INCÊNDIOS
FLORESTAIS
Cerca de 80% do país em risco “excepcional” de incêndio
até sexta-feira
A temperatura deve chegar aos 47 graus em alguns pontos
do país na quinta-feira e na sexta há 133 concelhos do país em risco máximo.
Mariana Oliveira
12 de Julho de
2022, 7:00
O tempo deu uma
trégua de um dia e a Protecção Civil agradeceu. Esta segunda-feira, os
incêndios rurais acalmaram, mas ninguém baixou a guarda. Percebia-se porquê.
Bastava consultar as previsões meteorológicas, com temperaturas estimadas de 47
graus em alguns pontos do país para quinta-feira, e os mapas de risco de
incêndio no vermelho para perceber que o pior ainda está para vir.
Entre esta terça
e sexta-feira, a situação vai piorando diariamente. E, na véspera do
fim-de-semana, o risco máximo de incêndio atinge um total de 133 concelhos do
país. Os restantes estão praticamente todos em risco “muito elevado”, com
honrosas excepções de alguns municípios do litoral.
“Um contexto
pavoroso”, nas palavras do professor universitário jubilado Francisco Castro
Rego, ex-presidente do Observatório Técnico Independente dos incêndios rurais,
extinto o ano passado, que recusa fazer prognósticos para os próximos dias. O
comandante nacional da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil
(ANEPC), André Fernandes, alertou ao fim da tarde desta segunda-feira para que
nos próximos dias “80% do país estará em risco excepcional, valores que nunca
foram registados”.
Não se estranha,
por isso, que até às 23h59 de sexta-feira o Governo tenha decretado a situação
de contingência em todo o continente, o que implica ter o dispositivo de
combate aos fogos no nível de alerta máximo, dá luz verde à contratação de até
mais 100 equipas de reforço de bombeiros, autoriza a interrupção de férias e
folgas de agentes da GNR e PSP e proíbe o fogo-de-artifício e trabalhos com
recurso a qualquer tipo de maquinaria nos espaços florestais. André Fernandes
admitiu vir a prolongar este nível, se as condições assim o exigirem.
Duarte Caldeira,
presidente do conselho directivo do Centro de Estudos e Intervenção em
Protecção Civil (CEIPC) e antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses,
considera que há razões para algum optimismo. Injectou-se conhecimento no
dispositivo, criando-se, por exemplo, um Núcleo de Apoio à Decisão para Análise
de Incêndios Rurais, na ANEPC. Trata-se de um grupo constituído por elementos
do Grupo de Análise e Uso do Fogo da Força Especial de Protecção Civil (FEPC),
que sugere ao comandante no terreno uma estratégia de combate a seguir, com
base em diversa informação disponível, desde a meteorologia, a ocupação do
solo, a simulação do comportamento do fogo, entre outras variáveis.
Castro Rego
concorda. E sublinha o bom desempenho da FEPC. “A arquitectura é a correcta e
funciona bem. Precisa é de mais músculo, já que a sua dimensão não lhe permite
uma grande expressão no terreno”, avalia. “Em algumas áreas houve melhorias
significativas, mas o contexto meteorológico e da paisagem não se alteraram”,
alerta o universitário reformado, referindo-se à falta de um ordenamento
florestal.
País “mais preparado"
O
primeiro-ministro, António Costa, andou pelo interior a ver o trabalho na
prevenção e no combate aos incêndios e também destacou que o país está mais
preparado para os fogos. Mas frisou que só é possível ter sucesso nesta área se
os cidadãos evitarem comportamentos de risco que possam provocar fogos, como
têm insistido os responsáveis políticos nos últimos dias. “Hoje, o país está
mais preparado do ponto de vista estrutural, mas isso em nada diminui a
responsabilidade de cada um”, afirmou Costa.
A Agência para a
Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) quantifica, num relatório entregue há
um mês no Parlamento, o esforço na limpeza dos terrenos, tanto em áreas
públicas intervencionadas pelo Instituto da Conservação da Natureza e das
Florestas, como em infra-estruturas de interesse público como a
Infra-estruturas de Portugal, a Redes Energéticas Nacionais ou a EDP. “No seu
conjunto foram intervencionados cerca de 88.000 hectares, mais 25% que em 2020,
sendo o valor mais elevado até à data, mantendo-se o objectivo de 300.000
hectares/ano a atingir em 2026”, lê-se no documento.
Mas o relatório
não esconde que isto é só uma gota de água num oceano de território. “Dada a
larga maioria das áreas serem privadas, é essencial mobilizar os proprietários
através de incentivos adequados, para que em áreas específicas (mosaicos)
intensifiquem os desbastes, removam os sobrantes da exploração florestal,
cortem os matos e/ou adoptem a pastorícia ou o fogo controlado para manter a
carga combustível reduzida”, reconhece.
E continua
admitindo uma fragilidade estrutural associada à “fragmentação da propriedade”,
que “limita a acção e adia o potencial produtivo e económico do território”.
Por isso, tenta-se incentivar plataformas de gestão agrupada de proprietários,
com modelos antigos e novos, mas os resultados demoram a surgir e terão sempre
um impacto relativamente reduzido.
“Em termos
financeiros, o sistema atingiu um encargo de 316 milhões de euros [em 2021],
mais 9% que em 2020 e com uma distribuição entre a prevenção e a supressão na
ordem dos 46%-54%, respectivamente”, contabiliza-se.
Dispositivo
reforçado
O dispositivo de
combate foi reforçado em 2021, com mais bombeiros e sapadores, atingindo a
maior dimensão em termos de recursos humanos desde 2017, com cerca de 12.000
elementos, e contou com os 59 meios aéreos geridos pela Força Aérea, sublinha o
documento. Este ano voltou a acontecer o mesmo. Para a fase mais crítica, entre
1 de Julho e 30 de Setembro, estão previstos quase 13 mil operacionais,
apoiados por mais de 2800 veículos e 60 meios aéreos.
A AGIF salienta
ainda que os indicadores de desempenho também são positivos: no ano passado,
93% dos incêndios foram extintos em ataque inicial e com um tempo médio de
chegada ao teatro de operações de 16 minutos. “Outro indicador relevante, e que
se pode associar à qualidade do processo de supressão, é a taxa de reacendimentos,
que viu o seu valor cifrar-se nos 2%, superando assim a meta dos 5%”, sublinha
a agência.
Para Duarte
Caldeira, a estabilização da estrutura do dispositivo de combate é uma boa
notícia. O antigo presidente da Liga acredita que há uma melhor organização no
teatro de operações e melhores ferramentas de apoio à decisão. Só isso,
acredita, fez com que o passado fim-de-semana não tenha trazido mais tragédias
humanas e ambientais. “Há uma evolução por aprendizagem neste cinco anos após
Pedrógão”, sublinha Caldeira, que também foi membro do Observatório Técnico.
Os incêndios que
nos últimos dias lavraram em Carrazeda de Ansiães, Ourém e Pombal queimaram uma
área estimada de 6347 hectares, revelou o comandante nacional da Protecção
Civil, André Fernandes, que, apesar de notar que as três situações estavam “em
resolução”, ainda mantinham nesta segunda-feira ao final da tarde mais de 1100
operacionais no terreno. O tempo não vai ajudar e os reacendimentos são, por
isso, um risco óbvio, admitia. A manutenção das equipas nos teatros de
operações é, para Francisco Castro Rego, um bom sinal. “Antes, depois do
incêndio estar dominado, ia tudo embora”, recorda.
Alertas dos políticos: amadorismo ou pedagogia?
Presidente da
República, primeiro-ministro, ministro da Administração Interna, eurodeputados
são apenas alguns dos responsáveis políticos que nos últimos dias têm repetido
alertas à população, pedindo aos cidadãos que evitem comportamentos de risco
que possam provocar incêndios nos espaços rurais. Não fazer fogo na floresta ou
evitar o uso de máquinas são os conselhos mais repetidos. Mas qual é a eficácia
da mensagem?
Para Duarte
Caldeira, presidente do conselho directivo do Centro de Estudos e Intervenção
em Protecção Civil e antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, a
concentração de alertas nesta altura do ano pode ter um efeito perverso. “As
pessoas ouvem tantas vezes a mesma coisa que desligam”, considera.
Caldeira lamenta
que Portugal não possua um “sistema adulto e robusto de comunicação e percepção
do risco” que sensibilize os cidadãos durante todo o ano para evitarem
comportamentos de risco não só relativamente aos incêndios florestais, mas
também noutras áreas como a segurança rodoviária. “A comunicação de risco tem
que incorporar conhecimento e ter ao seu serviço profissionais, não pode ficar
dependente da maior ou menor sensibilidade dos agentes políticos”, defende.
Sem pôr em causa
a boa vontade dos políticos, sublinha que esta é uma área que não deve ser
compatível com amadorismo, porque não é fácil fazer com que as pessoas
interiorizem determinadas condutas, um esforço que tem que ser contínuo e não
ficar reservado para apenas alguns dias do ano.
Professor do
Instituto Superior de Agronomia durante décadas, e antigo director-geral das
Florestas, Francisco Castro Rego discorda. “O reforço da mensagem é importante
e não me parece excessivo”, considera. Como docente, nunca viu que a
“redundância e a repetição” tivessem um efeito contraproducente, considerando
que a redução de ignições que se tem verificado nos últimos anos mostra que os
cidadãos já apreenderam algumas das lições pretendidas. Mariana Oliveira

Sem comentários:
Enviar um comentário