OPINIÃO
Marcelo deu uma notícia bombástica – e ninguém reparou
Este tipo de análise poderia ser feito por um jornalista
de Economia atento, porque os sinais estão todos aí. Mas quem o está a dizer
não é apenas jornalista, nem analista – é o Presidente da República.
João Miguel
Tavares
9 de Julho de
2022, 0:35
A notícia mais
importante do Expresso desta semana está escondida no último parágrafo de um
rodapé de página, o que é uma pena – podia perfeitamente ter dado uma manchete
do jornal. Podemos encontrá-la num tema de duas páginas dedicado ao inevitável
Mário Ferreira, dentro de um texto secundário sobre o empréstimo de 40 milhões
à holding do empresário, intitulado Partidos pedem explicações ao Governo e
questionam papel de Lacerda Machado. No fim desse artigo, encontramos este
subtítulo: Belém estranha PRR nas mãos de grandes empresas. E, a partir daí, é
tudo bom.
Em três pequenos
parágrafos, explica-se – com base em “fonte próxima do Presidente da
República”, ou seja, com base no próprio Marcelo (quase sempre), ou alguém
autorizado por ele (muito de vez em quando) – que há um compromisso público do
Presidente para “vigiar de perto” a aplicação dos milhões da bazuca. A novidade
ainda não está aí. O próprio Expresso escrevera, logo em Março de 2021, após a
vitória nas presidenciais, que Marcelo escolhera a nova equipa de Belém com
“olho na bazuca de Costa”, isto é, com o objectivo assumido de ter ao seu lado
técnicos capazes de “manter uma vigilância apertada” sobre todo o processo de
atribuição de fundos do novo Quadro Comunitário de Apoio e do Plano de
Recuperação e Resiliência (PRR).
A notícia
bombástica vem logo a seguir, e vale a pena citá-la na íntegra: “A forma como
grande parte do dinheiro está a ser alocado – o caso de Mário Ferreira é apenas
um deles – causa estranheza no Palácio de Belém. A ideia, comentam, é que,
estando a execução do PRR atrasada e para não se desperdiçarem milhões, foram
agilizados processos de grandes empresas em vez de aproveitar para capitalizar
as centenas de pequenas e médias empresas (PME) que constituem o essencial do
tecido empresarial português.” E segue-se uma citação, preto no branco, da tal
“fonte próxima” do presidente: “O Governo percebe a urgência de acelerar o PRR,
mas, em vez de se ver investimento público e apoios às PME, essa aceleração
está a beneficiar grandes grupos.”
O problema de Marcelo aparecer todos os dias a falar na
televisão é que o irrelevante se mistura com o relevante, a boca inconsequente
abafa a informação consequente, e a alfinetada confunde-se com a gafe
Sou só eu a
perceber a gravidade desta acusação? Talvez seja bom resumir: 1) Marcelo não
está a gostar da forma como o PRR está a ser aplicado. 2) O caso Mário Ferreira
é apenas um entre outros (parece-me urgente saber quais). 3) O Governo deixou
atrasar a execução do PRR até ficar em risco de desperdiçar milhões. 4) Agora está
a correr atrás do prejuízo distribuindo dinheiro a rodos por grandes grupos
empresariais, porque é muito menos trabalhoso (e muito mais recompensador na
barganha económico-política). 5) As PME, a quem estes fundos seriam muito mais
úteis, ficam (literalmente) a ver passar navios.
Não é coisa
pouca. Este tipo de análise poderia com facilidade ser feito por um jornalista
de Economia atento, porque os sinais estão todos aí. Mas quem o está a dizer
não é apenas jornalista, nem analista – é o Presidente da República. O problema
de Marcelo aparecer todos os dias a falar na televisão é que o irrelevante se
mistura com o relevante, a boca inconsequente abafa a informação consequente, e
a alfinetada confunde-se com a gafe. Mas isto não é uma gafe, não é uma inconsequência
e não é definitivamente uma irrelevância. É o contrário de tudo isso: é o
Presidente da República a dizer-nos que o Governo está a repetir com a “bazuca”
os mesmos desgraçados erros do passado. Iremos nós, enquanto cidadãos e
enquanto sociedade, permitir outra vez que isso aconteça?
O autor é
colunista do PÚBLICO


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