quarta-feira, 6 de julho de 2022

Montenegro corta com o Chega e tenta pôr fim à regionalização / Montenegro e a dança com palavras do fim de semana

 


 COMENTÁRIO

Montenegro corta com o Chega e tenta pôr fim à regionalização

 

O PS não terá o “aval” do PSD para o referendo à regionalização. Vai recuar por não haver consenso?

 

Ana Sá Lopes

3 de Julho de 2022, 19:15

https://www.publico.pt/2022/07/03/politica/comentario/montenegro-corta-chega-tenta-fim-regionalizacao-2012349

 

Em 1996, no congresso de Santa Maria da Feira, o novo líder Marcelo Rebelo de Sousa tentou bloquear a regionalização ao sugerir um referendo. Fez-se o referendo e o resultado foi “não”. 26 anos depois, Luís Montenegro segue os passos de Marcelo e jura que não apoiará o novo referendo em 2024, a data desejada pelo Governo e também pelo Presidente da República, que poderia finalmente abrir portas à regionalização.

 

O futuro da regionalização acabou por ficar em causa – e o risco do projecto inscrito há 46 anos na Constituição continuar por cumprir tornou-se enorme. Se o novo líder do PSD não apoia o referendo, o PS arrisca-se a avançar sozinho? É a pergunta para os próximos dias. É o próprio Luís Montenegro que concorda que a maioria absoluta do PS tem toda a legitimidade para aprovar, na Assembleia da República, o referendo, mas nunca terá “o aval” do PSD. Mas com o PSD contra, o risco de um novo “não” pode estar a subir exponencialmente. Os argumentos de Montenegro são a situação internacional.

 

“Fazer um referendo neste quadro crítico e delicado seria uma irresponsabilidade, uma precipitação. Os portugueses não compreenderiam. Tenhamos a noção das prioridades. Em 24 de Fevereiro não foi só o mundo que mudou (...) Convém ter os pés bem assentes na terra. Se o Governo compreender o bom senso desta posição tanto melhor”.

 

A outra novidade do discurso do fim do Congresso foi a definição (finalmente) de Montenegro sobre hipotéticas coligações futuras com o Chega. É uma nota particularmente importante porque Luís Montenegro – ao contrário de Jorge Moreira da Silva – sempre foi equívoco sobre a futura relação do PSD com o Chega.

 

Basicamente, recusava-se a responder quando lhe perguntavam se, caso um dia fosse preciso, o “seu” PSD se aliaria ao Chega. Uma vez disse que não, mas durante toda a campanha eleitoral permitiu que a possibilidade fosse considerada. A declaração deste domingo arruma a questão, a menos que Montenegro decida qualquer reviravolta (enfim, acontece): “É por sermos moderados que não somos nem populistas nem ultraliberais. E muito menos nos associaremos algum dia a qualquer política xenófoba ou racista. Nós não somos daqueles que ultrapassam muros para abraçar o extremismo, só para sobreviver politicamente. Sim, estou a comparar-nos com o PS, com António Costa e os seus delfins”.

 

Consigo, agora (nada tinha ficado claro antes) o PSD é uma organização de “antes quebrar que torcer”: “Jamais abdicarei dos princípios do nosso programa eleitoral para governar a qualquer custo.” E se “algum dia for confrontado” com alguma aliança com o Chega (não disse o nome, mas ficou implícito), “o partido pode decidir o que quiser, mas eu não serei o líder desse governo”.

 

Foi uma declaração à altura de Paulo Rangel, que surpreendentemente Luís Montenegro escolheu para número 2 do partido. Ninguém estava à espera, mas o novo líder, ao ir buscar para seu número 2 o homem que perdeu por muito pouco para Rui Rio, fez uma jogada de xadrez interessante, movendo uma espécie de “Torre” para ajudar a prestigiar a sua liderança e a unir o partido.

 

A rejeição de alianças com o Chega serviu de mote para insistir que nunca faria o que fez Costa quando combinou a “geringonça” com PCP e Bloco de Esquerda. “António Costa, Pedro Nuno Santos, Fernando Medina, Mariana Vieira da Silva, Ana Catarina Mendes violaram os princípios do socialismo moderado para evitar a reforma política do actual primeiro-ministro.” E arrancou uma enorme salva de palmas quando responsabilizou Costa por se ter apoiado “em partidos pró-russos no contexto da guerra da Ucrânia”. É um facto que se ainda existisse “geringonça” no actual contexto a vida de António Costa estaria mais perturbada.

 

OPINIÃO

Montenegro e a dança com palavras do fim de semana

 

Reparem que L.M. não garante que não se associará ao partido xenófobo e racista, mas sim a políticas xenófobas e racistas.

 

Carmo Afonso

6 de Julho de 2022, 0:20

https://www.publico.pt/2022/07/06/opiniao/opiniao/montenegro-danca-palavras-fim-semana-2012619

 

 

Para alguns, por aqui no PÚBLICO vi a Ana Sá Lopes, Luís Montenegro (L.M.), neste fim-de-semana, cortou finalmente com o Chega. Seria uma grande novidade, sobretudo depois de ter demonstrado tanta ambiguidade relativamente ao partido durante toda a campanha. Vale então a pena analisar as palavras de L.M., na parte em que se referiu ao tema, e tirar a limpo se foi mesmo desta que arrumou a questão.

 

Primeira frase: “É por sermos moderados que não somos populistas nem ultraliberais.” Esperavam-se melhores razões para não serem populistas nem ultraliberais. Mas faz sentido: se são uma coisa, não são outra. Há coisas que são como são e não tem de se aprofundar tudo como na terapia. Sai uma primeira frase para o vento.

 

Continuamos: “E muito menos nos associaremos algum dia a qualquer política xenófoba ou racista.” Aqui reside a chave. Reparem que L.M. não garante que não se associará ao partido xenófobo e racista, mas sim a “políticas”. Ora, quem daqui quiser tirar uma definição sobre a possibilidade de entendimentos futuros com o Chega, só tem uma solução: admitir que, para este PSD, são possíveis.

 

A curta história do Chega é um jogo contínuo de avanços e recuos no seu posicionamento em questões como o racismo, a xenofobia e o próprio fascismo. O racional que dita o movimento no discurso do partido é o de agradar a um eleitorado que quer ouvir “as verdades” – digo: palavras de discriminação racial ou de exultação aos tempos do colonialismo - e uma lei que as restringe. É por isso que ouvimos Ventura propor o confinamento de ciganos e a seguir proclamar que não é racista. As linhas vermelhas estão estabelecidas. Mas têm servido para saltar à corda.

 

Por outro lado, também usam linguagem subliminar, que em política se chama dog whistle. Mensagens que aparentam ter um determinado conteúdo para a maior parte da população, mas que têm um diferente para a minoria a que se destinam. São os seus destinatários que a entendem. Um exemplo que podemos recordar é a preocupação do Chega com o casamento de menores. Tantos direitos fundamentais violados, e tantos com a bênção do partido, qual a razão destes cuidados? Pois lá está a comunidade cigana na mira.

 

Seguindo essa prática, a direita tradicional também não costuma ser clara quando fala da sua ligação ao partido. Continuam. Um dia poderão dizer: nós assegurámos que não nos associaríamos a políticas xenófobas ou racistas e mantivemos a nossa palavra. Isto enquanto não se coibirão, se os portugueses lhes derem essa oportunidade, de assinar um acordo que trará para a governação um partido desta natureza.

 

Chegámos até aqui como a rã que morre numa panela de água a ferver porque se foi habituando à subida gradual da temperatura. O líder do principal partido da direita portuguesa dança com as palavras, e nós sabemos o que isso significa, mas, na verdade, ninguém reage.

 

Continuemos: “Nós não somos daqueles que ultrapassam muros para abraçar o extremismo, só para sobreviver politicamente.” A piada está feita. São as chamadas frases boomerang. L.M. - que tem vindo a admitir consensos com o Chega como forma de trazer finalmente o PSD à governação – diz que não é desses.

 

'Nós não somos daqueles que ultrapassam muros para abraçar o extremismo, só para sobreviver politicamente.' A piada está feita. São as chamadas frases boomerang. L.M. - que tem admitido consensos com o Chega – diz que não é desses

 

Mas o melhor costuma vir no fim: “Sim, estou a comparar-nos com o PS, com António Costa e os seus delfins.” L.M., em jeito de confissão, admite que se está a comparar com António Costa, mas, na verdade, o que está a fazer é a comparar o Chega com o PCP e com o Bloco.

 

E é uma comparação já conhecida. Reza assim: um é extrema-direita e os outros são extrema-esquerda e, por isso, tem a mesma gravidade quaisquer entendimentos com estes partidos. Está a fazer-se aqui uma equivalência entre um partido que atenta contra os valores fundamentais da democracia e partidos, e forças políticas, que lutaram por ela e que estavam presentes na sua fundação. Nessa altura estiveram do lado certo da história. Hoje lutam pelos direitos dos trabalhadores e pelas causas progressistas. Fazer esta comparação é inaceitável.

 

O PSD pareceu unido.

 

L.M., ao contrário de Rui Rio, chamou todos em vez de dar lugares aos seus apoiantes mais leais. Poderia ser um bom prenúncio para a democracia; uma direita tradicional forte e unida é, nesta fase, uma boa notícia. Só ela pode tirar terreno às novas direitas. Só que não. L.M. anuncia o verbo acreditar, mas a crise de autoestima e a insegurança continuam.

 

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

 

Advogada

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