segunda-feira, 24 de maio de 2021

Marrocos vive dentro de Ceuta e teme crescimento da extrema-direita

 



REPORTAGEM

Marrocos vive dentro de Ceuta e teme crescimento da extrema-direita

 

Dentro de um bairro marroquino de Ceuta vive-se a dualidade entre cultura e nacionalidade. Integrados há largos anos num cenário onde várias culturas convivem pacificamente, teme-se poder existir um aproveitamento político na ressaca da entrada de mais de oito mil migrantes no enclave espanhol no Norte de África.

 

André Borges Vieira (texto) e Teresa Abecasis (fotografia) enviados especiais a Ceuta

22 de Maio de 2021, 21:00

https://www.publico.pt/2021/05/22/mundo/reportagem/marrocos-vive-dentro-ceuta-teme-crescimento-extremadireita-1963666?fbclid=IwAR3TeRfHmnul1cey9RAScaUJwTW4M0b7QdB6Ep3Ws3LB6VJ7fI8hXAiGmU0

 

Hassan, nascido em Ceuta, de 60 anos, está no ponto mais alto da zona de Recinto Sul, de costas viradas para o mar Mediterrâneo e com Marrocos como pano de fundo. É ali, perto da mesquita, que vive uma grande parte da comunidade marroquina de Ceuta. Como muitos que ali vivem, é cidadão espanhol no bilhete de identidade, mas marroquino para sempre, aos olhos de alguns e por herança cultural. Trabalhou toda a vida em Ceuta e não trocava esta terra por nenhuma outra. Ao longo de seis décadas assistiu à chegada de muita gente que passou a fronteira de Marrocos para tentar a sua sorte na Europa, muitos sem sucesso.

 

No início da última semana assistiu a uma vaga de entradas no país sem precedentes, comparando com outra altura qualquer. Não censura quem o tenha feito, a nado ou por terra, aproveitando a brecha de tempo que Marrocos proporcionou ao abrir a fronteira. Porém, perdeu algum tempo a cogitar sobre o assunto para chegar a uma resposta: “É um problema entre governos. O Governo de Espanha e de Marrocos têm de chegar a um acordo”. Esse acordo passaria, considera, por voltar ao passado, a uma altura em que cruzar a fronteira não era assim tão complicado, ainda que compreenda viverem-se alturas de contenção no que toca a medidas de segurança. Esta é a sua perspectiva sobre este incidente diplomático. Porém, no bairro onde Hassan vive, há vários pontos de vista da comunidade de ascendência marroquina sobre esta questão.

 

Ao início da tarde de sábado, enquanto perto de fronteira do Tarajal, junto à praia por onde entraram alguns dos mais de oito mil migrantes vindos de Marrocos, acaba de passar mais um grupo de marroquinos em direcção à terra de origem, nas ruas estreitas que sobem em direcção a um ponto mais alto da cidade parece viver-se a normalidade de outro dia qualquer. À porta de uma das casas está Hassan. Acede ao convite do PÚBLICO para uma conversa, mas com uma condição: quer que seja feita com Marrocos no horizonte.

 

A sua casa é Ceuta e é ali que se sente bem. Já lá em cima atira: “A vista é bonita”. Torna-se difícil contrapor com argumentos. Dali Marrocos está à distância do alcance dos olhos. Porém, para muitos do lado de lá, Ceuta parece estar bem mais longe.

 

Mas nem sempre foi assim. “Sou do tempo em que vinha um autocarro de Marrocos com mercadorias, quando a fronteira estava aberta”, recorda com saudade. Hoje, já não é assim. E isso é um problema para quem está do outro lado. “A fronteira era o pão de cada dia”, diz, remetendo para a importância que a travessia tem para o comércio nos dois pontos.

 

Ao contrário de alguns rumores que apontam para uma mobilização em massa de muitos que terão sido enganados pela ideia de que veriam Messi e Cristiano Ronaldo em Ceuta, acredita firmemente que os motivos foram outros: o encerramento da fronteira no início da pandemia. “[Esta ideia] é um absurdo. Não vêm para ver a família e vinham para ver a bola a correr?”, questiona.

 

Os que chegaram vieram por necessidade, é a tese que defende. “Ninguém se quer meter numa balsa e morrer”, atira. Porém, compreendendo as motivações de quem chega, acredita existir uma ilusão deturpada da realidade encontrada ao fim de uns dias em território europeu. “Se pudesse falar com eles diria que estão muito equivocados”, afirma, sublinhando existirem expectativas no sentido de que todos os problemas se resolverão à chegada. “Preferia ficar em Marrocos e não chegar para passar por esta calamidade”, afirma.

 

Nas entranhas do bairro em Recinto Sul, perto da mesquita, dois jovens conversam na rua. Após poucos minutos de conversa connosco, um dos rapazes enuncia em voz alta: “Portugueses”. Poucos segundos passam até formar-se um grupo maior. Um dos que se aproxima é Tarek, de trinta anos, parte da terceira geração de familiares que nasceu em Ceuta. “Um espanhol muçulmano”, é assim que se define.

 

 

Várias culturas em convivência

Contudo, acredita não ser assim que muitos o vêem. No bairro, de acordo com as pessoas com quem falamos, há a ideia generalizada de que Ceuta é um lugar pacifico ao nível da convivência entre diferentes culturas - muçulmanos, judeus, hindus, espanhóis e marroquinos vivem aparentemente sem atritos. Mas Tarek crê existir um crescimento da extrema-direita do Vox. Por isso, teme que estes episódios funcionem como catalisador para a desavença entre culturas diferentes.

 

“Sinto que me olham como se fosse de fora, mas na minha cara ninguém diz nada”, afirma, sublinhando existir quem se esconda atrás das redes sociais. O crescimento da extrema-direita já teve efeito na forma como os mais novos se vêem. “Sentem-se inferiores”, diz, apontando para um grupo de crianças. Mas continua a achar que Ceuta tem as suas vantagens: “Vive-se bem. Tranquilo”.

 

Mas acredita não ser o destino definitivo escolhido por quem tenta furar a fronteira. “Querem fugir da miséria e querem ter melhores condições de vida. E Ceuta, na verdade, funciona apenas como mais um passo. Querem subir para toda a Europa. Ceuta não lhes interessa”, considera.

 

É mais difícil entrar em diálogo com quem nasceu em Marrocos e vive agora em Ceuta. Ao lado de Mohamed Abdeslam está um desses exemplos. Um homem nessa situação prefere ouvir a conversa sem nada acrescentar. Abdeslam nasceu em Ceuta há 48 anos e actualmente diz não ter familiares em Marrocos - os avós foram os primeiros da família directa a chegar.

 

“Nasci aqui, tenho família aqui e tenho quatro filhos aqui”. Porém, considera-se marroquino com nacionalidade espanhola. E diz isso só por um motivo: “É de lá que os meus avós vêm”. “Os meus bisavós são de Rife, portanto, eu não posso ser de Málaga”, acrescenta. Esta noção pouco tem a ver com patriotismos ou nacionalismos. Abdeslam não se revê nesses conceitos. Tem apenas a ver com cultura: “Não me chamo Pedro nem Juan, mas eu sinto-me daqui”.

 

Contributo da pandemia

Quanto à entrada do grupo de migrantes no início da semana passada sente necessidade de fazer um reparo na forma como “muitos” têm classificado o sucedido. “Não se pode chamar invasão ao que aconteceu. São apenas miúdos. São menores”, diz. Quanto ao facto de terem chegado num número muito acima do habitual acredita ter resposta apenas numa ocorrência, relegando para segundo plano outras teses - a abertura da fronteira do lado de Marrocos, fechada desde o início da pandemia, terá dado origem ao “passa a palavra”.

 

Com muitos negócios a passarem por dificuldades, por força da pandemia, a situação menos favorável do lado de Marrocos acredita ser o motivo maior para o que aconteceu.

 

“Abrirem a fronteira é como um pássaro numa gaiola a quem abrem a gaiola. Sai a voar.” Esta é a leitura que Abdeslam faz dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, também teme que esta situação e algumas informações não alinhadas com a verdade possam dar margem de manobra à extrema-direita para crescer. “Os extremismos nunca foram bons para nada”, sublinha.

 

 

Apesar da dualidade identitária em que vive não tem dúvidas da sua nacionalidade. “Dói-me quando se passa algo [de mal] na minha terra”, afirma, referindo-se a Espanha. “Estamos no mundo para vivermos todos. Ao fim ao cabo somos pessoas. A única diferença destas pessoas que vêm para cá é não terem documentação, sejam italianos ou morenos”, conclui antes de se despedir.

 

A caminho da saída do bairro, no topo de uma escadaria que segue em direcção a uma rua principal, sentados em duas cadeiras de plástico, estão dois jovens que chegaram a Ceuta a nado, na semana passada. Tentam comunicar connosco no pouco castelhano que sabem. Perguntamos se vão juntar-se à fila junto à fronteira para regressarem a casa. Dizem que não. Há outro destino que têm como objectivo: “Espanha”, dizem, apontando para o outro lado do Mediterrâneo.

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