METEOROLOGIA
Vem aí uma onda de calor: temperaturas podem ultrapassar
40 graus e haverá “noites tropicais”
Temperaturas estarão acima da média em Julho e a maior
parte do país terá máximas superiores a 30 graus Celsius nos próximos dias.
Fenómeno acontece devido a uma massa de ar quente e seco transportada do Leste
da Europa.
Claudia Carvalho
Silva e Nina Muschketat
6 de Julho de
2022, 21:10
Durante os
próximos dias, o calor estará “sempre a subir”. O Verão começou com chuva e
temperaturas amenas, mas o cenário começa a mudar de figura duas semanas
depois: está prevista uma onda de calor para os próximos dias em Portugal
continental. Começa a 7 de Julho e deverá durar, pelo menos, até 14 de Julho,
diz ao PÚBLICO a meteorologista Alexandra Fonseca, do Instituto Português do
Mar e da Atmosfera (IPMA). “Mas pode prolongar-se.”
43ºC
será a temperatura máxima em alguns concelhos do país
Os termómetros
deverão ultrapassar os 40 graus Celsius em várias partes do território
(sobretudo no Alentejo, Vale do Tejo e Santarém), e quase todo o país registará
temperaturas superiores a 30 graus Celsius durante a semana. Em Évora, por
exemplo, serão registados 42 graus Celsius de máxima durante vários dias
seguidos. Em Santarém e Reguengos de Monsaraz, os termómetros chegarão aos 43
graus. A meteorologista Cristina Simões, também do IPMA, diz que será “um
período alargado de calor”, que se prevê que se mantenha acima da média durante
o resto do mês de Julho.
A temperatura
mínima não dará grandes tréguas do calor: segundo o IPMA, estão também
previstas “noites tropicais”, que são caracterizadas por temperaturas mínimas
acima de 20 graus Celsius. Na zona da Grande Lisboa, por exemplo, é já a partir
desta quinta-feira que os termómetros marcarão 21 graus de mínima. Já a máxima
será de 37 graus, prevendo-se que chegue aos 40 no dia 12 de Julho. No Grande
Porto, assim como em Faro, as noites tropicais também começarão na
quinta-feira, com as temperaturas máximas a rondarem, durante o resto da
semana, entre os 29 e os 33 graus.
20ºC
Quando a
temperatura mínima é superior a 20 graus Celsius, as noites são consideradas
tropicais
O cocktail de
calor, associado ao vento e a valores baixos da humidade relativa do ar, fará
com que haja um “aumento significativo do perigo de incêndio rural”, alerta
ainda o IPMA, numa nota publicada na terça-feira.
Estas
temperaturas elevadas acontecem porque “o anticiclone se está a posicionar a
norte da Península Ibérica e vai transportar uma massa de ar quente” através de
uma corrente de Leste, que “traz” o calor do outro lado do continente europeu,
refere a meteorologista Alexandra Fonseca. O anticiclone dos Açores “vai-se
posicionar de maneira a que a corrente venha assim mais quente do interior do
continente”.
O anticiclone dos
Açores é uma região de grande pressão atmosférica, que exerce influência sobre
o clima de várias regiões da Europa Ocidental, do Norte de África e das Américas.
Este anticiclone tem ocupado uma área cada vez maior nos últimos 200 anos e tem
sido o responsável pelo clima cada vez mais seco da Península Ibérica em mais
de um milénio, segundo um estudo publicado esta semana na revista científica
Nature Geoscience.
Alerta amarelo
O IPMA emitiu um
alerta meteorológico amarelo de tempo quente para todos os distritos do
Continente (excepto Faro) devido à “persistência de valores elevados da
temperatura máxima”, que está em vigor a partir da tarde de quinta-feira. Os alertas
de temperatura elevada são emitidos com diferentes temperaturas para cada
distrito. Em Aveiro, por exemplo, é preciso que os termómetros variem entre 31
e 35 graus de temperatura máxima durante um período superior a 48 horas para
que haja alerta amarelo, mas em Faro esses valores variam entre os 33 e 37
graus Celsius.
A vaga de
temperaturas elevadas poderá durar mais do que uma semana e a particularidade
desta onda de calor é que não estará apenas concentrada nas zonas habituais,
como o Alentejo ou na Beira Alta e na Beira Baixa, explica a meteorologista
Cristina Simões. Também na Madeira é esperada uma subida da temperatura a
partir de 8 de Julho. Nos Açores, o tempo estará mais ameno, com temperaturas
máximas a rondar os 23 graus Celsius.
Considera-se uma
onda de calor quando a temperatura máxima diária é superior em cinco graus
Celsius ao valor médio no período de referência (geralmente 30 anos) durante,
pelo menos, seis dias consecutivos – é a definição oficial da Organização
Meteorológica Mundial (OMM). Mesmo em vagas de temperaturas elevadas com
duração mais curta, que não são tecnicamente consideradas “ondas de calor”, os
efeitos na saúde podem ser graves.
As ondas de calor
podem acontecer em qualquer altura do ano, mas são mais notórias quando
acontecem nos meses de Verão. Em Portugal continental, são mais frequentes no
mês de Junho. A onda de calor de maior duração em Portugal foi aquela que
aconteceu entre Julho e Agosto de 2003, que durou 17 dias. Segundo o IPMA, foi
a onda de calor com maior duração registada desde 1941.
O calor pela
Europa
Portugal só
nestes dias começará a sentir os efeitos desta vaga de calor, mas na Europa a
subida de temperaturas já começou há mais tempo. Ainda assim, o calor que vai
chegar a Portugal não está directamente relacionado com o que já se faz sentir
no resto da Europa. “Não é o mesmo sistema”, explica a meteorologista Alexandra
Fonseca.
Itália é um dos
países que mais têm sofrido com o calor em Julho e certas regiões do país
registaram 44 graus Celsius nos últimos dias. As cidades de Verona e Pisa
anunciaram restrições para o consumo de água, que só pode ser usada para fins
domésticos, de higiene e limpeza pessoal. Outros municípios (sobretudo no Norte
de Itália) estão a racionar água há várias semanas por causa da seca. A onda de
calor fez ainda com que um glaciar dos Alpes italianos se desmoronasse no
sábado, causando seis mortos e 20 desaparecidos.
No início de
Junho, uma imagem recolhida pelos satélites do sistema europeu de vigilância
Copernicus mostrava que “foram quebrados recordes meteorológicos em França e
Espanha: para esta última, as temperaturas do início de Junho foram as mais
altas registadas nos últimos 20 anos”. O calor em Espanha foi tanto que até as
crias de aves começaram a cair dos ninhos enquanto tentavam fugir ao calor.
Além da Europa,
certas partes da Índia e do Paquistão também enfrentaram vagas de calor
excessivo desde Março, com temperaturas superiores a 50 graus Celsius. Esta
onda de temperaturas extremas causou falhas de energia, incêndios, impactos no
cultivo de frutas, legumes e cereais e alterações nos calendários escolares.
Também em Tóquio, no Japão, a onda de calor de Junho foi a mais grave desde
1875.

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