sexta-feira, 29 de julho de 2022

Oligarca suspeito de ligações ao crime organizado aguarda nacionalidade

 



 INVESTIGAÇÃO PÚBLICO

Oligarca suspeito de ligações ao crime organizado aguarda nacionalidade

 

Multimilionário russo foi certificado como judeu sefardita à semelhança dos oligarcas Roman Abramovich, Andrei Rappoport, Lev Leviev e God Nisanov. O processo está na fase final.

 

Paulo Curado

29 de Julho de 2022, 6:30

https://www.publico.pt/2022/07/29/sociedade/noticia/oligarca-suspeito-ligacoes-crime-organizado-aguarda-nacionalidade-2015453

 

Este é o quinto oligarca russo a ser certificado pela Comunidade Israelita do Porto como descendente de judeus sefarditas

 

Gavril Yushvaev, conhecido empresário e filantropo russo, com investimentos globais, incluindo nos EUA, com registo criminal e suspeito de ligações a organizações criminosas, aguarda pela nacionalidade portuguesa. Depois de Roman Abramovich, Andrei Rappoport (ambos já naturalizados), Lev Leviev e God Nisanov (que aguardam despacho do Ministério da Justiça), este é o quinto oligarca russo a ser certificado pela Comunidade Israelita do Porto (CIP) como descendente de judeus sefarditas, expulsos de Portugal no final do século XV.

 

Nascido em 1957, em Makhachkala, capital da República Russa do Daguestão, residente em Moscovo e com uma fortuna avaliada pela revista Forbes em 1,7 mil milhões de euros, Yushvaev enriqueceu com uma vasta gama de negócios, dos lacticínios ao imobiliário, passado pelo petróleo, gás natural, agricultura e alta tecnologia. Em 1980, ainda na era soviética foi condenado por roubo e passou nove anos num campo de prisioneiros.

 

Em Dezembro de 2013, foi referenciado num relatório da Direcção de Informação da Unidade Central Especial 2 (UCE2) da Guarda Civil espanhola como estando ligado a organizações criminosas da Europa de Leste, através de um esquema complexo de branqueamento de capitais envolvendo banqueiros, empresários e políticos russos.

 

Depois de ser libertado da prisão e após o colapso da União Soviética, Gavril Yushvaev tornou-se parceiro de David Yakobashvili – também com ligações ao crime organizado - no conhecido casino Metelitsa, em Moscovo, e na holding de concessionários automóveis Trinity.

 

De acordo com uma investigação do jornal russo Novaya Gazeta, em colaboração com o consórcio de jornalista Organized Crime and Corruption Reporting Project (OCCRP), um dos primeiros negócios desta empresa foi vender carros usados provenientes dos EUA. Um dos seus primeiros operadores foi Vladislav Vanner, que liderou um grupo criminoso chamado Bauman, que era bastante influente na capital russa por essa altura. Vanner acabaria por ser assassinado a tiro em 1994 por um gangster rival.

 

“Éramos amigos”, admitiu Yakobashvili em relação a Vanner, já em 2004, em entrevista à Forbes russa. “Eu ajudei-o e ele ajudou-me”, prosseguiu recusando a associação do amigo ao crime organizado. “Se ele cresceu em Bauman, isso não significa que fosse o chefe de um grupo [criminoso]. E de qualquer modo, o que é o grupo criminoso Bauman?” questionou, acrescentando que “a imprensa não compreende muitas coisas”: “Já viram demasiados filmes mafiosos.”

 

Ainda em 1992, Gavril Yushvaev juntou-se a outros parceiros comerciais e ajudou a fundar, em 1992, a empresa Wimn-Bill-Dann. Trata-se de um dos maiores grupos de lacticínios da Europa, que passou a ser cotada na Bolsa de Nova Iorque em 2002. Em 2010, venderia a sua participação à multinacional americana PepsiCo por 1,1 mil milhões de euros.

 

Investiu em start-ups tecnológicas europeias e americanas

Segundo informações recolhidas pela Forbes, Yushvaev reinvestiu parte deste valor, perto de 490 milhões de euros em start-ups tecnológicas europeias e americanas. Uma delas, a Lyft, é uma plataforma digital idêntica à Uber, que está presente em Portugal, e tem sede em São Francisco, nos EUA.

 

Gavril Yushvaev foi certificado pela Comunidade Israelita do Porto (CIP) como descendente de judeus sefarditas, ao abrigo dos poderes delegados pelo Estado a esta entidade religiosa (assim como à Comunidade Israelita de Lisboa). Estes certificados são fundamentais para a obtenção da naturalização, ao abrigo da Lei da Nacionalidade, referente aos sefarditas, que foi proposta pela ex-deputada, antiga ministra e candidata à Presidência da República, Maria de Belém Roseira, em 2013, e aprovada por unanimidade e com aplauso no Parlamento.

 

Maria de Belém é também tia do advogado Francisco de Almeida Garrett, a figura proeminente da CIP, conforme o PÚBLICO revelou em Fevereiro deste ano. Almeida Garrett foi constituído arguido em Março de 2011, em conjunto com o rabino da comunidade, Daniel Litvak, que chegou a ser detido durante algumas horas e está com Termo de Identidade e Residência, no âmbito de uma investigação do Ministério Público, conduzido pela Unidade Nacional de Combate à Corrupção da Polícia Judiciária.

 

Roman Abramovich foi o primeiro caso a ser revelado pelo PÚBLICO ainda em Dezembro do ano passado. O antigo dono do Chelsea e amigo próximo do presidente russo Vladimir Putin, tornou-se cidadão português a 30 de Abril de 2021, depois de um processo tramitado em tempo recorde, após muita pressão da CIP, que utilizou mesmo o nome do ex-ministro Pedro Siza Vieira.

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