OPINIÃO
Tempestade perfeita
Não fora a formidável capacidade amortecedora do
Presidente Marcelo e já estaríamos a navegar em águas furiosas. Mas as ambições
estão à solta. Reina a desconfiança. E os que já perceberam o papel do
Presidente querem agora ver-se livres dele. O que é perigoso.
António Barreto
15 de Maio de
2021, 0:10
https://www.publico.pt/2021/05/15/opiniao/opiniao/tempestade-perfeita-1962649
Parecem reunidas
as condições para uma grande tempestade. Perfeita ou não, é o que falta saber.
Por onde passou,
a pandemia deixou mortos e feridos. Isto é, por todo o lado. Na sociedade e na
economia. Nas instituições e nas empresas. Nas comunidades e nas classes, sobretudo
nas mais pobres. A desigualdade social aumentou. A tensão racial,
deliberadamente exacerbada, está mais visível. Há gerações que vão sentir, por
anos, as dores desta crise. Se houver força, meios e honestidade, talvez seja
possível acudir aos vivos. Mas a sociedade está ferida, ninguém duvide. A ponto
de que já poucos acreditam no optimismo: desconfiam mesmo de que este é o
próprio do fala-barato.
Na vida política,
previsivelmente, houve de tudo: cooperação, solidariedade, rivalidades e
oportunismo. Mas o mais visível é muito negativo. O debate político está a
ficar insuportável. O teor das discussões parlamentares atinge inéditos níveis
de baixeza. Quem tem o poder (o PS e as esquerdas) tem cada vez mais receio de
o perder, apesar de não ter adversário à altura. Quem não tem o poder (o PSD e
as direitas) pressente que não vai ser desta que lá vai, que não tem pessoal
nem argumentos. A extrema-direita não esconde uma espécie de justicialismo
histérico que a toda a gente faz mal. Certos grupos de esquerda, a começar pelo
Bloco, falam com o desespero de quem está a perder a revolução, a poucos metros
da Bastilha ou do Palácio de Inverno. Ministros, secretários de Estado e
autarcas perdem a compostura. Há responsáveis políticos que se exprimem como
carroceiros. Já há ameaças à liberdade de expressão. Crescem as vontades de
controlar a comunicação. O debate político está envenenado. Não apenas porque
faltam décadas de experiência democrática e gerações de educação política, mas
também porque tudo parece frágil e incerto.
As alianças, as
reais e as esperadas, estão tremidas, entre parêntesis. Nada é seguro. Todos
querem ver se escapam à necessidade de fazer coligações. O PS e o PSD sonham
com maiorias absolutas, mas delas estão longe. Gostavam de se ver livres dos
seus prováveis aliados, mas não podem dispensá-los. PCP, Bloco, CDS, PAN, IL e
Chega querem absolutamente tornar-se indispensáveis. Sabem que, se falharem
estas, não haverá tão cedo novas oportunidades.
As batalhas e as intrigas pela sucessão estão abertas e
são visíveis em todos os principais partidos. É bem provável que, dentro de
três anos, nenhum dos actuais líderes se mantenha em exercício. O que nunca se
faz sem sangue
Todos esperam
pelas autárquicas (o que nem sempre é uma boa medida) para ajustar contas
internas nos partidos. Em todos, às abertas ou discretamente, prepara-se a
substituição ou a sucessão de líderes. Nenhum escapa, PS, PSD, CDS, Bloco e
PCP. As batalhas e as intrigas pela sucessão estão abertas e são visíveis em
todos os principais partidos. É bem provável que, dentro de três anos, nenhum
dos actuais líderes se mantenha em exercício. O que nunca se faz sem sangue: as
lutas internas têm sempre causas e consequências cá fora.
São notórias as
dificuldades em manter a ordem pública. Uma evidente incapacidade revelou-se em
Odemira, como se vê no futebol e noutras manifestações. Parece que a ordem
pública só se mantém e é garantida quando está protegida por organizações civis
ou quando uma entidade privada decide mantê-la, como se tem visto. A
tranquilidade e a segurança parecem mais dependentes da Igreja católica, do PCP
e da CGTP do que das autoridades.
Algumas das mais
importantes funções de Estado ou de soberania estão em crise aberta. A Justiça,
já se sabia. Agora, de modo inesperado, o governo abriu um profundo e inútil
diferendo com parte importante das Forças Armadas, que já sofriam há muito de
insuficientes recursos humanos e financeiros. A declaração pública assinada por
quase todos os mais importantes e prestigiados chefes militares das ultimas
décadas, a começar pelo Presidente Ramalho Eanes, ele próprio antigo CEMGFA e
CEME, é de uma gravidade extrema, pelo que é assustador o silêncio do
Parlamento, do governo e dos partidos. Espera-se todavia que o Comandante
Supremo das Forças Armadas, o Presidente da República, se exprima com
brevidade, até porque tem de se definir perante os diplomas legais que lhe vão
chegar às mãos.
Há dinheiro.
Muito dinheiro. Para quem o apanhar. Para quem estiver no poder, no governo ou
na autarquia. Dos antigos fundos europeus, sobram milhões não utilizados. Dos
novos, que estão quase a chegar, esperam-se milhares de milhões. O seu gasto
não depende de privados, nem de empresas, depende exclusivamente das
autoridades, do governo e dos autarcas. Haver dinheiro pode ser tão perigoso
quanto a sua falta. Os apetites vão agudizar os nervos e as energias.
Há falta de
dinheiro. Muita. As empresas que sobrevivem estão exaustas. Os trabalhadores e
empregados dos sectores privados estão inquietos e empobrecidos. Os possíveis
investidores nacionais não querem arriscar. Os grupos internacionais não estão
por enquanto interessados. As famílias não têm para poupar, muitas delas aliás
nem sequer para chegar ao fim do mês. Se a vida económica recomeçar ainda em
2021, vão ser necessários anos de esforço para recuperar, relançar o turismo,
elaborar projectos, atrair investimentos, criar emprego, poupar, refazer o
sistema educativo e reorganizar os serviços de saúde actualmente exaustos e
endividados. Vão ser precisos anos para recompor os sentimentos, a esperança e
até as famílias.
A sociedade e a
economia estão dependentes de recursos financeiros anormais e excepcionais. Que
não dependem do curso regular das actividades económicas. Dependem, isso sim,
das decisões políticas, da importância de cada um, do poder negocial, da força
das convicções, da capacidade de persuasão e do interesse clientelar. Como é
sabido, à vista das últimas décadas, Portugal não tem revelado aptidão e
experiência para tratar com honestidade a decisão política, económica e
financeira.
Não fora a
formidável capacidade amortecedora do Presidente Marcelo e já estaríamos
seguramente a navegar em águas furiosas e em tempestades impossíveis. Ao
contrário de todos os seus antecessores, o Presidente percebeu desde o início
que tinha de ter uma aliança forte e durável com o governo e a maioria
parlamentar. O que muito tem ajudado no seu papel moderador. Mas as ambições
estão à solta. Os nervos em brasa. Reina a desconfiança. E os que já perceberam
o papel do Presidente querem agora ver-se livres dele. O que é perigoso.


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