OPINIÃO
Em solidariedade com um jornalista racista da Lusa
O cinismo da chamada “linguagem inclusiva” é
desesperante. Preferindo o invólucro à substância, os formalismos aos
conteúdos, o “faz de conta” ao real, os algozes da nova Inquisição fanatizam-se
nos entusiasmos contagiantes do que julgam ser moderno e progressista, não
vislumbrando o quanto se tornaram fanáticos e desumanos. Passarão de moda, como
a História ensina.
Rogério Bueno de
Matos
19 de Maio de
2021, 0:30
https://www.publico.pt/2021/05/19/opiniao/opiniao/solidariedade-jornalista-racista-lusa-1962977
Um dia um
jornalista foi a uma conferência de imprensa onde foi anunciada a composição de
uma comissão parlamentar. Como não tivesse entendido o orador sobre o nome de
uma determinada deputada, escreveu nos seus apontamentos: “preta”. Era uma
mnemónica para posteriormente procurar o nome da deputada. Se fosse loira teria
escrito “loira”. Se fosse oriental, talvez “chinesa”. Se não tivesse uma mão, possivelmente
"maneta”. Se fosse gaga, certamente "gaga”. Como era preta, escreveu
"preta”.
Por um daqueles
azares caídos dos céus, com a pressa e o stress, esqueceu-se de apagar a
referência “preta” e a peça foi assim para o ar. Referência que passou pelo crivo
do editor (não há desculpa, mas a gritante falta de meios é desculpa) e que foi
assim publicada em, pelo menos, dois jornais nacionais de referência. Estava
montado o “circo”...
Aqui d'el-rei!
Racismo, racismo, racismo! Partidos exigiram: "morte” ao prevaricador!
Movimentos organizados, redes sociais, abaixo assinados: horror, crime de ódio.
Faça-se justiça: culpado, culpado, culpado! As turbas atacam em matilha.
O editor (com
mais de 30 anos de jornalismo imaculado) demitiu-se. Ao jornalista (que até é
de esquerda, mas que – outro azar – cobria profissionalmente o Chega) foi-lhe
movido um inquérito com vista a uma sanção disciplinar. Ambos têm as vidas
estragadas.
Sempre me
perguntei: por que é que eu posso dizer “a loira do quinto andar" mas é-me
proibido dizer “o preto” do sexto? Por que é que tenho que dizer “cidadão de
origem africana”, mesmo que seja um preto filho de três gerações em Portugal?
Por que é que, dizendo “cidadão de origem africana”, sou menos racista do que
se disser naturalmente “preto"?
O cinismo da
chamada "linguagem inclusiva" é desesperante. Preferindo o invólucro
à substância, os formalismos aos conteúdos, o “faz de conta” ao real, os
algozes da nova Inquisição fanatizam-se nos entusiasmos contagiantes do que
julgam ser moderno e progressista, não vislumbrando o quanto se tornaram
fanáticos e desumanos. E injustos!
Passarão de moda,
como a História ensina. Do macarthismo anti-comunista norte-americano à
propaganda anti-semita da Alemanha nazi, passando pelas muitas multidões
enlouquecidas autoras de crimes de que os indivíduos participantes depois se
envergonham e tentam esconder, o Mundo é e sempre foi assim. E ainda há quem
fale das claques do futebol...
Estes novos
polícias do pensamento, que nem o chegam a ser porque o pensamento não é
policiável, têm, no entanto, nos nossos dias, um instrumento aliado poderoso,
as redes sociais digitais. Funcionando em network e permitindo o “anonimato” de
consciência (que, neste caso, quer dizer, desresponsabilizando os actos
próprios diluídos na amálgama da multidão digital), os novos meios de
comunicação electrónica potenciam as fúrias populistas justiceiras ao estilo
dos autos de fé medievais.
Isto faz-se – está a fazer-se – todos os dias na
Internet. Nomeadamente nos EUA, país de grandes feitos humanos mas também de
clamorosos erros e exageros. Sem julgamentos, sem contraditório, à mercê dos
caprichos dos fanatizados. A ditadura implacável do politicamente correcto...
Autos de fé que
hoje em dia se chama “cultura de cancelamento” (cancel culture), actividade
cobarde que consiste em, de forma persistente e organizada, escolher uma vítima
(que não alinhe pelo “politicamente correcto” e, desta forma, mereça ser
liquidada) e cercá-la, com campanhas de difamação e destruição, até que ela
morra socialmente e fique com a vida, profissional e pessoal, estragada. Sim,
tal como uma ofensiva de vírus que acaba por matar o doente.
Isto faz-se –
está a fazer-se – todos os dias na Internet. Nomeadamente nos EUA, país de
grandes feitos humanos mas também de clamorosos erros e exageros. Sem
julgamentos, sem contraditório, sem imparcialidade, à mercê dos caprichos dos
fanatizados. A ditadura implacável do politicamente correcto...
Tem apenas um
senão: a Internet regista nomes e acções. Para memória futura. De si e dos seus
descendentes.
A História os julgará!


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