domingo, 10 de julho de 2022

O dia em que o SNS se transformou no Titanic

 


CRÓNICA

O dia em que o SNS se transformou no Titanic

 

Os nossos médicos de família não têm uma formação de quatro anos por capricho ou apenas porque sim. Essa formação existe porque é absolutamente necessária.

 

Carmen Garcia

10 de Julho de 2022, 7:49

https://www.publico.pt/2022/07/10/impar/cronica/dia-sns-transformou-titanic-2012720

 

A minha avó paterna teve o primeiro AVC quando era ainda muito nova. E ao longo de toda a vida foi tendo acidentes isquémicos transitórios que, mesmo não deixando sequelas, tornaram pesados muitos dos seus dias. De cada vez que um destes episódios acontecia, as minhas tias corriam a chamar o médico, sempre o mesmo, de forma quase religiosa, porque, segundo elas, “como ele já conhecia a avó, era mais fácil”. “Além disso, também nos conhecia a nós, percebes?...” E eu percebo. Podem crer que percebo.

 

Quando a minha avó morreu, vítima de novo AVC, ainda não existia oficialmente a figura do médico de família. Mas já era notória a sua falta. Famílias como a minha precisavam de um médico que as conhecesse, que as compreendesse, que fosse eficaz na sua intervenção mais técnica, mas que nunca descurasse a importância do contexto de cada uma. Famílias como a minha ansiavam por ter um médico que as acompanhasse de forma regular sem, para tal, terem de gastar o dinheiro que não tinham.

 

Em Portugal, em 1980, regulamentou-se a função de médico generalista e em 1981 iniciou-se o internato complementar de clínica geral que consistia, basicamente, num período de estágios hospitalares de dois anos. Algum tempo depois, esse período foi alargado para três anos, de forma a incluir mais especialidades e períodos de estágio consideravelmente mais longos. E saber isto permite-nos chegar a uma conclusão bastante clara: sempre existiu uma formação específica associada a esta especialidade da Medicina que, mais tarde, mudaria o nome para Medicina Geral e Familiar (MGF).

 

A mais recente alteração relativa a esta especialidade aconteceu em 2019 (Portaria n.º 125/2019) e foi já assinada pela ministra Marta Temido. Nela podemos constatar que a formação específica para MGF se manteve em quatro anos, tal como acontece desde 2009, sempre antecedida por uma formação genérica transversal a todas as especialidades a que chamamos, habitualmente, “ano comum”.

 

E o que é que o Ministério da Saúde nos propõe agora? Um recuo de 40 longos anos onde listas de utentes sem médico de família passarão para as mãos de médicos indiferenciados, ou seja, médicos que, após este ano comum, não continuaram a sua especialização e não fizeram mais nenhum tipo de estágio ou formação.

 

Reparem, a Medicina, como quase todas as áreas do conhecimento, evoluiu no sentido de uma maior especialização e de uma maior diferenciação. Imagino que não passe pela cabeça de ninguém colocar um cirurgião geral a fazer um transplante pulmonar. Da mesma forma, creio, ninguém colocaria um dermatologista a fazer cirurgia ortopédica ou um cardiologista a fazer consultas de oftalmologia. Mas, aparentemente, para o Ministério da Saúde, isto já não é assim tão linear quando falamos da Medicina Geral e Familiar, que é, ao contrário do que querem fazer parecer, uma especialidade essencial por se configurar como a porta de entrada no Serviço Nacional de Saúde.

 

Os nossos médicos de família não têm uma formação de quatro anos por capricho ou apenas porque sim. Essa formação existe porque é absolutamente necessária. Porque qualquer médico de família tem de ter formação em saúde materna e infantil, em saúde da mulher, em saúde mental e em situações de urgência e emergência.

 

Estamos em 2022 e, de uma forma inacreditável, ainda parece existir quem ache que os médicos de família são a especialidade menor que serve, essencialmente, para passar receitas e pedir exames. Era bom que o planeta Terra chamasse esta gente e a trouxesse de volta à realidade e ao tempo presente. Porque num SNS a funcionar como deveria, os nossos filhos estavam a ser vistos pelos seus médicos de família algures nas duas primeiras semanas de vida, nós estávamos a fazer com eles as consultas de planeamento familiar e as citologias para rastreio do cancro do colo do útero, os nossos pais faziam com eles as consultas de diabetes e hipertensão e seria a eles a quem recorreríamos em caso de necessidade, em vez de desaguar nos hospitais e entupir ainda mais os serviços de urgência.

 

E porque é que isto não funciona assim? Por falta de estratégia e de planeamento. E não apenas de agora, mas de quase sempre.

 

Há quem olhe para esta solução do Governo de colocar médicos indiferenciados a fazer o trabalho de médicos de família como uma espécie de mal menor. Já eu acredito que é um mal absolutamente maior e, mais do que isso, creio ser um dos mais perigosos retalhos da manta de rotos farrapos em que se transformou o SNS.

 

Mas, questionarão alguns, existindo mais de 1,3 milhões de portugueses sem médico de família, isto não é melhor do que nada? Pobre país nos tornámos e miserável é o nosso grau de exigência com quem nos governa quando nos contentamos com uma solução que representa um recuo de 40 anos. Mal estamos quando olhamos para um penso rápido colado em cima de uma artéria que sangra e pensamos: “Olha, antes isto do que nada...”

 

Porque aquilo que tem de ser feito não é recorrer a este tipo de solução que, na verdade, serve para martelar números e “calar a boca” às pessoas. Aquilo que é imperativo fazer é repensar o SNS. E o primeiro passo será perceber porque é que, actualmente, apenas conseguimos fixar no sector público 60 a 70% dos médicos de família que formamos. Se a cada dez ficamos com seis ou sete, para onde estão a ir os outros três ou quatro e o que podemos fazer para os manter connosco? Parece-me que não será difícil a resposta a esta questão.

 

Nos próximos anos, um grande conjunto de médicos de família atingirá a idade da reforma e, como tal, a situação, que hoje é grave, tornar-se-á gravíssima. Mas não é como se esta questão fosse impossível de prever, certo? Em 2022, mil médicos de família atingirão a idade da reforma, em 2023 serão 400 e em 2024 cerca de 300. O que é que foi feito para acautelar estas saídas? Pois… Mas a solução, está visto, foi encontrada: venham daí os médicos indiferenciados sem experiência clínica real, mais inseguros e com menos formação nas técnicas necessárias. Venham os médicos indiferenciados fazer consultas de saúde infantil e citologias. E talvez o que o Governo poupe com a sua contratação (se poupar) não chegue para compensar os exames e análises que estes médicos, com a sua inexperiência e insegurança próprias e absolutamente aceitáveis, vão pedir para tudo o que for queixa.

 

Médicos indiferenciados não terão um tutor que os acompanhe, que lhes esclareça as dúvidas e que se responsabilize pela sua formação. Médicos indiferenciados serão deixados sozinhos com os doentes em mãos. Infelizmente, ao que parece, o nosso primeiro-ministro prefere sacrificar a qualidade dos cuidados de saúde prestados aos portugueses à sua adorada ministra.

 

António Costa e Marta Temido, neste momento, lembram a orquestra do Titanic, sendo que, neste caso, o Titanic é o SNS que se afunda. E eles, já com água pelos tornozelos, lá vão continuando a tocar. E sabem o pior? Parece que há mesmo quem goste de se afogar, se o fizer ao som de um dueto de cordas.

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