OPINIÃO
Por quem se toma este tipo?
Hoje, a “comunidade internacional”, apela ao cessar-fogo
de parte a parte para parar com a morte de civis. Pessoalmente concordo. Mas há
quem vá mais longe exigindo a Israel e, apenas a Israel, “o fim imediato dos
ataques a Gaza”. Uns e outros esquecem os crimes do Hamas.
Esther Mucznik
20 de Maio de
2021, 0:25
https://www.publico.pt/2021/05/20/opiniao/opiniao/toma-tipo-1963232
Hoje dia 18 de
Maio, chamou-me à atenção um título de um dos artigos de opinião aqui no jornal
Público: “Israel tem o direito de existir?”
O artigo é
assinado por um senhor denominado Alexandre Guerreiro e confesso que ao ler o
título e o artigo, vieram-me à cabeça as palavras com que Bill Clinton acolheu,
em 1996, após o assassinato de Itzhak Rabin, o recém-empossado
primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, quando este, de visita a
Washington, lhe tenta ministrar uma “lição magistral” sobre o conflito
israelo-árabe. E essas palavras eram: “Por quem se toma este tipo?”
No artigo de
Alexandre Guerreiro, para além de propor “sólidas represálias contra Israel”,
há duas frases que eu gostaria de destacar. A primeira em que afirma que “na
prática, a génese do argumento em favor da criação do Estado de Israel não
difere da natureza que inspirou organizações como o Estado Islâmico…”. A outra
é mais subtil: “nenhum Estado, enquanto entidade jurídico-política, tem por si
só, um ‘direito de existir’: os povos é que têm o direito à autodeterminação.”
Relativamente à
primeira, estranho que seja preciso explicar ao seu autor que o auto-denominado
Estado Islâmico tem como fim declarado a islamização religiosa e política das
zonas e regiões atacadas, através do terror sobre as populações. Por sua vez, o
Estado de Israel, para além de não pretender “judaizar” ninguém a não ser as
suas próprias ovelhas tresmalhadas, é, não a causa, mas a consequência de um
terror praticamente contínuo ao longo dos séculos, e a única forma de ter um
canto onde sejam donos do seu próprio destino.
Quanto à segunda,
é verdade que os povos devem ter o direito à autodeterminação na criação de um
Estado seu e foi precisamente essa opção, essa batalha de mais de um século
levada a cabo pelo povo judeu que lhe permitiu aceder ao “direito de existir”.
Já o escrevi aqui, mas torno a repetir:
por muito importante que tenha sido a decisão da ONU, Israel não foi
criado pelas Nações Unidas: foi edificado pedra a pedra pelos homens e mulheres
que um século antes começaram a construir os seus fundamentos — a sua
agricultura, a sua indústria, as suas universidades, a sua rede sanitária e
educacional, o seu exército, a sua estrutura política democrática. Tudo isso já
existia e estava praticamente pronto antes de 1947/1948. A decisão das Nações
Unidas foi fundamental, mas é bom lembrar que ela veio legitimar uma realidade
já existente.
O povo
palestiniano tem direito à sua autodeterminação e a um Estado próprio. Sei que
os sucessivos governos de Benjamin Netanyahu tudo têm feito para contrariar
esse objectivo, nomeadamente aliando-se a uma extrema-direita fanática,
nacionalista e racista que muito mal tem feito também a Israel. Não me revejo
na política de instalação progressiva e cada vez mais selvagem de colonatos em
território alheio. E não me revejo numa liderança política que mantém um país
refém das ambições um homem que acima de tudo quer escapar à justiça. Mas não é
lutando pela destruição de Israel que se construirá um Estado palestiniano, nem
sequer através de um qualquer reconhecimento internacional. Este nada mais faz
do que sancionar uma realidade já existente.
O Hamas é uma
organização terrorista que não reconhece a existência do Estado de Israel. Mas
também sabe que não são os seus cerca de 3500 rockets que o vão destruir. Mesmo
que isso custe a vida de centenas ou milhares de homens, mulheres e crianças de
Gaza, o Hamas sabe que nunca conseguirá ganhar Israel pelas armas. O seu
objectivo é outro: conseguir o repúdio e a condenação internacional de Israel,
o que não é difícil como temos visto, e por outro alcandorar-se a líder do povo
palestiniano não apenas em Gaza, mas também na Cisjordânia e, por que não, da
própria comunidade árabe israelita. O que não é impossível, não só pela
inexistência de uma liderança da Autoridade palestiniana na Cisjordânia, mas
pelo apoio que recebe nomeadamente do Irão.
Hoje, a “comunidade
internacional”, apela ao cessar-fogo de parte a parte para parar com a morte de
civis. Pessoalmente concordo. Mas há quem vá mais longe exigindo a Israel e,
apenas a Israel, “o fim imediato dos ataques a Gaza”. O já mencionado Alexandre
Guerreiro pede também a responsabilidade criminal dos altos responsáveis
israelitas “por crimes internacionais cometidos contra a população árabe da
região” e não está sozinho. Uns e outros esquecem os crimes do Hamas, não
apenas contra a sua própria população, mas também contra alvos civis
indiscriminados da população israelita. Esquecem os apelos desenfreados de
responsáveis da organização terrorista apelando ao assassinato de judeus por
todo o mundo, indo ao ponto de explicar em detalhe como o devem fazer. Esquecem
como, por todo o lado, a espuma da raiva e do ódio acaba por recair sobre os
que estão ao lado: os judeus. As consequências? Nada de grave, apenas números:
dos 9 milhões de judeus europeus antes da Segunda Grande Guerra, hoje são 1,3
milhões em todo o Continente. As razões? Não é preciso explicar.


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