domingo, 3 de julho de 2022

Inflação põe rendas a caminho da maior subida automática em três décadas

 


Inflação põe rendas a caminho da maior subida automática em três décadas

 

A actualização automática das rendas deverá situar-se entre 5% e 6% em 2023, naquele que será o valor mais elevado desde a década de 1990. Inquilinos querem travão a este aumento, mas Governo recusa.

 

Rafaela Burd Relvas

2 de Julho de 2022, 20:07

https://www.publico.pt/2022/07/02/economia/noticia/inflacao-poe-rendas-caminho-maior-subida-automatica-tres-decadas-2012161

 

Representantes dos inquilinos pedem medidas para travar impacto da subida das rendas

 

As famílias estão prestes a sentir mais um efeito directo da actual escalada da inflação. A manter-se a tendência de subida dos preços que tem sido verificada até agora, tudo aponta para que, no próximo ano, as rendas sofram o aumento automático mais acentuado em quase três décadas.

 

Os representantes dos inquilinos pedem medidas para mitigar o impacto de uma subida desta dimensão, incluindo a imposição de um limite à actualização automática, mas, do lado do Governo, não existe, para já, qualquer intenção de implementar medidas.

 

O valor das rendas dos contratos de arrendamento em vigor é actualizado, anualmente, em função da variação média dos últimos doze meses do índice de preços no consumidor, sem a componente de habitação, registada em Agosto do ano anterior, de acordo com os dados apurados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE).

 

Para se determinar qual o coeficiente de actualização que irá vigorar no próximo ano falta ainda conhecer os dados da inflação de dois meses – Julho e Agosto deste ano –, mas os dados disponibilizados até Junho já permitem antever que a actualização automática das rendas em 2023 deverá ser superior a 5%, naquele que, a confirmar-se, será o valor mais elevado desde a década de 1990.

 

Segundo os dados publicados esta semana pelo INE, a taxa de inflação homóloga, exceptuando a componente de habitação, fixou-se em 9% em Junho, o que colocou a taxa média dos últimos doze meses em 4,1%.

 

Num cenário em que a taxa de inflação homóloga estabilize e se mantenha em 9% em Julho e Agosto, a taxa de inflação média (sem a componente de habitação) dos últimos doze meses será, então, de 5,4% em Agosto. Já num cenário em que a inflação comece a descer, para 8% em Julho e 7% em Agosto, a taxa média dos últimos doze meses seria de 5,1% no mês de referência; se, por outro lado, esta taxa continuasse a subir e chegasse aos 10% em Julho e 11% em Agosto, a taxa anual média seria de 5,6% em Agosto.

 

Travar aumentos

Em qualquer um destes cenários, a taxa anual média apurada em Agosto situa-se entre os 5% e os 6%, o que levará o coeficiente de actualização anual das rendas para os níveis mais elevados em quase 30 anos. Para encontrar uma taxa de variação tão elevada, é preciso recuar até 1994, ano em que as rendas foram actualizadas em 6,75%.

 

E o impacto para os arrendatários será significativo, sobretudo numa altura em que os salários estão longe de acompanhar a evolução dos preços. A título de exemplo, num cenário em que a taxa a considerar para a definição do coeficiente de actualização seja de 5%, uma renda que hoje esteja fixada em 600 euros será actualizada para 630 euros em 2023. Com uma variação de 6%, a mesma renda seria actualizada para 636. Ao final de um ano, são mais 360 euros ou 432 euros, conforme os cenários, de renda a pagar.

 

É neste contexto que os inquilinos têm procurado mobilizar-se na procura de soluções junto do Governo. “É completamente impossível, para a generalidade das famílias, suportar um aumento destes, sem falar das famílias mais carenciadas”, resume Romão Lavadinho, presidente da Associação dos Inquilinos Lisbonenses (AIL).

 

Esta associação defende que o valor das rendas não deverá aumentar mais do que 1% a 2% no próximo ano, uma proposta que já apresentou ao Governo, numa reunião realizada no mês passado.

 

A resposta, contudo, foi negativa. “Tivemos uma reunião com a Secretaria de Estado da Habitação a 8 de Junho e a resposta que nos deram foi que não estava previsto qualquer tipo de medida relacionada com este assunto”, diz Romão Lavadinho.

 

O PÚBLICO contactou o Ministério das Infra-estruturas e da Habitação, questionando sobre se está a acompanhar este assunto e se admite implementar medidas que mitiguem este aumento acentuado das rendas, mas não obteve respostas em tempo útil.

 

Inquilinos podem ser “surpreendidos”

No contexto da pandemia, recorde-se, o Governo criou um regime excepcional de apoio ao arrendamento que permitiu ao Instituto da Habitação e da Reabilitação Urbana (IHRU) conceder empréstimos aos arrendatários que sofressem perdas de rendimentos e que tivessem rendas em atraso. Mais tarde, o Executivo optou por permitir aos inquilinos que beneficiaram deste empréstimo que pedissem a conversão do mesmo em apoio a fundo perdido, ou seja, sem necessidade de devolução.

 

Uma medida semelhante a esta para fazer face aos aumentos que se avizinham é, contudo, rejeitada pelos inquilinos, que lembram que uma parte significativa do público alvo destes apoios acaba por não ser elegível por falta de documentação. “Na pandemia, alertámos as pessoas para que actualizassem toda a documentação necessária para poderem aceder aos apoios. No fim, só cerca de três mil pessoas pediram este apoio e duvido que só três mil tenham precisado dele. O mesmo poderia acontecer agora”, aponta o presidente da AIL, que reitera, assim, a necessidade de travar a actualização das rendas.

 

Até porque, acrescenta, o cenário de agravamento acentuado das rendas poderá vir a “apanhar as pessoas de surpresa”, se o Governo não “chamar à atenção nem implementar as medidas necessárias”. Com Sérgio Aníbal

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