quarta-feira, 19 de maio de 2021

António Costa visita obra atrasada, mal desenhada e mal explicada

 


COMBOIOS

António Costa visita obra atrasada, mal desenhada e mal explicada

 

A linha Évora – Elvas foi anunciada como um investimento para mercadorias, mas está preparada para velocidades de 250 km/h e o Governo já admitiu que nela passará o TGV para Madrid.

 

Carlos Cipriano

19 de Maio de 2021, 7:00

https://www.publico.pt/2021/05/19/economia/noticia/antonio-costa-visita-obra-atrasada-mal-desenhada-mal-explicada-1963088?fbclid=IwAR1lMBLYjYNK1QX-9ZP3o4kwzhvZ4lHXn_PBXvcZp1arrE2MhwSG4xC4jE0

 

É uma obra atrasada, mal desenhada e mal explicada. Mas é a maior obra ferroviária dos últimos 100 anos e merece, por isso, a visita do primeiro-ministro, apesar de já ter tido três cerimónias de lançamento em 5 de Março de 2018, em 11 de Fevereiro e em Novembro de 2019.

 

Trata-se da construção de uma linha de via única, electrificada, entre a actual estação de Évora e a fronteira do Caia, numa extensão de 90 quilómetros, dos quais 70 estão preparados para velocidades de 250 km/h. O investimento é de 480 milhões de euros.

 

Obra atrasada

É uma obra atrasada porque já deveria estar concluída em Setembro de 2019. O plano de investimentos Ferrovia 2020 previa que as obras decorressem entre o primeiro trimestre de 2018 e o terceiro trimestre de 2019, reservando-se os últimos meses desse ano para testes e o início da operação para Janeiro de 2020.

 

Um relatório da Autoridade da Mobilidade e dos Transportes sobre a monitorização do investimento ferroviário, refere que “neste corredor verificam-se atrasos acentuados em todos os troços de linha que se estimava, em Fevereiro de 2020, variarem entre dois anos e três meses e seis anos e três meses. A taxa de execução desta obra era, em Dezembro de 2019, de apenas 8,6%.

 

Mal desenhada

É uma obra mal desenhada porque resultou de uma revisão em baixa entre aquilo que era para ser um troço da linha de alta velocidade Lisboa – Madrid e passou a ser um troço da linha Sines – Badajoz para mercadorias. Entre um momento e o outro muito mudou na política portuguesa: começou com o TGV de Sócrates (que chegou a adjudicar o troço Poceirão – Caia), passou pela sua adaptação a linha de mercadorias do governo de Passos Coelho, e depois pelo seu lançamento, nesse registo, no governo de António Costa.

 

Por esse motivo a linha vai passar ao largo de Elvas e segue directamente para a fronteira, ignorando a estação de passageiros. Qualquer serviço comercial entre Lisboa e Badajoz, ou não serve Elvas, ou obriga o comboio a perder entre dez a 15 minutos para ir à estação e inverter a marcha para retomar a linha principal.

 

A maior obra ferroviária dos últimos cem anos ignora também a coesão territorial e o serviço de passageiros no Alentejo. Não haverá uma estação para servir nenhum dos concelhos limítrofes de Alandroal (onde esta quarta-feira se reúne a comitiva do primeiro ministro para a visita às obras), Borba, Estremoz, Vila Viçosa e Sousel. Os mesmos concelhos da chamada Zona do Mármores que vão ter a linha de mercadorias a atravessar-lhes o território sem contemplar um terminal de mercadorias. O transporte dos mármores continuará a ser feito em camiões por não haver alternativa ferroviária.

 

Paradoxalmente, entre Évora e Elvas estão previstas três “estações técnicas” destinadas apenas ao cruzamento de comboios.

 

Mal explicada

E é uma linha mal explicada porque ficou refém do famoso tabu de António Costa que, em Fevereiro de 2018, disse ao jornal espanhol ABC que “a alta velocidade é um tema tabu na política portuguesa e vai sê-lo por muito tempo”. Daí que esta linha fosse apresentada para mercadorias, apesar de, compreensivelmente, estar parametrizada para velocidades de 250 km/h porque o seu traçado era o mesmo do vulgo “TGV de Sócrates”.

 

A apresentação do PNI-Programa Nacional de Investimentos 2030 com uma linha de alta velocidade Lisboa – Porto e seu prolongamento a Vigo, bem como as declarações do ministro das Infraestruturas, Pedro Nuno Santos, sobre a relação privilegiada entre Portugal e a Galiza, provocou algum incómodo em Madrid, o que levaria o mesmo ministro, em Janeiro deste ano, a corrigir a trajectória afirmando que “a ligação entre Lisboa e Madrid está já a ser construída, está em execução”.

 

O palco para estas declarações foi precisamente a Comissão de Transportes e Turismo do Parlamento Europeu, onde o governante acrescentou: “prevemos, até final de 2023, ter uma ligação entre Lisboa e Madrid em alta velocidade”.

 

Exagerado? Sim e não. É certo que os espanhóis já estão a chegar com uma linha de alta velocidade a Badajoz e que na linha portuguesa os comboios poderão circular a 250 km/h até Évora. Mas falta o resto, até Lisboa. Além de que uma linha de alta velocidade em via única está sempre limitada a uma baixa frequência de serviços.

 

A boa notícia é que o traçado permite a duplicação da linha e está apto para os 300 km/h, no que será um upgrade inevitável para acontecer dentro de uma ou duas décadas.

 

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