas mãos de Trump
No seu primeiro mandato, o Presidente americano abalou as
instituições americanas e internacionais. Se os americanos o reelegerem, diz
Fukuyama, será um desastre para as democracias e para uma ordem internacional
liberal.
JORGE ALMEIDA
FERNANDES
11 de Julho de
2020, 7:00
A pensar nas
presidenciais americanas de Novembro, cresce um pouco por toda a parte, de
ocidente a oriente, a ansiedade sobre o seu desfecho. Não se trata apenas de
trocar um presidente horrível por outro melhor ou menos mau. Há momentos em que
a escolha de um dirigente pode marcar a História catastroficamente e ter
efeitos muito para lá do país que o elege. Não se trata de personalizar a
política nem confundir a espuma da época com o longo curso da História. O
problema é que, como diriam os americanos, “Trump matters”.
É útil escutar as
vozes que se vão fazendo ouvir. Num artigo recente, Francis Fukuyama fala da
pandemia e das tendências que ela tende a acelerar, como os nacionalismos e o
isolacionismo, ou fenómenos como a redistribuição do poderio em favor da Ásia
Oriental. A China, apesar de tudo, parece beneficiar com a crise, enquanto a
desastrada resposta americana fez descer verticalmente o prestígio dos Estados
Unidos. A pandemia funciona como um stress test global para uma ordem mundial
de cuja liderança Washington abdicou.
Na definição duma
nova ordem, “os Estados Unidos são a maior variável”. Explica Fukuyama: “Se o
Presidente obtiver um segundo mandato em Novembro, decaem as probabilidades de
uma ressurgência geral da democracia ou de uma ordem internacional liberal.
Seja qual for o resultado da eleição, a profunda polarização permanecerá
provavelmente. Mesmo que os democratas conquistem a Casa Branca e as duas
câmaras, herdarão um país de joelhos. (…) As instituições nacionais e
internacionais estarão fracas e abaladas por anos de abuso e precisarão de anos
para se recomporem — se ainda for possível.”
“A covid-19 não
transformou o mundo, pelo menos até agora”, escreve o analista Martin Wolf no
Financial Times. “Mas acelerou os desenvolvimentos, tecnológica, social e
politicamente. Há uma impressionante verdade nas relações internacionais: o
fosso entre a China e o Ocidente e o fracasso da liderança americana no
Ocidente ambos se aprofundaram. A ordem mundial sob a égide ocidental está em
crise. Se os EUA reelegerem Trump, entrará em estado terminal.”
Ao mesmo tempo, a
China mostra-se crescentemente assertiva. Hong Kong é o mais recente exemplo.
“Sob Xi Jinping, imperador vitalício, a afirmação da China como superpotência e
despotismo é completa. O abandono do célebre conselho de Deng Xiaoping —
‘Escondei a vossa força, ganhai tempo, não domineis’ — não permite ambiguidade.
Sim, a China é também um actor preparando um desafio global.”
Depois de terem
sido capazes de criar e sustentar alianças de largo fôlego, da Europa à Ásia,
“tudo isto se desmoronou”. “Os EUA sucumbiram às terríveis divisões internas
que acabaram num destrutivo nacionalismo de soma zero. A conduta dos Estados
Unidos durante a pandemia traduz o desmantelamento da liderança mundial
americana. O fracasso não se deve só ao Governo. Também se deve ao malévolo
incompetente que o dirige.”
A questão da Ásia
Estamos muito
focados na rivalidade sino-americana. Mas, para lá dela, interessa interrogar a
política asiática dos Estados Unidos, que condiciona as relações com a China. A
Administração Obama procedeu a um reequilíbrio da política americana em favor
da Ásia. Assinala o geopolítico americano Robert D. Kaplan que Trump começou a
sua presidência pela revogação da Parceria Transpacífico, que era a trave
mestra do comércio, do investimento da nova política americana para Ásia.
“Trump anulou essa estrutura histórica que se contrapunha à grande estratégia
da China para a Eurásia: a Nova Rota da Seda (Belt and Road Iniciative). Fez
pior. A base da segurança asiática desde a II Guerra Mundial era a aliança
Estados Unidos-Japão. Ancorando os Estados Unidos na segunda mais forte nação,
Washington continha elegantemente a China.” E permitia a outros Estados
enriquecerem com o comércio com a China, garantindo a sua segurança. “Ainda
antes de tomar posse, Trump questionou a base real do tratado de aliança:
garantir a defesa do Japão. Isto aterrorizou os japoneses e a região.” Sugeriu
que Tóquio assegurasse a sua própria defesa. A posição americana na Ásia saiu
enfraquecida. “Os aliados asiáticos Washington têm menos confiança nos Estados
Unidos e muito mais medo da China.”
Lee Hsien Leong,
primeiro- -ministro de Singapura acaba de publicar na Foreign Affairs um longo
artigo sobre os riscos de confrontação entre a China e os Estados Unidos. Não
fala, evidentemente das eleições americanas, mas é nisso que pensa. “A presença
americana continua a ser vital para a região do Pacífico. Sem ela, o Japão e a
Coreia do Sul seriam obrigados a encarar o desenvolvimento de armas nucleares.”
E define assim a equação regional: “Os países da Ásia encaram os Estados Unidos
como uma potência residente, com interesses vitais na região. Ao mesmo tempo, a
China está ao lado. O que os países asiáticos não querem é ser forçados a
escolher entre os dois.” A segurança garantida pelos EUA é uma condição para
terem relações amigáveis com Pequim. E faz questão em frisar: “Os Estados
Unidos não são uma potência em declínio.”
O “estado de
susto”
Enfim, todos
esperam os resultados de Novembro. E na Europa? “Tudo depende do resultado das
eleições americanas, que é a verdadeira razão por que a China fez, de momento,
uma pausa nas negociações com a UE”, escreve o sinólogo François Godement. “Se
Donald Trump for reeleito, a China terá interesse num acordo com a Europa nas
questões fundamentais do comércio e do investimento, perante o risco de
desconexão económica (decoupling) de iniciativa americana.”
Gostaria que esta
“antologia” fosse lida, não tanto como um libelo anti-Trump, mas como uma avaliação
do alcance das eleições de Novembro. Na América não faltam os cenários
catastróficos. O historiador Harold James, professor de Relações Internacionais
em Princeton, rememora os anos finais da URSS. “Até ao momento em que o sistema
soviético entrou em colapso, muito poucos pensavam que tal pudesse acontecer.”
Se Trump for reeleito, também a doença americana “pode tornar-se terminal”.
O mundo não acaba
se Trump for reeleito. Mas reconheça-se que, na América de hoje, o “estado de
susto” é legítimo.

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