OPINIÃO
Macron e o fim da era da abundância
Macron juntou as duas grandes crises que estamos a viver
— a guerra na Europa e as alterações climáticas — para dizer que está a chegar
o tempo do “fim da abundância”. Dos bens, da energia, da água. Que acabou a era
do dinheiro barato.
Teresa de Sousa
28 de Agosto de
2022, 7:01
https://www.publico.pt/2022/08/28/mundo/opiniao/macron-fim-abundancia-2018541
1. O que levou
Emmanuel Macron a avisar os franceses de que está a chegar ao fim a “era da
abundância”, da “despreocupação” e das facilidades com que nos habituámos a
viver? O Presidente francês resolveu transmitir em directo a sua intervenção de
abertura do Conselho de Ministros de 24 de Agosto, que marcou a rentrée
política. Foi breve, mas densa e inesperada. Surpreendeu os media e provocou
imediatas reacções negativas nas oposições, à direita e à esquerda. Talvez não
tenha sido uma surpresa.
Poucos dias
antes, Macron aproveitara uma deslocação a Bormes-les-Mimosas, na Provença,
para avisar que a liberdade tem custos e exige sacrifícios. Que não é um dado
adquirido. “A nossa liberdade, o regime de liberdade no qual nos habituámos a
viver, tem um custo. E por vezes, quando é preciso defendê-lo, isso pode
implicar sacrifícios, travar algumas batalhas até ao fim. A situação que
vivemos tem um custo (…). Os combates que temos de travar, culturais, de
civilização, tecnológicos e económicos, só os venceremos com o nosso próprio
esforço. Ninguém os combaterá por nós.” Foi este o primeiro aviso, que a
imprensa interpretou como uma referência directa à guerra na Ucrânia com as
suas consequências económicas, políticas, estratégicas.
No dia 24, foi
mais longe. Juntou as duas grandes crises que estamos a viver — a guerra na
Europa e as alterações climáticas — para dizer que está a chegar o tempo do
“fim da abundância”. Dos bens, da energia, da água. Que acabou a era do
dinheiro barato.
“É o fim do que
poderia parecer uma abundância: da liquidez [monetária] e sem custo (…); dos
bens e tecnologias que pareciam perpetuamente disponíveis; o fim da abundância
de terras, de matérias-primas e de água.” O Sul da Europa, incluindo a França,
viveu um Verão de seca extrema e de incêndios violentos. O Norte confronta-se
com temperaturas próprias do Sul e vê os seus rios quase desaparecer — do Reno
ou Pó.
“Também é o fim
das evidências, se olharmos para a França, para a Europa e para o curso do
mundo”, continuou Macron. “Se alguém pensava que a democracia e os direitos
humanos eram a teologia da ordem internacional, nos últimos anos
manifestaram-se algumas evidências, como a ascensão dos regimes iliberais e o
reforço do discurso autoritário.” Para concluir: “É também o fim de uma forma
de despreocupação. Há seis meses, a guerra regressou à Europa (…). Do mesmo
modo, a crise climática, com todas as suas consequências, está aqui. E a isto
temos ainda de acrescentar o risco cibernético.”
Macron resumiu o
seu pensamento numa frase: estamos a atravessar tempos de “grandes convulsões”
e de “grande mudança”. Já sabíamos. Não é a primeira vez que ele o diz. A novidade
parece estar no realismo com que descreve esta mudança e a clareza com que
anunciou as suas consequências.
2. A imprensa
interrogou-se sobre a mudança de atitude do Presidente, que chegou ao Eliseu
anunciando o “optimismo da vontade”. Consultou analistas e politólogos para as
interpretar. Alguns dizem que é um “erro de comunicação”. Arnaud Benedetti,
politólogo e professor na Sorbonne, diz ao Figaro que “um tal discurso pode
corresponder à verdade, mas a forma como foi enunciado não preenche as condições
indispensáveis para ser apoiado pelos franceses”. Outros dizem que o Presidente
ainda anda à procura do seu rumo para o segundo mandato, que vai exercer em
condições políticas mais difíceis.
A esquerda
protestou em nome dos que nunca viveram na abundância. A direita foi mais
prudente, interpretando as palavras do Presidente apenas como um aviso de que
os próximos tempos não serão fáceis e vão exigir sacrifícios. Os preços da
energia atingem valores impensáveis. O arrefecimento da actividade económica começa
a ser visível, apesar da boa recuperação da pandemia. A inflação parece ter
chegado para ficar. A subida das taxas de juro, apesar da prudência do BCE para
não induzir uma recessão, marca o fim do “dinheiro barato”.
Antevê-se
facilmente em França — e nos outros países europeus — um Outono de protestos
sociais. As centrais sindicais reagiram mal às palavras do Presidente,
mencionando as pessoas que auferem o salário mínimo, que vêem as suas contas de
electricidade triplicar, que vivem em permanente sacrifício, enquanto ele passa
férias no Mediterrâneo. Toda a gente ainda tem presente a revolta dos “gilets
jaunes” em 2019, por causa da subida do preço da gasolina.
Marine Le Pen não
perde uma oportunidade para responsabilizar as sanções aplicadas à Rússia pelas
dificuldades económicas dos franceses.
E, no entanto,
Macron tem razão naquilo que disse e é seu dever dizê-lo.
3. “Vamos ter de
agradecer a Macron por ter rompido parcialmente o consenso discursivo que nega
a realidade que, até hoje, as elites económicas, política e mediáticas
continuam a defender”, escreve Jorge Riechmann, professor de Filosofia da
Universidade Autónoma de Madrid, no El País. “A abundância energética e a
pletora mercantil são coisas do passado. Quanto mais depressa tomarmos consciência
do tempo que nos espera, mais tempo teremos para tentar evitar os piores
cenários.” O académico de Madrid chama a atenção para que a crise energética,
apesar de ligada directamente à guerra de Putin, não é conjuntural nem tem uma
solução que não implique viver com a utilização de menos energia, o que
significa algum tipo de empobrecimento. Parte do nosso desenvolvimento (nosso,
quer dizer dos países desenvolvidos) ao longo dos séculos recentes deve-se à
facilidade de acesso aos combustíveis fósseis e à enorme abundância energética
que proporcionaram. Esse tempo acabou, em primeiro lugar devido às alterações
climáticas que ameaçam a nossa vida na Terra.
Já há hoje um
amplo consenso nas opiniões públicas europeias e até mundiais sobre o risco que
corremos. Não há ainda a total consciência dos sacrifícios e das dificuldades
que a transição para fontes de energia mais limpas vai necessariamente
implicar. A Europa e os EUA estão apenas a começar o caminho. A guerra na
Ucrânia veio, talvez, acelerar essa transição. Pode correr bem ou pode correr
mal. Mas só poderá correr bem se os responsáveis políticos das democracias
liberais — aqueles que, como Macron, sabem até que ponto elas são hoje
desafiadas por dentro — disserem a verdade aos cidadãos e conseguirem encontrar
soluções que parecem minimamente justas a uma maioria.
E isto leva-nos à
União Europeia, também ela posta à prova por uma sucessão de crises que hoje
culminam na mais profunda delas todas: uma guerra nas suas fronteiras,
provocada por uma potência imperialista e autocrática que quer subverter a
ordem europeia e mundial.
O que também
encerram as palavras de Macron é o reconhecimento de que à Europa não resta
outra alternativa senão apoiar a Ucrânia até ao ponto de enfraquecer
irreversivelmente a Rússia de Putin. A França hesitou quanto à melhor
estratégia no início da guerra. Apesar da Geórgia (2008) ou da Crimeia (2014),
Macron tinha defendido uma aproximação a Moscovo, não tanto pelas razões de
Merkel e de grande parte da elite alemã, mas mais pela velha visão “gaulliana”
de uma Europa do Atlântico aos Urales, na qual a Rússia teria de ter o seu
lugar, liberta da dependência americana. Paris e Berlim apostaram quase até ao
fim na ideia de uma negociação possível.
Hoje, as ilusões,
visivelmente, acabaram. Em Paris, e há a esperança de que em Berlim também.
Graças a Joe Biden, mas graças também à compreensão de que é o futuro da Europa
democrática que se joga na frente de batalha na Ucrânia. Ou, por outras
palavras, que esta é uma “guerra da Europa” e que nela está em causa a própria
a ordem internacional assente em regras que os europeus defendem e de que
precisam para proteger os seus interesses e os seus valores. As palavras dos
líderes europeus foram ganhando significado. Os seus actos também. Putin
encarregou-se de destruir todas as pontes. A barbárie da sua guerra impede
qualquer condescendência.
Por isso, as
palavras de Macron pesam tanto. Olham para o futuro sem condescendência. Falta
ainda ao Presidente francês transpô-las para o nível europeu. A União Europeia
também vai precisar de definir um rumo que faça sentido aos olhos dos europeus
e que, tal como com a pandemia, lhes dê a confiança que apenas vem da sensação
de partilha.
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