segunda-feira, 24 de maio de 2021

Democracia




OPINIÃO

Democracia

 

A Democracia tornou-se um regime oligárquico que governa para a oligarquia que a capturou. Esta é a verdade pura e crua.

 

M. Fátima Bonifácio

24 de Maio de 2021, 0:00

https://www.publico.pt/2021/05/24/opiniao/opiniao/democracia-1963436

 

Se bem me lembro, durante muito tempo vigorou a crença de que a Democracia gerava as soluções para todos os problemas ou dificuldades que ela própria criava. Era uma espécie de regime mágico. Esta crença esfumou-se como se esfumam nuvens passageiras ao fim da tarde. Hoje em dia prevalece o receio e o cepticismo. A quantidade de escritos – artigos e livros – a expor as tremendas mazelas da Democracia contemporânea, publicados em vários países, é impressionante. Quem os leia, ou quem leia alguns deles, mergulha na depressão. Hoje em dia, a Democracia parece um carro encravado, um sistema político que não resolve os problemas concretos das sociedades e, pior do que tudo, incapaz de se reformar a si próprio de modo satisfatório. Em parte, mas uma parte menor, a insatisfação contemporânea deriva de que as exigências são imensas, de toda a ordem, e impossíveis de satisfazer. Da igualdade de género à habitação gratuita, não há nada que não se reivindique. Mas há pelo menos uma reivindicação plausível, razoável, legítima, que é a simples reivindicação de um governo decente, isto é, que assuma as suas responsabilidades, que não seja conivente com negócios obscuríssimos, cujos membros não sejam recompensados por olearem essas negociatas infames, que pensem no Bem Público antes de pensarem nos interesses dos partidos. Será pedir demais? Parece que sim. Portugal é hoje em dia uma “choldra” ou uma “piolheira”, como consta que se queixava D. Carlos, conforme os dias, nos finais da monarquia.

 

O cidadão vê ou lê as notícias e fica com a justificada sensação de que estamos num lamaçal manhosamente resguardado por uma classe política que dele aproveita. Claro que paga o justo pelo pecador, mas isso é a vida… Esse lamaçal assalta a bolsa dos contribuintes sem dó nem piedade. Ele são aos milhões para bancos e empresas fraudulentamente falidas, cujos gestores têm o descaramento de atribuírem a si mesmos prémios de gestão que nós pagamos! A própria ordem pública, como escrevia António Barreto neste fim-de-semana, parece mais dependente da Igreja Católica e dos sindicatos do que da autoridade do executivo. Nada disto impede o primeiro-ministro de proclamar que tem um ministro da Administração Interna maravilhoso e que por nada deste mundo o substituiria: Eduardo Cabrita – Cabrita! –, imagine-se, é “um pilar fundamental” do governo ! Está tudo dito.

 

Olhemos para a Assembleia da República: um órgão acometido de anemia aguda, um rebanho de ovelhas amestradas pelo governo, que é o dono da maioria. Duzentos e trinta deputados cuja utilidade não se vislumbra: são sempre os mesmos a falar. Porquê? Porque uma grande parte não tem nada na cabeça que os inspire, outros porque não são convenientemente alinhados e são, por isso, silenciados. Esta censura – que de censura se trata – é comum a todos os partidos. Este é o ponto mais grave: os partidos instauraram um sistema de “disciplina” interna que coarcta qualquer veleidade de uma opinião própria. Tornaram-se há muito blocos monolíticos sujeitos à ditadura do leader, protegido e acolitado pela sua guarda pretoriana. São agrupamentos de gente que ou é ou aceita fingir-se acéfala, para agradar ao chefe e não ser ostracizada. São também agências de emprego, antros de nepotismo, algares de cumplicidades inconfessáveis.

 

Quem acredita ainda que a Democracia é “o governo do povo pelo povo” (e para o povo)? Alguns ingénuos, possivelmente. A Democracia tornou-se um regime oligárquico que governa para a oligarquia que a capturou. Esta é a verdade pura e crua. Erra quem pensa que o mal está nos eleitores, que fariam escolhas erradas. Os eleitores escolhem em função da oferta que se lhes apresenta, e essa oferta é muito pobre e piora de geração em geração. Os eleitores, coitados, têm de escolher entre o que os partidos lhes oferecem. E oferecem-lhes o mérito, o patriotismo, a honestidade e a decência? Não. Oferecem-lhes a mediocridade (técnica e política), a subserviência, a falta de escrúpulos, o seguidismo acrítico, e tantas vezes – demasiadas vezes – a ganância pessoal. Grande parte deste seguidismo, ou da facilidade com que os estados-maiores dos partidos o conquistam, tem razões sociológicas. Um professor liceal que vive há anos no absoluto anonimato de uma terra de província, ainda por cima mal pago, acha-se, quando se vê sentado em São Bento com um ordenado duplicado, como César depois de ter passado o Rubicão. Atingiu a Glória, e por nada deste mundo quer voltar ao apagado e vil viver de quando ensinava geografia aos alunos de Freixo de Espada à Cinta: aprovará o quer que lhe mandem pensar. Tanto basta para que se mantenha fiel e cordato.

 

Terá chegado a altura de pensar uma alternativa à Democracia? Chegou sem dúvida, mas essa alternativa não existe sequer teoricamente. Qual seria o desenho de um regime que nos desse Liberdade, um Estado de Direito e um Estado Social?

 

 

Não vejo como se possa sair deste círculo vicioso: votamos obrigatoriamente nos nossos algozes. Isto tanto vale para a esquerda como para a direita: a natureza e o funcionamento dos partidos são iguais, mesmo que as ideologias divirjam. É caso para perguntar: “Que fazer”? Infelizmente, não me parece que exista solução. A Democracia não é capaz de vencer os seus próprios demónios. Nos tempos que correm, corrompe os homens que a dirigem – ou são os homens que a corrompem a ela?! – e acabou a fazer da classe dirigente uma trama inextricável de cumplicidades que impedem em absoluto a sua regeneração, o que talvez devesse começar pelo apuramento da verdade e cobrar responsabilidades. Terá chegado a altura de pensar uma alternativa à Democracia? Chegou sem dúvida, mas essa alternativa não existe sequer teoricamente. Qual seria o desenho de um regime que nos desse Liberdade, um Estado de Direito e um Estado Social? Não faço ideia. Ilude-se quem pensa que a regeneração da Democracia depende da bondade dos homens. No estado a que chegámos, é o sistema que está doente e esgotado. A lamentável impotência da Justiça talvez seja a sua nódoa mais negra e o mais alarmante sintoma da degenerescência.

 

No século XVIII, o Iluminismo forneceu as ideias que permitiram opor ao absolutismo monárquico um regime constitucional, liberal e democrático. Essas ideias cristalizaram como um horizonte de possibilidades alternativas. Nós não temos nada disso.

 

Historiadora

 


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