EDITORIAL
A serra da Estrela entre a gaffe e o algoritmo
Os erros de Patrícia Gaspar e de Mariana Vieira da Silva
têm origem na aflição do Governo em gerir de novo uma crise com os fogos. O
algoritmo e o futuro risonho da serra revelam sinais de nervosismo,
insensibilidade e desorientação.
Manuel Carvalho
25 de Agosto de
2022, 6:01
https://www.publico.pt/2022/08/25/politica/editorial/serra-estrela-gaffe-algoritmo-2018215
Uma secretária de
Estado com a tutela da Protecção Civil serviu-se dos algoritmos utilizados
pelos especialistas no estudo dos fogos florestais para analisar a tragédia
deste ano e concluir que, face às condições de severidade reunidas, seria
expectável que a área ardida fosse superior em 30%. À partida, o uso da ciência
recomenda-se e divulgar as suas conclusões não é nada do outro mundo.
Entretanto, uma ministra prometeu um futuro “melhor” para a serra da Estrela
fortemente devastada pelos incêndios. Já sabemos que o optimismo neste Governo
pode ser “irritante”, mas profetizar um mundo melhor não é nada que se estranhe
num político.
Então, qual é o
mal desta análise e deste augúrio? Por que razão o “algoritmo” entrou no debate
político e o futuro brilhante da Estrela está a ser usado como um exemplo da
demagogia do Governo? Para começar, o contexto: os erros de Patrícia Gaspar e
de Mariana Vieira da Silva têm origem na aflição do Governo em gerir uma nova
crise com os fogos. O algoritmo e o futuro risonho da serra revelam sinais de
nervosismo, insensibilidade e desorientação. Na sua tentativa de apaziguar a
dimensão do desastre, não deram conta que a relativização e a propaganda não
funcionam nestes contextos. A ideia subliminar que sobra é simples: ou o
Governo não percebeu o que se passa, ou percebeu e vira a cara à realidade.
Ao dizer que a
tragédia podia ser pior, a secretária de Estado queria provavelmente a elogiar
o trabalho dos bombeiros. Podia fazê-lo com a rapidez do ataque às chamas ou a
redução dos reacendimentos. Usando o algoritmo, entrou no domínio da
especulação. O que o modelo matemático produz são estimativas, ou intervalos de
previsão. Não reflecte a eficácia do combate aos fogos, nem o desempenho do
Governo.
O caso de Mariana
Vieira da Silva, uma ministra que se destaca pela sua sensatez, é mais grave.
Porque se a motivação política é a mesma (proteger o Governo), o grau de
inconsciência é maior. Certamente sem o pretender, a ministra associou os
incêndios à ideologia dos amanhãs que cantam. Com este Governo, a devastação
das chamas é o primeiro passo para um futuro melhor. Não deu conta que essa
promessa é um insulto aos que perderam bens com o fogo ou se comovem com a
perda da biodiversidade.
Os dois
incidentes valem pelo simbolismo. Não ficam na História. Nem escondem o
essencial: as promessas de António Costa em 2017 para a floresta fracassaram.
Se a promessa para o futuro da Estrela decorrer como a do pinhal de Leiria, não
haverá algoritmo que a salve.


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