REPORTAGEM
Marrocos vive dentro de Ceuta e teme crescimento da
extrema-direita
Dentro de um bairro marroquino de Ceuta vive-se a
dualidade entre cultura e nacionalidade. Integrados há largos anos num cenário
onde várias culturas convivem pacificamente, teme-se poder existir um
aproveitamento político na ressaca da entrada de mais de oito mil migrantes no
enclave espanhol no Norte de África.
André Borges
Vieira (texto) e Teresa Abecasis (fotografia) enviados especiais a Ceuta
22 de Maio de
2021, 21:00
Hassan, nascido
em Ceuta, de 60 anos, está no ponto mais alto da zona de Recinto Sul, de costas
viradas para o mar Mediterrâneo e com Marrocos como pano de fundo. É ali, perto
da mesquita, que vive uma grande parte da comunidade marroquina de Ceuta. Como
muitos que ali vivem, é cidadão espanhol no bilhete de identidade, mas
marroquino para sempre, aos olhos de alguns e por herança cultural. Trabalhou
toda a vida em Ceuta e não trocava esta terra por nenhuma outra. Ao longo de
seis décadas assistiu à chegada de muita gente que passou a fronteira de
Marrocos para tentar a sua sorte na Europa, muitos sem sucesso.
No início da
última semana assistiu a uma vaga de entradas no país sem precedentes,
comparando com outra altura qualquer. Não censura quem o tenha feito, a nado ou
por terra, aproveitando a brecha de tempo que Marrocos proporcionou ao abrir a
fronteira. Porém, perdeu algum tempo a cogitar sobre o assunto para chegar a
uma resposta: “É um problema entre governos. O Governo de Espanha e de Marrocos
têm de chegar a um acordo”. Esse acordo passaria, considera, por voltar ao
passado, a uma altura em que cruzar a fronteira não era assim tão complicado,
ainda que compreenda viverem-se alturas de contenção no que toca a medidas de
segurança. Esta é a sua perspectiva sobre este incidente diplomático. Porém, no
bairro onde Hassan vive, há vários pontos de vista da comunidade de ascendência
marroquina sobre esta questão.
Ao início da
tarde de sábado, enquanto perto de fronteira do Tarajal, junto à praia por onde
entraram alguns dos mais de oito mil migrantes vindos de Marrocos, acaba de
passar mais um grupo de marroquinos em direcção à terra de origem, nas ruas
estreitas que sobem em direcção a um ponto mais alto da cidade parece viver-se
a normalidade de outro dia qualquer. À porta de uma das casas está Hassan.
Acede ao convite do PÚBLICO para uma conversa, mas com uma condição: quer que
seja feita com Marrocos no horizonte.
A sua casa é
Ceuta e é ali que se sente bem. Já lá em cima atira: “A vista é bonita”.
Torna-se difícil contrapor com argumentos. Dali Marrocos está à distância do
alcance dos olhos. Porém, para muitos do lado de lá, Ceuta parece estar bem
mais longe.
Mas nem sempre
foi assim. “Sou do tempo em que vinha um autocarro de Marrocos com mercadorias,
quando a fronteira estava aberta”, recorda com saudade. Hoje, já não é assim. E
isso é um problema para quem está do outro lado. “A fronteira era o pão de cada
dia”, diz, remetendo para a importância que a travessia tem para o comércio nos
dois pontos.
Ao contrário de
alguns rumores que apontam para uma mobilização em massa de muitos que terão
sido enganados pela ideia de que veriam Messi e Cristiano Ronaldo em Ceuta,
acredita firmemente que os motivos foram outros: o encerramento da fronteira no
início da pandemia. “[Esta ideia] é um absurdo. Não vêm para ver a família e
vinham para ver a bola a correr?”, questiona.
Os que chegaram
vieram por necessidade, é a tese que defende. “Ninguém se quer meter numa balsa
e morrer”, atira. Porém, compreendendo as motivações de quem chega, acredita
existir uma ilusão deturpada da realidade encontrada ao fim de uns dias em
território europeu. “Se pudesse falar com eles diria que estão muito
equivocados”, afirma, sublinhando existirem expectativas no sentido de que todos
os problemas se resolverão à chegada. “Preferia ficar em Marrocos e não chegar
para passar por esta calamidade”, afirma.
Nas entranhas do
bairro em Recinto Sul, perto da mesquita, dois jovens conversam na rua. Após
poucos minutos de conversa connosco, um dos rapazes enuncia em voz alta:
“Portugueses”. Poucos segundos passam até formar-se um grupo maior. Um dos que
se aproxima é Tarek, de trinta anos, parte da terceira geração de familiares
que nasceu em Ceuta. “Um espanhol muçulmano”, é assim que se define.
Várias culturas
em convivência
Contudo, acredita
não ser assim que muitos o vêem. No bairro, de acordo com as pessoas com quem
falamos, há a ideia generalizada de que Ceuta é um lugar pacifico ao nível da
convivência entre diferentes culturas - muçulmanos, judeus, hindus, espanhóis e
marroquinos vivem aparentemente sem atritos. Mas Tarek crê existir um
crescimento da extrema-direita do Vox. Por isso, teme que estes episódios
funcionem como catalisador para a desavença entre culturas diferentes.
“Sinto que me
olham como se fosse de fora, mas na minha cara ninguém diz nada”, afirma,
sublinhando existir quem se esconda atrás das redes sociais. O crescimento da
extrema-direita já teve efeito na forma como os mais novos se vêem. “Sentem-se
inferiores”, diz, apontando para um grupo de crianças. Mas continua a achar que
Ceuta tem as suas vantagens: “Vive-se bem. Tranquilo”.
Mas acredita não
ser o destino definitivo escolhido por quem tenta furar a fronteira. “Querem
fugir da miséria e querem ter melhores condições de vida. E Ceuta, na verdade,
funciona apenas como mais um passo. Querem subir para toda a Europa. Ceuta não
lhes interessa”, considera.
É mais difícil
entrar em diálogo com quem nasceu em Marrocos e vive agora em Ceuta. Ao lado de
Mohamed Abdeslam está um desses exemplos. Um homem nessa situação prefere ouvir
a conversa sem nada acrescentar. Abdeslam nasceu em Ceuta há 48 anos e
actualmente diz não ter familiares em Marrocos - os avós foram os primeiros da
família directa a chegar.
“Nasci aqui,
tenho família aqui e tenho quatro filhos aqui”. Porém, considera-se marroquino
com nacionalidade espanhola. E diz isso só por um motivo: “É de lá que os meus
avós vêm”. “Os meus bisavós são de Rife, portanto, eu não posso ser de Málaga”,
acrescenta. Esta noção pouco tem a ver com patriotismos ou nacionalismos.
Abdeslam não se revê nesses conceitos. Tem apenas a ver com cultura: “Não me
chamo Pedro nem Juan, mas eu sinto-me daqui”.
Contributo da
pandemia
Quanto à entrada
do grupo de migrantes no início da semana passada sente necessidade de fazer um
reparo na forma como “muitos” têm classificado o sucedido. “Não se pode chamar
invasão ao que aconteceu. São apenas miúdos. São menores”, diz. Quanto ao facto
de terem chegado num número muito acima do habitual acredita ter resposta
apenas numa ocorrência, relegando para segundo plano outras teses - a abertura
da fronteira do lado de Marrocos, fechada desde o início da pandemia, terá dado
origem ao “passa a palavra”.
Com muitos
negócios a passarem por dificuldades, por força da pandemia, a situação menos
favorável do lado de Marrocos acredita ser o motivo maior para o que aconteceu.
“Abrirem a
fronteira é como um pássaro numa gaiola a quem abrem a gaiola. Sai a voar.”
Esta é a leitura que Abdeslam faz dos acontecimentos. Ao mesmo tempo, também
teme que esta situação e algumas informações não alinhadas com a verdade possam
dar margem de manobra à extrema-direita para crescer. “Os extremismos nunca
foram bons para nada”, sublinha.
Apesar da
dualidade identitária em que vive não tem dúvidas da sua nacionalidade. “Dói-me
quando se passa algo [de mal] na minha terra”, afirma, referindo-se a Espanha.
“Estamos no mundo para vivermos todos. Ao fim ao cabo somos pessoas. A única
diferença destas pessoas que vêm para cá é não terem documentação, sejam
italianos ou morenos”, conclui antes de se despedir.
A caminho da
saída do bairro, no topo de uma escadaria que segue em direcção a uma rua
principal, sentados em duas cadeiras de plástico, estão dois jovens que
chegaram a Ceuta a nado, na semana passada. Tentam comunicar connosco no pouco
castelhano que sabem. Perguntamos se vão juntar-se à fila junto à fronteira
para regressarem a casa. Dizem que não. Há outro destino que têm como
objectivo: “Espanha”, dizem, apontando para o outro lado do Mediterrâneo.


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