domingo, 28 de agosto de 2022

Vidas seguintes entre Portugal, o Médio Oriente e a África Oriental / Advogados dormem à porta das conservatórias para entregar processos de descendentes de sefarditas / Conservatórias recebem três mil pedidos de naturalização de descendentes de judeus sefarditas por dia /

 


 TESTEMUNHO

Vidas seguintes entre Portugal, o Médio Oriente e a África Oriental

 

Investigador luso-israelita no Iscte relata, na primeira pessoa, como conseguiu obter a cidadania portuguesa ao abrigo da lei dos judeus sefarditas

 

Yonatan N. Gez

27 de Agosto de 2022, 22:00

https://www.publico.pt/2022/08/27/ciencia/noticia/vidas-seguintes-portugal-medio-oriente-africa-oriental-2018147

 

No mês de Maio de 2020, desloquei-me até ao consulado português em Estugarda, na Alemanha, para fazer um pedido de atribuição de um cartão de cidadão. Nervoso mas animado, tinha comigo o meu passaporte israelita, o meu “Anmeldung” (atestado de residência na Alemanha), e 23 euros. Por precaução, trazia também o meu certificado de nascimento da República Portuguesa, assinado pela Conservatória dos Registos Centrais de Lisboa. Pensei no simbolismo de me ser entregue uma cidadania com base num documento de nascimento, mas achei engraçado ter recebido esse documento oficial de um país que só visitei pela primeira vez nos meus 30 anos de idade.

 

Ao entrar no consulado, interroguei-me sobre a língua em que me devia exprimir. Embora já estudasse português há uma década, foi sempre a tempo parcial, no contexto da minha investigação académica, como antropólogo e africanista. Desconhecedor da etiqueta oficial, receava abusar da paciência e disponibilidade dos funcionários do consulado. Imaginei que, se me apresentasse usando o meu português limitado, seria imediatamente tomado como impostor e exposto ao escárnio escondido dos meus novos compatriotas, que iriam comentar entre si: “Olha, mais um caso de cidadania imerecida, provavelmente graças a um visto gold. Para onde vai o país?” Afinal, os funcionários do consulado mostraram-se serenos enquanto eu tropeçava e gaguejava no pedido do cartão de cidadão numa mistura de português, alemão, gestos de mão, e muito inglês.

 

Algumas semanas depois, regressei ao consulado para levantar o meu cartão de cidadão. Sorridente e orgulhoso, saí do consulado para celebrar a minha nova nacionalidade com uma amiga alemã que morava perto. A minha amiga trouxe presentes: uma garrafa de cerveja artesanal alemã chamada “Lissabon” e um postal com um retrato kitsch de um músico tocando guitarra portuguesa para a sua admiradora – na altura, não sabia que se tratava da célebre Severa, nem conhecia a obra de José Malhoa, o autor do quadro. A minha amiga sabia o que significava para mim obter aquele documento. Durante anos, seguiu as minhas desventuras com os vistos de estudo e as autorizações de trabalho para não-europeus. Tinha várias vezes testemunhado o meu desconforto em círculos sociais, quando a primeira pergunta na boca de todos é “de onde é?”. Nesses momentos, tentava sempre desviar a conversa ou resmungar uma proclamação patética sobre ser um cidadão do mundo. Enquanto brindávamos, não me pude deixar de me surpreender com a facilidade com que tinha obtido o documento, e com a estranheza do conceito de “cidadão”. É uma coisa tão profunda e visceral na definição da nossa identidade, mas é simultaneamente um ato burocrático, um procedimento, uma linha num banco de dados, um cartão padrão. É necessário uma vida inteira de socialização para dominar uma coisa tão binária que parece superficial: ontem era estrangeiro, amanhã será um de nós. Não obstante a minha enorme alegria e alívio, a entrega do cartão pareceu-me de certa maneira questionável. Afinal de contas, há tanta gente neste mundo que arrisca a vida ao atravessar fronteiras e mares para atingir a Europa. Onde nasci e cresci, o regresso dos palestinianos à terra que muitos ainda lembram e consideram sua continua a ser negado.

 

Dois anos antes, para preparar a minha candidatura à nacionalidade portuguesa, construí uma árvore genealógica, vasculhando todos os antigos documentos familiares que consegui encontrar. Entre eles, descobri alguns tesouros, como os documentos pessoais dos meus avós – ambos faziam parte de uma terceira geração de imigrantes judeus tunisinos na Líbia – e seus documentos de viagem, datados 1952, de Trípoli, na Líbia, para Haifa, em Israel, que me fizeram pensar na minha própria propensão para o movimento. Lembrando-me do apelido que o meu orientador de tese suíço me deu – “Yonatan, o judeu errante”, apreciei melhor o cosmopolitismo particular dos meus avós.

 

A minha avó, que, quando eu era pequeno, parecia tão afastada do meu mundo, rezava em hebraico, cantava em italiano, tinha documentos de identificação franceses e contava as suas histórias mais calorosas em árabe. As pulseiras de ouro que usou até à sua morte simbolizavam a precariedade da vida das famílias judaicas, porque os bens valiosos eram a garantia de fuga e sobrevivência. Foi particularmente perturbador ler, na última página de um documento de viagem para Israel, a nota lacónica, em inglês, em letras vermelhas maiúsculas: “NOT VALID FOR RETURN” (“não válido para regresso”). Ao ler a nota, pensei na sua incongruência face à vida dos meus avós e da sua geração, que guardavam a Líbia consigo até às suas últimas horas. Fiquei a pensar no quão erráticas são as regras que governam a pertença legítima, no quanto elas estão divorciadas do nosso sentido autêntico de nós mesmos, e como esta distância pode ser penosa.

 

Estou bem consciente de não ser o único a pensar nestes temas. Eles foram o núcleo do corpus literário de Abdulrazak Gurnah, o autor e académico de origem tanzaniana que, no ano passado, ganhou o Prémio Nobel de Literatura. Nos seus dez romances, Gurnah analisa as experiências de vida dos imigrantes que se deslocam entre a África oriental e a Europa ocidental, que tentam desembaraçar-se das estruturas coloniais no meio em que estão – e estamos – enraizados. Cada história sua evidencia a tensão entre a torrente, aparentemente inevitável, que vincula o passado com o destino e a liberdade de acção de cada personagem.

 

Esta tensão está particularmente evidente no romance imediatamente anterior à recepção do prémio, Vidas Seguintes (Afterlives, 2020), que se ocupa de questões de continuidade e de ruptura histórica e familiar. O enredo segue o desaparecimento de Ilyas, um jovem africano que se alista no exército alemão durante a Primeira Guerra Mundial, e narra o longo período de mudança, entre a anexação da África Oriental Alemã à África Oriental Britânica e a independência, primeiro enquanto Tanganica e finalmente como Tanzânia. Reflectindo a história geral do país, onde cada nova fase política substitui a última sem apagar a sua influência, também a história de uma pessoa perdida – falecida? capturada? reinstalada? – não implica um fim. Acabamos por perceber que a ausência de Ilyas se torna na sua própria presença. Precisamos de esperar algumas décadas até que um jovem bem motivado – o sobrinho de Ilyas e seu homónimo – viaje para a Europa e embarque numa missão incansável para revelar o mistério da vida do tio.

 

Neste enredo, vemos claramente as marcas da história global e do caos da guerra, mas também percebemos como a memória nos pode mover a ter um papel activo no desvendar e compreender destas histórias. Essa é a mensagem que guardo também relativamente à lei que me permitiu obter a minha cidadania portuguesa graças à minha herança sefardita. Admito que a história da expulsão da Península Ibérica há meio milénio parece muito afastada da minha vida pessoal, até quase mítica. De facto, como aprendi durante a preparação do meu pedido de cidadania, o meu conhecimento da história antiga da minha família é muito reduzido. Mas como os protagonistas dos romances de Gurnah, entendo que as vidas seguintes do passado necessitam de ajuda para reatar a cadeia da história e voltar a ligá-la com a nossa realidade aqui e agora.

 

Tenho deste então procurado um caminho próprio para participar nesta história. Alguns meses depois de me naturalizar português, beneficiei de bolsa de investigação para trabalhar no Iscte – Instituto Universitário de Lisboa. Usei a minha visita para começar a descobrir o país e suas camadas históricas, das quais encontrei vestígios em fábricas abandonadas, em sítios arqueológicos, e nas narrativas de colegas sobre as experiências das suas famílias nas antigas colónias.

 

Estas inspirações levaram-me a redigir um projecto de investigação sobre os legados de longo prazo deixados pelos projectos de desenvolvimento internacional na África oriental – Quénia, Tanzânia e Moçambique. Na candidatura ao projecto, reflecti sobre a paixão instintiva, no sector de desenvolvimento, pelo novo, e o optimismo deste relativo ao ‘progresso’ e à ‘modernidade’. Argumentei que, a par com esta ingenuidade, o que aconteceu antes é frequentemente esquecido e as suas lições tendem a ser ignoradas. Propus por isso investigar sobre as consequências de longo prazo das iniciativas de desenvolvimento através de uma mudança radical de perspectiva: em vez de seguir os planos oficiais dos projectos e seus objectivos, limitados e habitualmente impostos, propus-me estudar a multiplicidade das perspectivas locais sobre o que fica depois do fim destes.

 

Como no título do romance de Gurnah, usei o termo de ‘vidas seguintes’ (afterlives) para evidenciar as reapropriações criativas e inesperadas dos vestígios destes projectos pelos seus herdeiros locais. Com o apoio do Iscte, concorri ao programa ERC (European Research Council) da União Europeia, e como este jornal publicou, o meu projecto foi seleccionado, a par com outras quatro candidaturas em Portugal.

 

Admito que o processo de candidatura me suscitou uma experiência catártica. Se durante a minha primeira visita ao consulado em Estugarda me tinha sentido um impostor, a preparação da candidatura ao ERC foi como avançar numa batalha. Na minha imaginação, esta era uma oportunidade inescapável de me pôr à prova face à União Europeia, e reivindicar finalmente o direito à minha boa sorte.

 

Reatar cadeias de história é um processo longo e subtil, e o sucesso deste pedido de financiamento é apenas um início. Ao longo dos próximos anos, a minha equipa organizará seminários, oficinas, e exposições em Portugal e na África oriental, e irá criar ferramentas práticas para repensar as normas do sector de desenvolvimento, que ficarão disponíveis em acesso livre. Estou particularmente feliz por usar esta oportunidade para criar um diálogo entre atores de vários contextos africanos e europeus e, conjuntamente, reflectir sobre a complementaridade das nossas próprias perspectivas. Juntos iremos explorar novas avenidas para estudar vidas seguintes – oficialmente, dos vestígios de desenvolvimento internacional, mas inevitavelmente também das histórias pessoais de cada um de nós.

 

Um agradecimento a Raquel Luís Botelho Rodrigues, Marta Vidal, Ricardo Costa Agarez, Manuel João Ramos, e Amir Azmon pelos seus comentários na edição deste artigo.

 

 

JUDEUS

Conservatórias recebem três mil pedidos de naturalização de descendentes de judeus sefarditas por dia

 

Sindicato denuncia caos com processos de naturalização de descendentes de judeus sefarditas, calculando uma média diária de três mil processos. Sintap pediu reunião urgente ao secretário de Estado da Justiça, Pedro Tavares.

 

Lusa

25 de Agosto de 2022, 19:49

https://www.publico.pt/2022/08/25/sociedade/noticia/conservatorias-recebem-tres-mil-pedidos-naturalizacao-descendentes-judeus-sefarditas-dia-2018351

 

No dia 1 de Setembro entram em vigor alterações ao regime de concessão da cidadania aos descendentes de judeus sefarditas

 

As conservatórias estão a receber, em média, por dia, três mil processos de naturalização de descendentes de judeus sefarditas, uma situação que o Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública e de Entidades com Fins Públicos (Sintap) considera caótica.

 

Em comunicado enviado à Lusa, a estrutura sindical refere que “a situação nestes serviços está verdadeiramente descontrolada”, face à entrada em vigor no dia 1 de Setembro das alterações ao regime de concessão da cidadania aos descendentes de judeus sefarditas, que vieram aumentar a exigência dos requisitos necessários e que se enquadram no novo Regulamento da Nacionalidade Portuguesa.

 

“Com o aproximar da data da alteração da lei, tem-se verificado a chegada de uma verdadeira avalanche de processos para dar entrada na Conservatória dos Registos Centrais e do Arquivo Central do Porto, maioritariamente via correio, calculando-se uma média diária de três mil processos, facto que está a provocar um verdadeiro caos nos serviços”, indica a nota.

 

 

Segundo o Sintap, “os parcos recursos humanos pararam todo o serviço pendente apenas para poderem dar carimbo de entrada dos processos que chegam”.

 

A denúncia de uma “situação insustentável” nos serviços levou já o sindicato a pedir uma reunião urgente ao secretário de Estado da Justiça, Pedro Tavares, para que se tente encontrar uma solução.

 

 O sindicato assinala ainda a subdelegação de competências nestes processos de naturalização pela presidente do Instituto de Registos e Notariado (IRN), Filomena Rosa, em algumas dezenas de conservadores de registos, ao lembrar que “o poder de decisão competia exclusivamente à Secretaria de Estado da Justiça”.

 

“Esta subdelegação de competências em matéria de decisão nestes processos (...) passa a recair sobre os dois grandes pólos de nacionalidade do país, Conservatória dos Registos Centrais e Arquivo Central do Porto, e ainda sobre 24 conservadores de outras tantas conservatórias, escolhidas de norte a sul do país, que, até aqui, apenas classificavam processos desta natureza, que lhe eram remetidos, por via electrónica, pela Conservatória dos Registos Centrais e a quem era exigido o parecer, mas nunca a decisão final”, sustenta.

 

Alguns dos conservadores a quem foram subdelegadas competências nesta matéria manifestaram-se “revoltados e apreensivos com esta medida”, segundo o Sintap, que reforça ainda que estes trabalhadores expressaram a sua “incapacidade para decidir sobre processos que lhes são remetidos por via electrónica” na sequência de digitalizações externas por entidades sem competência para qualificar os documentos antes de os digitalizar.

 

Alguns processos de atribuição da nacionalidade portuguesa a descendentes de judeus sefarditas estão em investigação devido a alegadas irregularidades. A Procuradoria-Geral da República (PGR) confirmou em 19 de Janeiro a abertura de um inquérito sobre a naturalização do empresário russo Roman Abramovich ao abrigo deste regime.

 

A investigação no âmbito do processo de Roman Abramovich implicou a realização de buscas e envolve suspeitas de vários crimes, nomeadamente tráfico de influências, corrupção activa, falsificação de documento, branqueamento de capitais, fraude fiscal qualificada e associação criminosa.

 

Entre 1 de Março de 2015 e 31 de Dezembro de 2021 foram aprovados 56.685 processos de naturalização para descendentes de judeus sefarditas (que foram expulsos de Portugal por decreto régio há mais de 500 anos) num total de 137.087 pedidos que deram entrada nos serviços do IRN.

 

NACIONALIDADE

Advogados dormem à porta das conservatórias para entregar processos de descendentes de sefarditas

 

Há uma fila para utentes e outra para advogados, mas no caso destes últimos as senhas estão contadas. Para os advogados há, por dia, 15 a 17 senhas, podendo chegar às 20 se as coisas correrem bem.

 

Sónia Trigueirão

27 de Agosto de 2022, 6:20

https://www.publico.pt/2022/08/27/sociedade/noticia/advogados-dormem-porta-conservatorias-entregar-processos-descendentes-sefarditas-2018477

 

A entrada em vigor, no dia 1 de Setembro, das alterações ao regime de concessão da cidadania aos descendentes de judeus sefarditas, que vieram aumentar a exigência dos requisitos e que se enquadram no novo Regulamento da Nacionalidade Portuguesa, está a causar um verdadeiro caos nas conservatórias.

 

Os processos, segundo denunciou Sindicato dos Trabalhadores da Administração Pública e de Entidades com Fins Públicos (Sintap), chegam aos milhares por correio, numa média de três mil por dia, e não só. Há advogados a dormir, em cadeiras, à porta das conservatórias para conseguir dar entrada dos processos.

 

É o caso de Carolina Machado, advogada natural do Rio de Janeiro e a exercer em Portugal há seis anos. Há mais de 15 dias que dorme à porta da Conservatória dos Registos Centrais de Lisboa, na Rua Rodrigo da Fonseca.

 

 

Quer ser a primeira a ser atendida porque só assim garante a possibilidade - nem sempre é de facto possível - de voltar para fila e conseguir mais uma senha. É que cada advogado só pode submeter cinco processos de cada vez.

 

Há uma fila para utentes e outra para advogados, mas no caso destes últimos as senhas estão contadas. Para os advogados há, por dia, 15 a 17 senhas, podendo chegar às 20 se as coisas correrem bem. E as coisas correm bem se estiver mais do que um funcionário destinado ao atendimento dos advogados e se estes já levarem os processos devidamente organizados e com as taxas pagas. Este mês nem sempre foi possível ter mais do que um funcionário no atendimento, porque houve férias e greve dos trabalhadores dos Registos nos dias 1, 5, 8, 12, 19, 22 e 26 de Agosto.

 

Assim, num dia bom, Carolina Machado consegue submeter 10 processos. É por isso que, há mais de 15 dias, esta advogada tem uma nova rotina. Por volta das 19 horas, pega no seu trolley, numa mantinha e numa cadeira e vai para a porta da conservatória. Dorme literalmente na cadeira.

 

Por volta das seis/sete horas da manhã começa a ter a companhia de mais colegas de profissão. Também chegam pessoas para a fila dos utentes, mas para estes chegar antes da porta da conservatória abrir (abre as 9h e encerra às 16h) e ficar horas numa fila, faça chuva ou faça sol, já é habitual. Há anos que é assim.

 

Para os advogados é que não. “Numa situação normal chegamos às oito horas, às nove abrem as portas e distribuem as senhas e às 10 horas e pouco já estamos despachados”, conta Carolina Machado ao PÚBLICO, sublinhando que esta “é uma situação atípica” porque os advogados estão “numa corrida contra o tempo”.

 

“Eu preferia o conforto da minha cama, mas escolho fazer este sacrifício para prestar um bom serviço aos meus clientes. Ao fazê-lo estou a ser diligente”, afirmou, acrescentando que se enviar os processos pelo correio os clientes vão demorar meses a receber a palavra-chave que lhes permite saber o estado do processo através da internet. “Ao vir aqui pessoalmente levo já a chave de acesso”, explicou.

 

A advogada, que está a tratar dos processos de descendentes de judeus sefarditas, na sua maioria brasileiros, fez questão de sublinhar o profissionalismo dos funcionários da conservatória: “Só não fazem mais porque não podem. E o problema é óbvio. Faltam funcionários. É preciso contratar mais para tratar dos processos em tempo útil. Está em causa o direito ao exercício da cidadania. E isso só se consegue através da nacionalidade.”

 

Queixas dos moradores

Já passa das 11 horas da manhã. Na fila dos advogados estão pouco mais de dez. A segunda ronda de senhas é esperada apenas lá para as 14 horas, mas não é certo. Na fila dos utentes estão várias dezenas de pessoas. Umas de pé, outras sentadas em cadeiras de praia ou noutros bancos improvisados. Os rostos estão fechados pelo cansaço e impera um silêncio tenso.

 

Tem dias em que este silêncio é quebrado e as pessoas discutem. Há barulho que incomoda quem mora naquela rua que pertence ao Bairro do Alto do Parque e que já levou a Associação de Moradores a expressar o seu protesto numa rede social. Protestam contra o barulho, mas também contra a forma “indigna e desumana” como consideram que os utentes da conservatória são tratados, uma vez que se sentem incomodados com “os acampamentos ilícitos” que utentes e advogados montam dia e de noite no passeio há semanas.

 

A Associação de Moradores fala de falta de higiene, escreve que quem espera faz “as necessidades na rua”, deixa espalhado lixo e que há um grupo de “advogados brasileiros” que estaria a aproveitar para “vender” os seus serviços a quem não consegue ser atendido.

 

Carolina Machado sabe das críticas que considera “profundamente injustas”. Reconhece que, às vezes, há quem se exalte e discuta, mas “é esporádico”, sublinha.

 

A advogada diz ao PÚBLICO que a Conservatória disponibiliza acesso à casa de banho e à água e pede “a compreensão dos moradores”. Quanto à venda de serviços, afirma que os advogados estão ali “para tratar dos processos dos judeus sefarditas e que esses processos já têm de vir devidamente instruídos” e que, “de facto às vezes, há pessoas que saem da fila dos utentes para lhes pedir ajuda”.

 

“Estamos a fazer o nosso trabalho e a ser profissionais. Não pensem que gostamos de dormir na rua. Eu não gosto de dormir na rua”, argumenta.

 

O Sintap veio denunciar, na quinta-feira, o caos que se vive nas conservatórias, sublinhando que, “os parcos recursos humanos pararam todo o serviço pendente apenas para poderem dar carimbo de entrada dos processos que chegam”.

 

Ao PÚBLICO, José Abraão, da Federação dos Sindicatos da Administração Pública (FESAP) e do Sintap, disse que já foi pedida uma reunião urgente ao secretário de Estado da Justiça, Pedro Tavares, para que se tente encontrar uma solução.

 

E deixa um pedido ao ministro das Finanças, Fernando Medina: “Que dê despacho às propostas de abertura de concurso para a contratação de 70 conservadores e 240 oficiais que foram entregues há meses no ministério.”

 

“É preciso que haja mais trabalhadores e que, inclusive, estes que cá estão possam ser mais motivados pelas suas carreiras, sistema de avaliação e salários, na justa medida que a desmotivação, o burnout, o excesso de trabalho é de tal ordem que é preciso que haja aqui uma grande preocupação por parte do Governo”, afirma José Abraão.

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