SECA
“O rio Sado está morto, sem água e não a temos para dar
aos animais”
Em 2023, a seca chegou mais cedo e os seus efeitos
antecipam um cenário dramático para os próximos meses, com falta de água e
alimentos para os animais. Pastos, pastagens e searas secaram.
Carlos Dias
29 de Abril de
2023, 20:47
https://www.publico.pt/2023/04/29/azul/noticia/rio-sado-morto-agua-nao-dar-animais-2047926
Orio Sado está
seco desde a nascente até à barragem de Monte da Rocha. O Sudoeste peninsular
está a ser flagelado por ondas de calor intensas e duradouras intercaladas com
intensa precipitação atmosférica. “Estamos a entrar num território
desconhecido", enfatiza o programa europeu Copernicus, que alerta para
"mudanças alarmantes" no clima.
“Vamos ter uma
Ovibeja com um senão: seca e muito quente”, avisou Rui Garrido, presidente da
Associação de Criadores de Ovinos do Sul (ACOS), durante a sua intervenção na
cerimónia inaugural da 39.ª Feira do Alentejo – Ovibeja, na última
quinta-feira. Não é um fenómeno pontual e muito menos localizado.
Não há registo de
“fenómenos extremos tão frequentes” como os que estão a ocorrer ao longo da
última década e na actualidade. Até o montado de sobro e azinho, espécies
autóctones que sempre resistiram durante séculos e séculos aos maus humores
naturais, “estão em declínio acentuado”, assinala o presidente da ACOS, dando
conta do que se passa no tempo presente: “Pastos e searas secaram e palhas e
fenos praticamente não existem. Os efectivos pecuários reduzem-se”.
E para que não
restem dúvidas sobre o que está a acontecer no Sul do país, diz que aquilo que
a agricultura e a pecuária estão a suportar é muito mais grave do que o ano
passado. “Direi mesmo: estamos perante uma situação calamitosa”, vinca num tom
de voz que não deixa dúvidas sobre a dimensão do drama.
“Estamos em Abril, amigo”
No espaço da
feira, as pessoas circulam com dificuldade em suportar a elevada temperatura
ambiente. E até os animais (bovinos, ovinos, caprinos e suínos) em exposição no
certame mantinham um estranho silêncio, como se nada houvesse no interior do
pavilhão que os acolhe. O suor corria pelo rosto das pessoas. O número de
visitantes da feira que traziam consigo uma garrafa de água é revelador do
efeito térmico. As sombras eram disputadas e os abanicos não conseguiam
transmitir uma sensação de frescura possível.
A seca que se
associa aos campos do Sul e caleja os alentejanos desconforta como não há
memória. “Estamos em Abril, amigo”, lembra ao PÚBLICO Custódio Guerreiro, de 79
anos, natural e residente em Santiago do Cacém. “A falta de água no campo está
a colocar em risco a vida das comunidades, a conservação do que agora dizem ser
os ecossistemas, as paisagens”, e a pecuária extensiva que lhe garante o
sustento “está a morrer” enquanto a seca se torna crónica. E, num desabafo,
expressa o seu desalento: “Aquilo que deu sentido à minha vida acabou”.
Ilídio Martins,
dirigente da Associação de Regantes de Campilhas e Alto Sado, com uma visão
mais abrangente do problema na região que mais está a sofrer os efeitos da
falta de água, relata ao PÚBLICO a dimensão do desastre. “O rio Sado está
morto, sem água e não a temos para dar aos animais” entre a sua nascente e a
barragem de Monte da Rocha.
Esta é uma das
três reservas de água a nível nacional (as outras são Campilhas e Bravura) que
se mantiveram no vermelho quando as violentas bátegas de água percorreram o
país entre Dezembro e Janeiro passados. “Das três barragens que temos no nosso
sistema de rega, duas estão sem água (Campilhas e Monte da Rocha)",
reforça António Raposo.
Espécies autóctones que sempre resistiram durante séculos
e séculos aos maus humores naturais, “estão em declínio acentuado”
O recurso está
nos pegos [pequenas poças de água no leito do rio] e “por enquanto”. Também ele
chama a atenção para o facto de a escassez de alimento e água para os animais
estar a acontecer em Abril.
Uma “década de seca continuada, e não um ano isolado”
No mesmo espaço
geográfico, mas em Mértola, João Madeira, produtor pecuário, admitiu ao
PÚBLICO: “Pelas minhas contas, cerca de 40% das charcas, nesta altura do ano,
não se reconstituíram. E com os calores de Abril a questão da evapotranspiração
é muito relevante”. Leva a água que resta. E muito antes do que aconteceu em
anos anteriores, “temos problemas graves com a água e a comida para os
animais”.
Associada às más
condições climáticas surge um outro problema: as rações para a manutenção de
pequenos ruminantes e bovinos “subiram 71% nos últimos três anos, o que tem um
efeito multiplicador na actividade pecuária”, destaca João Madeira, frisando
que o Sul do país está a suportar uma “década de seca continuada, e não um ano
isolado”, o que faz com que estejamos “a lidar com um passivo acumulado que
deixou a região de Mértola no osso”.
A realidade
social e económica no sequeiro revela contornos que muitos consideram quase
impossíveis de superar, a ponto de considerarem que num futuro próximo a
pecuária extensiva irá desaparecer. Mas o regadio também está a viver uma
situação invulgar. José Pedro Salema, presidente do conselho de administração
da Empresa de Desenvolvimento e Infra-Estruturas de Alqueva (EDIA), revelou ao
PÚBLICO que estão a colocar mais de um milhão de metros cúbicos de água por dia
no sistema de rega. “É um volume enormíssimo que, em anos normais, seria
debitado em Junho.”
A Federação das Associações de Agricultores do Baixo
Alentejo (FAABA) já alertou a ministra da Agricultura e Alimentação, Maria do
Céu Antunes, para a realidade que se vive em 85% do território alentejano: “Não
haverá nem pastagens, nem forragens, nem cereais, nem azeitona, nem cortiça”.
Tornou-se
recorrente quando se debatem os problemas associados à seca uma conclusão
óbvia: “Precisamos de uma abordagem de emergência e de uma estratégia para o
sector que terá inevitavelmente de passar pelo diálogo, que não temos tido”,
sintetiza João Madeira.
A Federação das
Associações de Agricultores do Baixo Alentejo (FAABA) já alertou a ministra da
Agricultura e Alimentação, Maria do Céu Antunes, para a realidade que se vive
em 85% do território alentejano: “Não haverá nem pastagens, nem forragens, nem
cereais, nem azeitona, nem cortiça”.
Está em causa a
“sustentabilidade deste mundo rural interior “, devido à seca, assinala a
organização representativa dos agricultores, que apela ao “reconhecimento
formal da situação de seca em toda a região, permitindo, assim, o acesso aos
instrumentos previstos, sobretudo no Plano Estratégico da Política Agrícola
Comum (PEPAC).
A Federação defende ainda a aplicação de “apoios em sede fiscal como forma de reduzir impostos, nomeadamente a suspensão das contribuições à Segurança Social, com o objectivo da manutenção dos postos de trabalho", sublinha-se na carta enviada à ministra da



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