terça-feira, 12 de julho de 2022

Cerca de 80% do país em risco “excepcional” de incêndio até sexta-feira

 


INCÊNDIOS FLORESTAIS

Cerca de 80% do país em risco “excepcional” de incêndio até sexta-feira

 

A temperatura deve chegar aos 47 graus em alguns pontos do país na quinta-feira e na sexta há 133 concelhos do país em risco máximo.

 

Mariana Oliveira

12 de Julho de 2022, 7:00

https://www.publico.pt/2022/07/12/sociedade/noticia/cerca-80-pais-risco-excepcional-incendio-ate-sextafeira-2013312

 

O tempo deu uma trégua de um dia e a Protecção Civil agradeceu. Esta segunda-feira, os incêndios rurais acalmaram, mas ninguém baixou a guarda. Percebia-se porquê. Bastava consultar as previsões meteorológicas, com temperaturas estimadas de 47 graus em alguns pontos do país para quinta-feira, e os mapas de risco de incêndio no vermelho para perceber que o pior ainda está para vir.

 

Entre esta terça e sexta-feira, a situação vai piorando diariamente. E, na véspera do fim-de-semana, o risco máximo de incêndio atinge um total de 133 concelhos do país. Os restantes estão praticamente todos em risco “muito elevado”, com honrosas excepções de alguns municípios do litoral.

 

“Um contexto pavoroso”, nas palavras do professor universitário jubilado Francisco Castro Rego, ex-presidente do Observatório Técnico Independente dos incêndios rurais, extinto o ano passado, que recusa fazer prognósticos para os próximos dias. O comandante nacional da Autoridade Nacional de Emergência e Protecção Civil (ANEPC), André Fernandes, alertou ao fim da tarde desta segunda-feira para que nos próximos dias “80% do país estará em risco excepcional, valores que nunca foram registados”.

 

Não se estranha, por isso, que até às 23h59 de sexta-feira o Governo tenha decretado a situação de contingência em todo o continente, o que implica ter o dispositivo de combate aos fogos no nível de alerta máximo, dá luz verde à contratação de até mais 100 equipas de reforço de bombeiros, autoriza a interrupção de férias e folgas de agentes da GNR e PSP e proíbe o fogo-de-artifício e trabalhos com recurso a qualquer tipo de maquinaria nos espaços florestais. André Fernandes admitiu vir a prolongar este nível, se as condições assim o exigirem.

 

Duarte Caldeira, presidente do conselho directivo do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil (CEIPC) e antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, considera que há razões para algum optimismo. Injectou-se conhecimento no dispositivo, criando-se, por exemplo, um Núcleo de Apoio à Decisão para Análise de Incêndios Rurais, na ANEPC. Trata-se de um grupo constituído por elementos do Grupo de Análise e Uso do Fogo da Força Especial de Protecção Civil (FEPC), que sugere ao comandante no terreno uma estratégia de combate a seguir, com base em diversa informação disponível, desde a meteorologia, a ocupação do solo, a simulação do comportamento do fogo, entre outras variáveis.

 

Castro Rego concorda. E sublinha o bom desempenho da FEPC. “A arquitectura é a correcta e funciona bem. Precisa é de mais músculo, já que a sua dimensão não lhe permite uma grande expressão no terreno”, avalia. “Em algumas áreas houve melhorias significativas, mas o contexto meteorológico e da paisagem não se alteraram”, alerta o universitário reformado, referindo-se à falta de um ordenamento florestal.

 

País “mais preparado"

O primeiro-ministro, António Costa, andou pelo interior a ver o trabalho na prevenção e no combate aos incêndios e também destacou que o país está mais preparado para os fogos. Mas frisou que só é possível ter sucesso nesta área se os cidadãos evitarem comportamentos de risco que possam provocar fogos, como têm insistido os responsáveis políticos nos últimos dias. “Hoje, o país está mais preparado do ponto de vista estrutural, mas isso em nada diminui a responsabilidade de cada um”, afirmou Costa.

 

A Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais (AGIF) quantifica, num relatório entregue há um mês no Parlamento, o esforço na limpeza dos terrenos, tanto em áreas públicas intervencionadas pelo Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, como em infra-estruturas de interesse público como a Infra-estruturas de Portugal, a Redes Energéticas Nacionais ou a EDP. “No seu conjunto foram intervencionados cerca de 88.000 hectares, mais 25% que em 2020, sendo o valor mais elevado até à data, mantendo-se o objectivo de 300.000 hectares/ano a atingir em 2026”, lê-se no documento.

 

Mas o relatório não esconde que isto é só uma gota de água num oceano de território. “Dada a larga maioria das áreas serem privadas, é essencial mobilizar os proprietários através de incentivos adequados, para que em áreas específicas (mosaicos) intensifiquem os desbastes, removam os sobrantes da exploração florestal, cortem os matos e/ou adoptem a pastorícia ou o fogo controlado para manter a carga combustível reduzida”, reconhece.

 

E continua admitindo uma fragilidade estrutural associada à “fragmentação da propriedade”, que “limita a acção e adia o potencial produtivo e económico do território”. Por isso, tenta-se incentivar plataformas de gestão agrupada de proprietários, com modelos antigos e novos, mas os resultados demoram a surgir e terão sempre um impacto relativamente reduzido.

 

“Em termos financeiros, o sistema atingiu um encargo de 316 milhões de euros [em 2021], mais 9% que em 2020 e com uma distribuição entre a prevenção e a supressão na ordem dos 46%-54%, respectivamente”, contabiliza-se.

 

Dispositivo reforçado

O dispositivo de combate foi reforçado em 2021, com mais bombeiros e sapadores, atingindo a maior dimensão em termos de recursos humanos desde 2017, com cerca de 12.000 elementos, e contou com os 59 meios aéreos geridos pela Força Aérea, sublinha o documento. Este ano voltou a acontecer o mesmo. Para a fase mais crítica, entre 1 de Julho e 30 de Setembro, estão previstos quase 13 mil operacionais, apoiados por mais de 2800 veículos e 60 meios aéreos.

 

A AGIF salienta ainda que os indicadores de desempenho também são positivos: no ano passado, 93% dos incêndios foram extintos em ataque inicial e com um tempo médio de chegada ao teatro de operações de 16 minutos. “Outro indicador relevante, e que se pode associar à qualidade do processo de supressão, é a taxa de reacendimentos, que viu o seu valor cifrar-se nos 2%, superando assim a meta dos 5%”, sublinha a agência.

 

Para Duarte Caldeira, a estabilização da estrutura do dispositivo de combate é uma boa notícia. O antigo presidente da Liga acredita que há uma melhor organização no teatro de operações e melhores ferramentas de apoio à decisão. Só isso, acredita, fez com que o passado fim-de-semana não tenha trazido mais tragédias humanas e ambientais. “Há uma evolução por aprendizagem neste cinco anos após Pedrógão”, sublinha Caldeira, que também foi membro do Observatório Técnico.

 

Os incêndios que nos últimos dias lavraram em Carrazeda de Ansiães, Ourém e Pombal queimaram uma área estimada de 6347 hectares, revelou o comandante nacional da Protecção Civil, André Fernandes, que, apesar de notar que as três situações estavam “em resolução”, ainda mantinham nesta segunda-feira ao final da tarde mais de 1100 operacionais no terreno. O tempo não vai ajudar e os reacendimentos são, por isso, um risco óbvio, admitia. A manutenção das equipas nos teatros de operações é, para Francisco Castro Rego, um bom sinal. “Antes, depois do incêndio estar dominado, ia tudo embora”, recorda.

 

Alertas dos políticos: amadorismo ou pedagogia?

Presidente da República, primeiro-ministro, ministro da Administração Interna, eurodeputados são apenas alguns dos responsáveis políticos que nos últimos dias têm repetido alertas à população, pedindo aos cidadãos que evitem comportamentos de risco que possam provocar incêndios nos espaços rurais. Não fazer fogo na floresta ou evitar o uso de máquinas são os conselhos mais repetidos. Mas qual é a eficácia da mensagem?

 

Para Duarte Caldeira, presidente do conselho directivo do Centro de Estudos e Intervenção em Protecção Civil e antigo presidente da Liga dos Bombeiros Portugueses, a concentração de alertas nesta altura do ano pode ter um efeito perverso. “As pessoas ouvem tantas vezes a mesma coisa que desligam”, considera.

 

Caldeira lamenta que Portugal não possua um “sistema adulto e robusto de comunicação e percepção do risco” que sensibilize os cidadãos durante todo o ano para evitarem comportamentos de risco não só relativamente aos incêndios florestais, mas também noutras áreas como a segurança rodoviária. “A comunicação de risco tem que incorporar conhecimento e ter ao seu serviço profissionais, não pode ficar dependente da maior ou menor sensibilidade dos agentes políticos”, defende.

 

Sem pôr em causa a boa vontade dos políticos, sublinha que esta é uma área que não deve ser compatível com amadorismo, porque não é fácil fazer com que as pessoas interiorizem determinadas condutas, um esforço que tem que ser contínuo e não ficar reservado para apenas alguns dias do ano.

 

Professor do Instituto Superior de Agronomia durante décadas, e antigo director-geral das Florestas, Francisco Castro Rego discorda. “O reforço da mensagem é importante e não me parece excessivo”, considera. Como docente, nunca viu que a “redundância e a repetição” tivessem um efeito contraproducente, considerando que a redução de ignições que se tem verificado nos últimos anos mostra que os cidadãos já apreenderam algumas das lições pretendidas. Mariana Oliveira

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