ÁGUA
Portugal “não tem estratégia para a água”, mas usa-a “à
vontadinha”
Portugal possui uma comissão para a seca que se reuniu 13
vezes em seis anos. Em plena crise climática, especialistas defendem medidas
estruturais (e não reactivas) de combate à escassez da água.
Andréia Azevedo
Soares
7 de Maio de
2023, 21:21
https://www.publico.pt/2023/05/07/azul/noticia/portugal-nao-estrategia-agua-usaa-vontadinha-2048760
Portugal possui
uma Comissão Permanente de Prevenção, Monitorização e Acompanhamento dos
Efeitos da Seca que organizou 13 reuniões em seis anos. Face à seca extrema que
o Sul do país atravessa, este grupo de decisores políticos reuniu-se há duas
semanas e reagiu anunciando medidas como a proibição de novas estufas no
Alentejo. Em tempos de crise climática, os especialistas ouvidos pelo PÚBLICO
frisam que está na hora de medidas “estruturais” – e não “reactivas” – de
combate à escassez da água.
“Comissões destas
são criadas para resolver emergências. Quando as emergências passam a ser um
novo normal, temos de fazer outra coisa, deve haver uma adaptação. Não podemos
tratar emergências anuais como se fossem emergências que acontecem a cada
década. A única certeza que temos é a de que vamos ter secas mais frequentes.
Como tal, temos de ter planos de contingência para abastecimento público, temos
de adoptar medidas estruturantes como a mudança de legislação e do preço da
água”, defende Joaquim Poças Martins, professor da Faculdade de Engenharia da
Universidade do Porto (FEUP) e especialista em gestão hídrica.
Um ano de Azul,
uma viagem pela costa
O Azul já fez um
ano e para assinalar a data escolhemos um tema especial e oferecemos uma série
de trabalhos dedicados à vida que encontramos nas cidades costeiras. O foco,
claro, está em Portugal. A viagem pela costa portuguesa começou a 22 de Abril,
Dia da Terra e data do nosso aniversário.
Queremos que nos
acompanhe nesta viagem pela costa portuguesa que será prolongada até ao dia 12
de Maio, data da conferência internacional Cidade Azul, que vai decorrer no
Porto, com entrada gratuita mediante inscrição. Nos dias 11 e 12 de Maio,
iremos estar no Pavilhão Rosa Mota para debater as cidades e o desafio da
sustentabilidade ambiental, numa conferência internacional que junta
cientistas, governantes e cidadãos preocupados em garantir o seu futuro.
Francisco
Ferreira, dirigente da associação ambientalista Zero, também defende “mudanças
estruturais” que permitam ao país gerir estrategicamente a água. “Não devíamos
ter comissões, devíamos ter um plano eficiente para uso da água. Caso
contrário, temos estas comissões ad aeternum”, diz o professor do Departamento
de Ciências e Engenharia do Ambiente da Faculdade de Ciências e Tecnologia da
Universidade Nova de Lisboa.
O presidente da
Zero recorda que, no século XXI, em plena crise climática, Portugal “não tem
uma estratégia para a água”. “Tínhamos um plano [o Programa Nacional para o Uso
Eficiente da Água (PNUEA)] que deveria estar em vigor entre 2012 e 2020, mas
que foi abandonado a partir de 2015. Desde então, estamos um pouco a funcionar
em função das necessidades, sem estratégia”, lamenta Francisco Ferreira numa
conversa telefónica com o PÚBLICO.
Não devíamos ter comissões, devíamos ter um plano
eficiente para uso da água. Caso contrário, temos estas comissões ad aeternum.
Francisco Ferreira, dirigente da associação ambientalista
Zero e professor do Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da
Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade Nova de Lisboa
A Resolução do
Conselho de Ministros n.º 80/2017, que prevê a criação da comissão, estipula
que uma das funções do grupo de trabalho é precisamente a promoção da
“implementação das medidas preconizadas pelo Programa para o Uso Eficiente da
Água [PNUEA] que podem ser executadas de imediato e preparar as medidas a
adoptar a médio e longo prazo, numa perspectiva de preparação para uma maior
resiliência a eventos de seca”.
Contudo, como
pode uma comissão zelar pela implantação de medidas de um documento que nem
sequer está actualizado? O PNUEA disponível hoje estipula limites para o
desperdício de água para cada sector especificamente para o período 2012-2020.
Além de desactualizado, o programa criado em 2005 não pôde ainda ser avaliado
quanto à sua eficácia. Os resultados oficiais deste programa de combate ao
desperdício de água nunca chegaram a ser tornados públicos, continuando
inexplicavelmente na gaveta, segundo o jornal Eco.
“É chegado o
momento de aplicar, sem hesitações, as medidas previstas no PNUEA, cuja
actualização, do seu Plano de Implementação 2012-2020, nunca foi colocada em
prática”, recordava Rui Godinho, presidente do conselho directivo da Associação
Portuguesa de Distribuição e Drenagem de Águas, num artigo de opinião publicado
em 2022.
Medidas reactivas
ou estruturais?
A comissão da
seca existe desde o dia 7 de Junho de 2017, um ano que foi marcado por uma seca
“gravíssima”. Ficou óbvio então que eventos climáticos extremos seriam cada vez
mais intensos e frequentes devido à mudança do clima e que, por isso, seria necessária
a existência de uma comissão de carácter “permanente” que não tivesse uma
função meramente “reactiva”. Esta comissão é constituída por membros do Governo
responsáveis por diferentes áreas, incluindo o ambiente, a agricultura, as
florestas e o desenvolvimento rural, além de várias outras entidades, consoante
a gravidade da situação.
“A incerteza e
imprevisibilidade da seca e dos seus impactos justificam que se dedique uma
atenção permanente a este fenómeno e não apenas uma actuação reactiva a situações
extremas”, lê-se no texto da resolução n.º 80/2017 publicada em Diário da
República.
A geógrafa Maria
José Roxo, professora da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da
Universidade Nova de Lisboa, acredita que, nos últimos anos, os decisores
políticos limitaram-se a reagir. “Não podemos estar sistematicamente a reagir.
Precisamos de uma estratégia. Choca-me ter este tipo de comissões e depois não
ver nada no terreno. Sou uma geógrafa de campo, isto custa-me muito”, confessa
a investigadora numa conversa telefónica com o PÚBLICO.
Não podemos estar sistematicamente a reagir. Precisamos
de uma estratégia. Choca-me ter este tipo de comissões e depois não ver nada no
terreno.
Maria José Roxo, geógrafa e professora da Faculdade de
Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa
A mais recente
reunião da comissão para a seca realizou-se no dia 21 de Abril, tendo sido o
primeiro encontro de 2023. Após o encontro, os ministérios do Ambiente e da
Agricultura anunciaram a manutenção de medidas para poupar água, anunciando
outras como suspensão de novas estufas no Sudoeste alentejano e a interdição do
uso da água para a rega nalguns pontos do país onde há défice hídrico.
São medidas que
respondem à seca prolongada que o Sul do país testemunha? “É óbvio que não são
medidas suficientes”, avalia Maria José Roxo. Para a geógrafa, esta questão da
água “tem de ser um assunto contínuo”. “Aquilo que conhecemos do ponto de vista
científico é que isto constitui uma realidade para continuar. Não se podem
interromper as campanhas [de sensibilização], temos de melhorar as
infra-estruturas de regadio, combater os desperdícios nas redes. Não podemos
estar sempre a reagir”, reforça.
Joaquim Poças
Martins, por sua vez, recorda que, como estamos diante de um fenómeno global de
mudança do clima, temos de nos “preparar para um novo normal”. E o que é essa
nova normalidade? “São períodos de seca que se arrastam, um ano seco depois de
outro. Praticamente estamos desde 2017 a enfrentar a seca”, diz o especialista
em gestão hídrica, para quem uma comissão dedicada à seca acabaria por ser “um
trabalho a tempo inteiro”. “Quase até poderíamos criar o Ministério da Seca”,
refere o docente da FEUP.
Os dados do mais
recente Relatório de Monitorização Agro-meteorológica e Hidrológica, feito pelo
grupo de trabalho que presta assessoria técnica à comissão, sublinham “casos
críticos no país”, como a barragem de Bravura (Aproveitamento Hidroagrícola do
Alvor) e do Arade (Aproveitamento Hidroagrícola de Silves, Lagoa e Portimão).
Na primeira, as reservas de águas estão destinadas “exclusivamente para
abastecimento público”, o que compromete “irremediavelmente” o sector agrícola.
Já no Arade, é compulsória a adopção do plano de contingência para situações de
seca.
Que caminhos a
seguir?
Não fazendo o
elogio de medidas reactivas, que estratégias preconizam então os especialistas?
Poças Martins explica que as soluções precisam de ser estudadas, e também que é
preciso ver como outros países gerem a pouca água que têm. Há exemplos de
nações mais prósperas do que Portugal, mas com menos recursos hidrológicos,
garante o especialista. O segredo está na gestão da água: adopção de sistemas
de rega gota a gota, por exemplo, ou a introdução de taxas moderadoras de
consumo.
“Vejamos o caso
de Israel: é um país mais seco do que o nosso, mas que não está a sofrer com
falta de água. E os agricultores em Israel ganham mais dinheiro do que os
portugueses. Não foi sempre assim. Nos anos 90, na sequência de problemas
graves, adoptaram uma série de políticas públicas, incluindo a nacionalização
da água. A água em Israel pertence ao Estado – quem capta a água tem de medir
[o consumo] e pagar. Em Portugal, [água para a agricultura] quase não se mede
nem se paga”, explica Joaquim Poças Martins.
O especialista em gestão hídrica refere que
usamos a água subterrânea “à vontadinha” – e que, em bom rigor, não devia ser
assim, deveriam ter uma licença, “mas a maioria não tem e, mesmo com licença,
não paga”. Como a água para fins agrícolas em Portugal é “quase de graça”,
argumenta Poças Martins, os agricultores não têm incentivos para poupar água. É
na agricultura que temos de prestar atenção quando falamos de recursos
hídricos, pois é também no sector onde se verifica uma gigantesca fatia do
consumo.
“A água dos poços
aqui custa zero e lá 60 cêntimos por metro cúbico. Israel reutiliza toda a água
residual e paga ainda 30 cêntimos o metro cúbico. Em Portugal, a reutilização
de água residual é quase zero porque o agricultor tem água no poço.
Desperdiçamos um volume de águas residuais, distribuído ao longo do país, que
equivale a uma barragem inteira do Alqueva. Isto permitiria ter muito menos
escassez, mas não estamos a usar – são recursos que vão parar ao mar”, lamenta
Poças Martins.
Barragens cheias
de sedimentos
A água que
desperdiçamos todos os dias também desespera Maria José Roxo. A geógrafa não
compreende como os decisores não aproveitaram o período de seca para remover os
sedimentos das albufeiras, permitindo assim que as barragens armazenassem uma
maior quantidade da água que caiu do céu no fim de 2022 e no início de 2023.
“A preservação da
água tem muito a ver com a preservação do recurso solo. Preciso de solo para
ter água potável e preciso de ter cobertura do solo para ter boa água nas barragens.
O que aconteceu com as grandes chuvadas de Dezembro, e do início de Janeiro,
foram águas que levaram toneladas de sedimentos para as barragens,
colmatando-as. Estas barragens deveriam ter sido limpas. Perdemos uma
oportunidade única de remover estes sedimentos. Essa água toda foi
desperdiçada”, afirma Maria José Roxo.
Outro caminho que
os especialistas consideram premente é o que passa por repensar as culturas que
queremos ter no país e, fazendo contas, definir os grandes investimentos em que
queremos apostar. Desejamos mais barragens? Queremos construir unidades de
dessalinização? Para servir quais culturas? E a que custo ambiental? Tudo isso
tem de ser ponderado em função de uma aposta estratégica.
São períodos de seca que se arrastam, um ano seco depois
de outro. Praticamente estamos desde 2017 a enfrentar a seca (...) Quase até
poderíamos criar o Ministério da Seca.
Joaquim Poças Martins, professor da Faculdade de
Engenharia da Universidade do Porto (FEUP) e especialista em gestão hídrica
“Sabemos quais
são as nossas prioridades, mas temos de planificar os investimentos. Se eu for
para uma determinada cultura que consome demasiada água, tenho de pensar se
compensa o investimento no regadio, por exemplo – há um limite para a
subsidiação. Precisamos não só de sentar e analisar o custo e o benefício em
relação às opções tomadas, mas também apostar fortemente numa maior eficiência
hídrica”, alerta Francisco Ferreira.
Para o
ambientalista, a construção de unidades de dessalinização – como a que foi
anunciada para o litoral alentejano – deve ser vista como “um investimento de
último recurso”. Já Poças Martins pensa que a criação de novas barragens –
hipótese admitida pela tutela do ambiente e da acção climática – deve ser
encarada com igual cautela, seja pelo custo, seja pelo impacto ambiental.
“Portugal tem de
pensar na agricultura que tem e na que quer, pensar se quer continuar a
cultivar o que tem cultivado, como tem cultivado. Há agricultores que pedem
mais barragens, ou que se traga água do Norte para o Sul, do ponto de vista
económico e ambiental não funciona. Não faz qualquer sentido fazer um transvase
do Norte para o Sul [a chamada auto-estrada da água], no meu ponto de vista.
Quanto às barragens, é preciso ver quem as paga. Já temos bastantes barragens.
Acho mais sensato primeiro usar bem a água que temos e depois pensar como
conseguimos mais”, conclui o professor da Faculdade de Engenharia do Porto.

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