sábado, 9 de julho de 2022

Marcelo deu uma notícia bombástica – e ninguém reparou




OPINIÃO

Marcelo deu uma notícia bombástica – e ninguém reparou

 

Este tipo de análise poderia ser feito por um jornalista de Economia atento, porque os sinais estão todos aí. Mas quem o está a dizer não é apenas jornalista, nem analista – é o Presidente da República.

 

João Miguel Tavares

9 de Julho de 2022, 0:35

https://www.publico.pt/2022/07/09/opiniao/opiniao/marcelo-deu-noticia-bombastica-ninguem-reparou-2013001

 

A notícia mais importante do Expresso desta semana está escondida no último parágrafo de um rodapé de página, o que é uma pena – podia perfeitamente ter dado uma manchete do jornal. Podemos encontrá-la num tema de duas páginas dedicado ao inevitável Mário Ferreira, dentro de um texto secundário sobre o empréstimo de 40 milhões à holding do empresário, intitulado Partidos pedem explicações ao Governo e questionam papel de Lacerda Machado. No fim desse artigo, encontramos este subtítulo: Belém estranha PRR nas mãos de grandes empresas. E, a partir daí, é tudo bom.

 

Em três pequenos parágrafos, explica-se – com base em “fonte próxima do Presidente da República”, ou seja, com base no próprio Marcelo (quase sempre), ou alguém autorizado por ele (muito de vez em quando) – que há um compromisso público do Presidente para “vigiar de perto” a aplicação dos milhões da bazuca. A novidade ainda não está aí. O próprio Expresso escrevera, logo em Março de 2021, após a vitória nas presidenciais, que Marcelo escolhera a nova equipa de Belém com “olho na bazuca de Costa”, isto é, com o objectivo assumido de ter ao seu lado técnicos capazes de “manter uma vigilância apertada” sobre todo o processo de atribuição de fundos do novo Quadro Comunitário de Apoio e do Plano de Recuperação e Resiliência (PRR).

 

A notícia bombástica vem logo a seguir, e vale a pena citá-la na íntegra: “A forma como grande parte do dinheiro está a ser alocado – o caso de Mário Ferreira é apenas um deles – causa estranheza no Palácio de Belém. A ideia, comentam, é que, estando a execução do PRR atrasada e para não se desperdiçarem milhões, foram agilizados processos de grandes empresas em vez de aproveitar para capitalizar as centenas de pequenas e médias empresas (PME) que constituem o essencial do tecido empresarial português.” E segue-se uma citação, preto no branco, da tal “fonte próxima” do presidente: “O Governo percebe a urgência de acelerar o PRR, mas, em vez de se ver investimento público e apoios às PME, essa aceleração está a beneficiar grandes grupos.”

 

O problema de Marcelo aparecer todos os dias a falar na televisão é que o irrelevante se mistura com o relevante, a boca inconsequente abafa a informação consequente, e a alfinetada confunde-se com a gafe

 

Sou só eu a perceber a gravidade desta acusação? Talvez seja bom resumir: 1) Marcelo não está a gostar da forma como o PRR está a ser aplicado. 2) O caso Mário Ferreira é apenas um entre outros (parece-me urgente saber quais). 3) O Governo deixou atrasar a execução do PRR até ficar em risco de desperdiçar milhões. 4) Agora está a correr atrás do prejuízo distribuindo dinheiro a rodos por grandes grupos empresariais, porque é muito menos trabalhoso (e muito mais recompensador na barganha económico-política). 5) As PME, a quem estes fundos seriam muito mais úteis, ficam (literalmente) a ver passar navios.

 

Não é coisa pouca. Este tipo de análise poderia com facilidade ser feito por um jornalista de Economia atento, porque os sinais estão todos aí. Mas quem o está a dizer não é apenas jornalista, nem analista – é o Presidente da República. O problema de Marcelo aparecer todos os dias a falar na televisão é que o irrelevante se mistura com o relevante, a boca inconsequente abafa a informação consequente, e a alfinetada confunde-se com a gafe. Mas isto não é uma gafe, não é uma inconsequência e não é definitivamente uma irrelevância. É o contrário de tudo isso: é o Presidente da República a dizer-nos que o Governo está a repetir com a “bazuca” os mesmos desgraçados erros do passado. Iremos nós, enquanto cidadãos e enquanto sociedade, permitir outra vez que isso aconteça?

 

O autor é colunista do PÚBLICO


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