UBER
Portugal entre países onde Uber usou violência de
taxistas para expandir negócio
O plano começou a ser traçado em 2015, quando os
estrategos da empresa norte-americana perceberam que poderiam beneficiar com os
actos de violência contra os motoristas da Uber. Em Portugal, o objectivo era
degradar a imagem pública do presidente da ANTRAL, a maior associação de
taxistas em Portugal.
Lusa
10 de Julho de
2022, 23:25
Durante anos, a
Uber explorou histórias de violência contra motoristas da empresa para promover
a imagem da empresa contra os taxistas e os governos que criavam problemas ao
seu negócio. A estratégia foi repetida em vários países, incluindo Portugal,
revela uma investigação jornalística publicada este domingo pelo Consórcio
Internacional de Jornalistas de Investigação (ICIJ, na sigla em inglês).
O plano começou a
ser traçado em 2015, quando os estrategos da empresa norte-americana perceberam
que poderiam beneficiar com os actos de violência contra os motoristas da Uber,
ganhando a simpatia da opinião pública, revela a investigação Uber Files. O
plano terá começado depois de um conselheiro da Comissão Europeia ter escrito
na rede social Facebook que um Uber em que viajou tinha sido atacado por
taxistas.
Nessa semana,
quatro motoristas da Uber foram atacados numa mesma noite por taxistas nos Países
Baixos que protestavam contra os benefícios de que a empresa norte-americana
estava a beneficiar, levando Niek van Leeuwen, gestor da organização para
aquela região europeia, a relatar a situação ao então presidente executivo,
Travis Kalanick.
Com o aval da
direcção geral da empresa, Leeuwen fez chegar a sua reacção de indignação
perante estes casos junto de vários órgãos de comunicação social dos Países
Baixos, alimentando o caso na comunicação social e fazendo um relatório interno
em que aconselhava: “Temos de manter esta narrativa da violência”.
A partir daí, a
Uber começou a aconselhar os motoristas a fazerem frente à violência dos
taxistas, lembrando-os que essa era a melhor forma de proteger os interesses da
empresa para a qual trabalhavam. Várias mensagens mostram Kalanick a aconselhar
os taxistas a manter esta “narrativa da violência”.
Um porta-voz do
ex-líder da Uber disse ao consórcio de jornalistas que essas declarações estão
fora de contexto e que Kalanick nunca quis colocar em risco a vida dos
motoristas da Uber.
Um dos exemplos
apresentados pela investigação do ICIJ - citado pelo jornal The Washington
Post, um dos jornais envolvidos nesta investigação - ocorreu em Portugal, em
2015, quando taxistas cometeram “actos de violência” contra motoristas da Uber
em diversas ocasiões, provocando ferimentos em vários e levando um deles a ser
hospitalizado.
A contestação ao
serviço Uber em Portugal, e à falta de regulação da sua actividade, cresceu de
tom ao longo do primeiro semestre de 2015, culminando, no final do mês de
Junho, na confirmação de uma providência cautelar, apresentada pela Associação
Nacional de Transportadores Rodoviários em Automóveis Ligeiros (ANTRAL), junto
do Tribunal Central de Lisboa, para a suspensão da actividade da plataforma
tecnológica.
As acções de
taxistas portugueses sucederam-se ao longo do segundo trimestre e voltaram a
ganhar dimensão em Setembro e Outuro, com manifestações que chegaram a ser realizadas,
em simultâneo, em Lisboa, Porto e Faro.
Na altura,
Portugal estava em vésperas de eleições legislativas, que levaram à mudança de
Governo. A regulação das plataformas tecnológicas para o transporte de
passageiros só viria a entrar em vigor em 2018.
De acordo com a
Uber Files, em Julho de 2015, Rui Bento, então gestor da Uber em Portugal,
admitiu que estava “a ponderar” apresentar a informação dos ataques e dos
ferimentos aos meios de comunicação locais. Nesta altura, a ANTRAL, a maior
associação de taxistas em Portugal, procurava contrariar a estratégia de
expansão da Uber.
Nas mensagens,
Rui Bento explica que o objectivo era “criar uma ligação directa entre as
declarações públicas de violência do presidente da ANTRAL (Florêncio Almeida) e
estas acções, para degradar a sua imagem pública”.
Em resposta a
esta mensagem de Rui Bento, Yuri Fernandez, gestor de comunicação da Uber,
propôs que se investigasse o passado de Florêncio Almeida: “Para ver se temos
alguma coisa ‘sexy’ para os ‘media’”, de acordo com os documentos citados pela
investigação.
Bento e Fernandez
não responderam aos pedidos de comentário dos jornalistas do ICIJ.
A investigação do
ICIJ apresenta casos semelhantes noutros países, como a Suíça, onde um violento
ataque de um taxista em Genebra contra um motorista da Uber foi analisado como
podendo ter potencial para obter benesses do Governo de Berna.


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