Montenegro corta com o Chega e tenta pôr fim à regionalização
O PS não terá o “aval” do PSD para o referendo à
regionalização. Vai recuar por não haver consenso?
Ana Sá Lopes
3 de Julho de
2022, 19:15
Em 1996, no
congresso de Santa Maria da Feira, o novo líder Marcelo Rebelo de Sousa tentou
bloquear a regionalização ao sugerir um referendo. Fez-se o referendo e o
resultado foi “não”. 26 anos depois, Luís Montenegro segue os passos de Marcelo
e jura que não apoiará o novo referendo em 2024, a data desejada pelo Governo e
também pelo Presidente da República, que poderia finalmente abrir portas à
regionalização.
O futuro da
regionalização acabou por ficar em causa – e o risco do projecto inscrito há 46
anos na Constituição continuar por cumprir tornou-se enorme. Se o novo líder do
PSD não apoia o referendo, o PS arrisca-se a avançar sozinho? É a pergunta para
os próximos dias. É o próprio Luís Montenegro que concorda que a maioria
absoluta do PS tem toda a legitimidade para aprovar, na Assembleia da
República, o referendo, mas nunca terá “o aval” do PSD. Mas com o PSD contra, o
risco de um novo “não” pode estar a subir exponencialmente. Os argumentos de
Montenegro são a situação internacional.
“Fazer um
referendo neste quadro crítico e delicado seria uma irresponsabilidade, uma
precipitação. Os portugueses não compreenderiam. Tenhamos a noção das
prioridades. Em 24 de Fevereiro não foi só o mundo que mudou (...) Convém ter
os pés bem assentes na terra. Se o Governo compreender o bom senso desta
posição tanto melhor”.
A outra novidade
do discurso do fim do Congresso foi a definição (finalmente) de Montenegro
sobre hipotéticas coligações futuras com o Chega. É uma nota particularmente
importante porque Luís Montenegro – ao contrário de Jorge Moreira da Silva –
sempre foi equívoco sobre a futura relação do PSD com o Chega.
Basicamente,
recusava-se a responder quando lhe perguntavam se, caso um dia fosse preciso, o
“seu” PSD se aliaria ao Chega. Uma vez disse que não, mas durante toda a
campanha eleitoral permitiu que a possibilidade fosse considerada. A declaração
deste domingo arruma a questão, a menos que Montenegro decida qualquer
reviravolta (enfim, acontece): “É por sermos moderados que não somos nem
populistas nem ultraliberais. E muito menos nos associaremos algum dia a
qualquer política xenófoba ou racista. Nós não somos daqueles que ultrapassam
muros para abraçar o extremismo, só para sobreviver politicamente. Sim, estou a
comparar-nos com o PS, com António Costa e os seus delfins”.
Consigo, agora
(nada tinha ficado claro antes) o PSD é uma organização de “antes quebrar que
torcer”: “Jamais abdicarei dos princípios do nosso programa eleitoral para
governar a qualquer custo.” E se “algum dia for confrontado” com alguma aliança
com o Chega (não disse o nome, mas ficou implícito), “o partido pode decidir o
que quiser, mas eu não serei o líder desse governo”.
Foi uma declaração
à altura de Paulo Rangel, que surpreendentemente Luís Montenegro escolheu para
número 2 do partido. Ninguém estava à espera, mas o novo líder, ao ir buscar
para seu número 2 o homem que perdeu por muito pouco para Rui Rio, fez uma
jogada de xadrez interessante, movendo uma espécie de “Torre” para ajudar a
prestigiar a sua liderança e a unir o partido.
A rejeição de
alianças com o Chega serviu de mote para insistir que nunca faria o que fez
Costa quando combinou a “geringonça” com PCP e Bloco de Esquerda. “António
Costa, Pedro Nuno Santos, Fernando Medina, Mariana Vieira da Silva, Ana
Catarina Mendes violaram os princípios do socialismo moderado para evitar a
reforma política do actual primeiro-ministro.” E arrancou uma enorme salva de
palmas quando responsabilizou Costa por se ter apoiado “em partidos pró-russos
no contexto da guerra da Ucrânia”. É um facto que se ainda existisse
“geringonça” no actual contexto a vida de António Costa estaria mais
perturbada.
OPINIÃO
Montenegro e a dança com palavras do fim de semana
Reparem que L.M. não garante que não se associará ao
partido xenófobo e racista, mas sim a políticas xenófobas e racistas.
Carmo Afonso
6 de Julho de
2022, 0:20
https://www.publico.pt/2022/07/06/opiniao/opiniao/montenegro-danca-palavras-fim-semana-2012619
Para alguns, por
aqui no PÚBLICO vi a Ana Sá Lopes, Luís Montenegro (L.M.), neste fim-de-semana,
cortou finalmente com o Chega. Seria uma grande novidade, sobretudo depois de
ter demonstrado tanta ambiguidade relativamente ao partido durante toda a campanha.
Vale então a pena analisar as palavras de L.M., na parte em que se referiu ao
tema, e tirar a limpo se foi mesmo desta que arrumou a questão.
Primeira frase:
“É por sermos moderados que não somos populistas nem ultraliberais.”
Esperavam-se melhores razões para não serem populistas nem ultraliberais. Mas
faz sentido: se são uma coisa, não são outra. Há coisas que são como são e não
tem de se aprofundar tudo como na terapia. Sai uma primeira frase para o vento.
Continuamos: “E
muito menos nos associaremos algum dia a qualquer política xenófoba ou
racista.” Aqui reside a chave. Reparem que L.M. não garante que não se
associará ao partido xenófobo e racista, mas sim a “políticas”. Ora, quem daqui
quiser tirar uma definição sobre a possibilidade de entendimentos futuros com o
Chega, só tem uma solução: admitir que, para este PSD, são possíveis.
A curta história
do Chega é um jogo contínuo de avanços e recuos no seu posicionamento em
questões como o racismo, a xenofobia e o próprio fascismo. O racional que dita
o movimento no discurso do partido é o de agradar a um eleitorado que quer
ouvir “as verdades” – digo: palavras de discriminação racial ou de exultação
aos tempos do colonialismo - e uma lei que as restringe. É por isso que ouvimos
Ventura propor o confinamento de ciganos e a seguir proclamar que não é
racista. As linhas vermelhas estão estabelecidas. Mas têm servido para saltar à
corda.
Por outro lado,
também usam linguagem subliminar, que em política se chama dog whistle.
Mensagens que aparentam ter um determinado conteúdo para a maior parte da
população, mas que têm um diferente para a minoria a que se destinam. São os
seus destinatários que a entendem. Um exemplo que podemos recordar é a
preocupação do Chega com o casamento de menores. Tantos direitos fundamentais
violados, e tantos com a bênção do partido, qual a razão destes cuidados? Pois
lá está a comunidade cigana na mira.
Seguindo essa
prática, a direita tradicional também não costuma ser clara quando fala da sua
ligação ao partido. Continuam. Um dia poderão dizer: nós assegurámos que não
nos associaríamos a políticas xenófobas ou racistas e mantivemos a nossa
palavra. Isto enquanto não se coibirão, se os portugueses lhes derem essa
oportunidade, de assinar um acordo que trará para a governação um partido desta
natureza.
Chegámos até aqui
como a rã que morre numa panela de água a ferver porque se foi habituando à
subida gradual da temperatura. O líder do principal partido da direita
portuguesa dança com as palavras, e nós sabemos o que isso significa, mas, na
verdade, ninguém reage.
Continuemos: “Nós
não somos daqueles que ultrapassam muros para abraçar o extremismo, só para
sobreviver politicamente.” A piada está feita. São as chamadas frases
boomerang. L.M. - que tem vindo a admitir consensos com o Chega como forma de
trazer finalmente o PSD à governação – diz que não é desses.
'Nós não somos daqueles que ultrapassam muros para
abraçar o extremismo, só para sobreviver politicamente.' A piada está feita.
São as chamadas frases boomerang. L.M. - que tem admitido consensos com o Chega
– diz que não é desses
Mas o melhor
costuma vir no fim: “Sim, estou a comparar-nos com o PS, com António Costa e os
seus delfins.” L.M., em jeito de confissão, admite que se está a comparar com
António Costa, mas, na verdade, o que está a fazer é a comparar o Chega com o
PCP e com o Bloco.
E é uma comparação
já conhecida. Reza assim: um é extrema-direita e os outros são extrema-esquerda
e, por isso, tem a mesma gravidade quaisquer entendimentos com estes partidos.
Está a fazer-se aqui uma equivalência entre um partido que atenta contra os
valores fundamentais da democracia e partidos, e forças políticas, que lutaram
por ela e que estavam presentes na sua fundação. Nessa altura estiveram do lado
certo da história. Hoje lutam pelos direitos dos trabalhadores e pelas causas
progressistas. Fazer esta comparação é inaceitável.
O PSD pareceu
unido.
L.M., ao
contrário de Rui Rio, chamou todos em vez de dar lugares aos seus apoiantes
mais leais. Poderia ser um bom prenúncio para a democracia; uma direita
tradicional forte e unida é, nesta fase, uma boa notícia. Só ela pode tirar
terreno às novas direitas. Só que não. L.M. anuncia o verbo acreditar, mas a
crise de autoestima e a insegurança continuam.
A autora é
colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico
Advogada

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