Na Europa e nos EUA “há casas com azulejos furtados em
Portugal”, mas PJ não pode fazer nada
PJ tem desmantelado verdadeiras redes de um comércio
paralelo em que um único azulejo pode custar entre 300 e 400 euros. Quando
chegam a outros países, é quase impossível recuperá-los.
Sónia Trigueirão
4 de Julho de
2022, 6:04
Entre 2016 e
2019, com o aumento do número de turistas, o interesse pelos azulejos
portugueses disparou. "Qualquer turista que vinha a Lisboa queria levar um
azulejo de recordação”, diz Domingos Lucas, chefe da brigada das Obras de Arte
da Polícia Judiciária. Resultado: “O boom dos furtos de azulejos” ocorreu nesse
período, explica o inspector.
Devido ao elevado
valor histórico e pecuniário, estas peças são desejadas por coleccionadores
profissionais e amadores que não se importam de os procurar num mercado
paralelo que, à partida, garante a aquisição de uma peça original e não de uma
qualquer cópia. “Há casas na Europa e nos Estados Unidos da América que têm
painéis de azulejos que foram furtados em Portugal e que saíram por circuitos
ilícitos”, revela João Oliveira, director do Instituto da Polícia Judiciária e
Ciências Criminais (IPJCC).
Apesar de saber
onde estão estes painéis furtados em Portugal, a PJ simplesmente não os
consegue recuperar. “Quando saem do país, a sua recuperação torna-se difícil,
para não dizer quase impossível. Há circuitos minimamente organizados que, após
os furtos, os fazem sair do país imediatamente”, afirma João Oliveira.
A primeira razão
para que seja difícil recuperar estes azulejos, segundo o director do IPJCC, é
de ordem legal. “Não podemos simplesmente ir a outro país e apreender o bem. É
preciso fazer prova de que as pessoas que têm os azulejos em casa conhecem a
origem ilícita dos mesmos. E não é fácil estabelecer o nexo de causa e efeito
entre aquilo que foi furtado e a noção de que o seu proprietário sabia que
tinha origem ilícita.”
João Oliveira diz
que com isto não está a desculpabilizar quem tem os azulejos na parede. “Temos
de ser sérios na análise das coisas, mas fica difícil fazer essa prova. Até
porque nos Estados Unidos da América, por exemplo, há estabelecimentos que
vendem azulejos portugueses. Alguns dos comerciantes até são portugueses”,
refere.
Já a segunda
razão está relacionada com a forma como os azulejos são colocados nas paredes
das casas. “Muitos estão fixos com argamassas e cimento. Íamos destruir os
azulejos ao tirá-los”, explicou. E a seguir ironiza: “Que fazemos? Trazemos as
paredes inteiras? É uma impossibilidade objectiva e já nos aconteceu”, diz,
acrescentando que muitas vezes acresce uma terceira razão, que está relacionada
com a identificação exacta dos painéis de azulejos. “Muitas vezes encontramos
partes dos painéis que foram transformados em pequenos quadros.”
Os azulejos, na
maioria azuis e brancos e/ou amarelos, que ornamentam as paredes de quintas
senhoriais, palacetes, igrejas e outros edifícios antigos e históricos,
privados e públicos, por quase todo o país, são o alvo preferido dos criminosos
que em grupo ou a solo começaram a despir sem pudor fachadas e interiores.
A PJ tem
desmantelado verdadeiras redes de um comércio paralelo em que um único azulejo
pode custar entre 300 e 400 euros.
Entre o início de
2017 e Maio de 2022, só na Directoria de Lisboa e Vale do Tejo da PJ, deram
entrada 31 inquéritos por furto e tráfico de azulejos. A maioria, 11
inquéritos, diz respeito a 2019.
Entre 2017 e
finais de 2019, dois grupos que integravam pessoas da mesma família furtaram
centenas de azulejos e deixaram um rasto de destruição — utilizavam picaretas e
pás para arrancar os azulejos das paredes. Aconteceu, por exemplo, num dos
edifícios da Casa do Gaiato, em Lisboa. Autores de vários furtos no distrito de
Lisboa acabaram detidos no início de 2020.
Segundo João
Oliveira, este tipo de crime é, muitas vezes, considerado furto qualificado
porque se trata de património protegido e implica também a violação de
propriedades. A moldura penal pode ir até aos oito anos de prisão.
Com a detenção
destes dois grupos e a pandemia, que teve impacto na diminuição de turistas no
país, os furtos de azulejos diminuíram, pelo menos entre 2020 e 2021.
O mesmo já não se
pode dizer de 2022. No início do ano, a PJ foi chamada para investigar dois
furtos em edifícios privados que estavam em remodelação para a construção de
hotéis. De um dos edifícios foram levados cinco mil azulejos e de outro, mil.
Para trás, os
ladrões deixaram paredes totalmente descascadas. Ao que tudo indica, o trabalho
foi profissional, pois os azulejos foram retirados na perfeição.
Para ajudar a PJ
na tarefa de salvaguardar o azulejo português foi criado, há 15 anos, em 2007,
o projecto SOS Azulejo, que é da iniciativa e coordenação do Museu da PJ, na
dependência do IPJCC, e do qual João Oliveira faz um balanço muito positivo.
Segundo o
director do IPJCC, este projecto actua na linha de prevenção dos furtos de
azulejos. “Não bastava perseguir os autores dos furtos e dos danos que eram
causados no património”, sublinhou João Oliveira, para quem os resultados são
traduzidos naquilo que é uma diminuição do volume de furtos dos azulejos desde
a criação deste projecto.
No site do SOS
Azulejo estão seis páginas com imagens de azulejos furtados em Portugal desde
1984 até 2020.
Aliás, para
assinalar o Dia Nacional do Azulejo, que foi no dia 6 de Maio, a Polícia
Judiciária abriu ao público a exposição Arte aos Quadradinhos, que mostrou
parte do acervo de azulejos, furtados e recuperados, após investigações
desenvolvidas pela PJ, sobretudo na região de Lisboa.


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