opinião
Pedro Santos
Guerreiro
Diretor executivo
CNN Portugal
“A violência garante o sucesso”. Como a Uber vence os
fracos usando o seu desespero
Ontem às 21:36
Nem George Orwell
escreveu uma frase tão descaradamente certeira: “A violência garante o
sucesso”. Escreveu-a o presidente executivo da Uber numa mensagem de 2016 agora
tornada pública, como um Nero sobre Paris a arder em confrontos entre
motoristas de táxis e da Uber. E sim, a violência garantiu-lhe o sucesso.
Garantiu o
sucesso da Uber em Paris, como noutras cidades, incluindo Lisboa. O sucesso foi
a destruição de grande parte do mercado dos motoristas de táxi, praticando
deliberadamente preços com prejuízo para rebentar com a concorrência; o sucesso
foi a legalização de uma atividade sem regras laborais nem rastreio de
autoridades; o sucesso foi arregimentar a opinião pública a favor de mudanças.
E antes de responder que isto é concorrência, leia os Uber Files para perceber
que isto foi exatamente o contrário, terão sido sim usadas práticas
anticoncorrenciais. Com o alto patrocínio dos legisladores.
A uberização da
economia
A revolução da Uber na economia foi tão estridente que
cunhou o termo “uberização”, pelos efeitos nefastos sobre funcionários que não
são trabalhadores e capitalistas que não detêm o capital de produção – detêm o
da tecnologia de distribuição – mas apropriam-se das margens, com baixo risco e
sem pagar impostos que outros pagariam.
Isto já sabíamos.
Que a Uber é uma formidável plataforma tecnológica, simples, eficaz e
confiável. Que é um modelo de negócio de baixo risco para os acionistas. Que os
seus motoristas são os proprietários dos veículos (logo, é seu este capital),
suportam os custos de manutenção e todos os riscos, ganham à jorna e sem
contratos de trabalho, sem remunerações mínimas, sem cobertura social para
situações de doença, sem nada. Isto não “é a economia, estúpido”, isto é uma
“economia de estúpidos” e estúpidos são os legisladores sistematicamente
surpreendidos e ultrapassados pelas grandes empresas tecnológicas que entram
nos mercados sem pedir licença, impõe-se às leis nacionais e pagam poucos
impostos.
Sim, isto já
sabíamos. Como sabíamos que estas empresas prevalecem porque os seus serviços
são bons e os clientes gostam. A Uber apequenou o sector dos táxis não só pelo
preço mas também pela qualidade de serviço. Se a opinião pública gosta, o poder
político consente. Porque a opinião pública – ou os clientes – querem preços
baixos e qualidade alta, não se preocupando com as condições ou as regras
daqueles que prestam o serviço. É para isso que existe a lei, para proteger os
invisíveis e os mais fracos. É por isso que existe por exemplo o salário
mínimo, pois haverá sempre desesperados dispostos a trabalhar por uma côdea.
O que não sabíamos é que a Uber alegadamente usou
práticas anticoncorrenciais para entrar nos mercados, fez lóbi para mudar leis,
criou sistemas para fugir ao controlo de autoridades e aproveitou o desespero
dos motoristas de táxi para pôr a opinião pública do seu lado.
“A violência
garante o sucesso”
Voltamos à frase
do título, à mensagem de Travis Kalanick a colegas de administração. A
violência a que se referia não era uma abstração, era um facto. Como recorda o
Washington Post, no ano anterior, em 2015, “mais de 80 motoristas da Uber
tinham sido atacados fisicamente na Europa e dúzias dos seus automóveis tinham
sido destruídos, em confrontos com motoristas de táxi com medo de perder o seu
sustento, à medida que as baixas tarifas da Uber acabavam com a sua indústria”.
Já em 2016, o CEO
da Uber pressionou os seus executivos a montar um contraprotesto pacífico em
Paris, o que levou um administrador a recear pela segurança dos seus motoristas
e pela imagem da Uber, por provocar desacatos. Foi aí que Travis Kalanick
escreveu: “Penso que vale a pena. A violência garante o sucesso.”
A Uber
transformou conscientemente a violência numa arma de negócio. Quando os seus
motoristas eram atacados, a empresa passava detalhes das agressões aos jornais
e ativava lobistas para pressionar políticos a alterar a lei.
Não se trata aqui
de defender os motoristas que usaram a violência como se ela fosse legítima,
mas de reconhecer não apenas o oportunismo da Uber como a instigação de
manifestações, para que a violência vexasse os motoristas de táxi e virasse a
opinião pública e o poder político a seu favor.
Mais: os Uber
Files mostram que a empresa estava pronta para “desligar” o sistema quando as
autoridades investigavam, o que terá feito pelo menos uma vez, em Amesterdão.
Mais ainda: tudo
isto acontecia enquanto a Uber entrava em várias cidades aparentemente usando
práticas próximas do “dumping”, com preços muito baixos e dando até 90% das
tarifas aos motoristas: estavam a comprar mercado, gastando milhões de dólares
para estoirar com a concorrência. Foi aqui que se enganaram milhares de pessoas
que, protestando contra a violência de motoristas de táxis, contra a falta de
concorrência no setor ou contra os preços e qualidade, apoiaram a Uber.
E ainda mais: a
expansão aconteceu em França com o apoio de Emmanuel Macron, então minstro da
Economia, agora apanhado nas trocas de mensagens que mostram que se reuniu
secretamente com a Uber e apoiou a flexibilização de regras depois de
acordá-las com a empresa. Era tratado na Uber como “aliado”.
E Portugal?
"Sexy para os média"
Portugal, como
mercado pequeno, vai sempre atrás. Mas também por cá houve utilização dos
protestos com os mesmos fins.
Em julho de 2015,
o gestor da Uber em Portugal, Rui Bento, terá proposto à casa-mãe “criar uma
ligação direta entre as declarações públicas de violência do presidente da ANTRAL
(Florêncio Almeida) e estas ações [protestos], para degradar a sua imagem
pública”. Em resposta, o assessor de comunicação da Uber pediu que se
investigasse o passado de Florêncio Almeida “para ver se temos alguma coisa
‘sexy’ para os média”.
Em 2018, o sector
foi legalizado, tendo as autoridades entretanto denunciado suspeitas de
violação da lei e o governo já prometido (mas ainda não cumprido) alterações
para evitar que os motoristas sejam os seus próprios patrões, assim fintando o
espírito da lei, e para eventualmente impor o reconhecimento de contratos de
trabalho de motoristas – que são hoje mais de 30 mil no país nestes serviços, a
que somam mais dezenas de milhares em serviços semelhantes de outras
plataformas.
Não é só a Uber
O grande argumento
a favor da Uber, pensávamos, foi a qualidade do seu serviço, os preços mais
baixos e o protesto da opinião pública contra a falta de concorrência no setor
dos táxis. Mas houve mais do que isso, houve lobbying, aproveitamento e até
provocação dos protestos.
A violência das
manifestações serviu consciente e deliberadamente os interesses da empresa para
rebentar com uma indústria e tomar o mercado como seu.
O caso mostra
como as grandes tecnológicas estão muitas jardas à frente de uma Europa incapaz
de liderar na inovação tecnológica e de regulamentar laboral e fiscalmente
estes negócios sem fronteiras. Lembra-se de, há dois anos, a Comissão Europeia
anunciar impostos europeus sobre estas multinacionais? Continuamos sentados à
espera.
O caso mostra
também como a qualidade dos serviços de empresas como a Uber – ou como a Google
e a sua baixa tributação, o Facebook e as suas práticas anticoncorrenciais, a
Apple e a utilização de empresas de mão-de-obra barata, ou o Spotify e a baixa
remuneração de artistas – ganharam um poder acima dos Estados em prejuízo dos
mesmos Estados e dos produtores.
O caso mostra
ainda como a opinião pública é manipulada e talvez aceite o abuso de regras e
de leis se adorar estes serviços.
E mostra como
aqueles que devem proteger os mais fracos, os legisladores, alinham na
desregulamentação do mercado de trabalho e são toureados por empresários muito
mais espertos do que eles.
O caso mostra
finalmente não só que os mais fortes ganham aos mais fracos, mas que os mais
fortes semeiam a discórdia pública entre os mais fracos e a concórdia privada
entre legisladores para destruírem regras e mercados abusando do seu poder.
Como escreve Michel Houellebecq em “Aniquilação”, “a Paul [personagem, um
assessor do governo francês] parecia evidente que o conjunto do sistema iria
desmoronar-se num gigantesco colapso, sem que pudesse prever neste momento em
que data, nem por que modos – mas a data poderia ser antecipada, e os modos
revelarem-se violentos”.
O que é
“sucesso”? Para quem escreveu a frase, sucesso é lucro, se necessário sem
escrúpulo. Para quem a lê, é o quê? Entrar para o lugar de trás de um carro que
pára à porta?
opinion
Pedro Santos
Guerreiro
Executive
Director CNN Portugal
"Violence
guarantees success." How Uber beats the weak using its desperation
Yesterday at
21:36
Nor did George
Orwell write such a blatantly accurate phrase: "Violence guarantees
success." Uber's executive chairman wrote in a 2016 message now made
public, as a Nero about Paris burning in clashes between taxi drivers and Uber.
And yes, violence has guaranteed him success.
It ensured Uber's
success in Paris, as in other cities, including Lisbon. The success was the
destruction of much of the taxi drivers' market, deliberately practicing prices
at a loss to blow up competition; the success was the legalization of an
activity without labor rules or screening of authorities; success was to rally
public opinion in favor of change. And before you answer that this is
competition, read the Uber Files to realize that this was exactly the opposite,
but anti-competitive practices have been used. With the high patronage of
legislators.
The uberization
of the economy
Uber's revolution in the economy was so strident that it
coined the term "uberization," for the harmful effects on employees
who are not workers and capitalists who do not hold the production capital –
they hold the distribution technology – but appropriate the margins, with low
risk and without paying taxes that others would pay.
We already knew
that. That Uber is a formidable technology platform, simple, effective and
reliable. Which is a low-risk business model for shareholders. That their
drivers are the owners of the vehicles (so it is their capital), bear the
maintenance costs and all the risks, gain the newspaper and without employment
contracts, without minimum salaries, without social coverage for situations of
illness, without anything. This is not "the economy, stupid", this is
an "economy of stupid" and stupid are the legislators systematically
surprised and outnumbered by the big technology companies that enter the
markets without asking for a license, impose themselves on national laws and
pay few taxes.
yes, we already
knew that. As we knew that these companies prevail because their services are
good and customers like. Uber has reduced the taxi industry not only for the
price but also for the quality of service. If public opinion likes it,
political power consents. Because public opinion – or customers – want low
prices and high quality, not worrying about the conditions or rules of those
who provide the service. That's what the law is for, to protect the invisible
and the weak. That is why there is, for example, the minimum wage, for there
will always be desperate people willing to work for a court.
What we didn't know is that Uber allegedly used
anti-competitive practices to enter the markets, lobbied to change laws,
created systems to evade authorities and took advantage of the desperation of
taxi drivers to put public opinion on their side.
"Violence
guarantees success"
We return to the
phrase of the title, to Travis Kalanick's message to fellow management. The
violence he was referring to was not an abstraction, it was a fact. As the
Washington Post recalls the previous year, in 2015, "more than 80 Uber
drivers had been physically attacked in Europe and dozens of their cars had
been destroyed in clashes with taxi drivers for fear of losing their livelihood
as Uber's low fares destroyed their industry."
Back in 2016, Uber's
CEO pressured his executives to mount a peaceful counter-protest in Paris,
which led an administrator to fear for the safety of his drivers and Uber's
image for causing contempt. That's when Travis Kalanick wrote, "I think
it's worth it. Violence guarantees success."
Uber has
consciously turned violence into a business weapon. When its drivers were
attacked, the company passed on details of the assaults to newspapers and
called on lobbyists to pressure politicians to change the law.
This is not about
defending drivers who have used violence as legitimate, but of recognizing not
only Uber's opportunism as the instigation of demonstrations, so that violence
would vexat taxi drivers and turn public opinion and political power in their
favor.
What's more, the
Uber Files show that the company was ready to "shut down" the system
when authorities investigated, which it did at least once in Amsterdam.
What's more, all
this was happening as Uber entered several cities apparently using practices
close to dumping, with very low prices and giving up to 90% of fares to
drivers: they were buying market, spending millions of dollars to blow up with
competition. It was here that thousands of people were wrong who, protesting
the violence of taxi drivers, the lack of competition in the industry or
against prices and quality, supported Uber.
What's more, the
expansion took place in France with the support of Emmanuel Macron, then a
minstro of the Economy, now caught up in the exchanges of messages that show that
he met secretly with Uber and supported the easing of rules after agreeing them
with the company. He was treated at Uber as an "ally."
What about
Portugal? "Sexy for the media"
Portugal, as a
small market, always goes after. But there was also the use of protests for the
same purposes.
In July 2015,
Uber's manager in Portugal, Rui Bento, proposed to the parent house "to
create a direct link between the public statements of violence of the president
of ANTRAL (Florêncio Almeida) and these actions [protests], to degrade its
public image". In response, Uber's communications advisor asked florencio
Almeida's past to be investigated "to see if we have anything sexy for the
media."
In 2018, the
sector was legalized, and the authorities meanwhile reported suspected
violations of the law and the government already promised (but not yet
fulfilled) changes to prevent drivers from being their own employers, thus
feigning the spirit of the law, and to eventually impose the recognition of
employment contracts of drivers – which are now more than 30,000 in the country
in these services, to which add up to
tens of thousands more in similar services from other platforms.
It's not just
Uber
The big argument
in favor of Uber, we thought, was the quality of its service, the lower prices
and the public's protest against the lack of competition in the taxi industry.
But there was more than that, there was lobbying, exploitation and even provocation
of the protests.
The violence of
the demonstrations served consciously and deliberately the interests of the
company to blow up an industry and take the market as its own.
The case shows
how big technology is many yards ahead of a Europe unable to lead in
technological innovation and to regulate labor and fiscally these borderless
businesses. Do you remember two years ago the European Commission announced
European taxes on these multinationals? We're still sitting around waiting.
The case also
shows how the quality of services from companies such as Uber – or such as
Google and its low taxation, Facebook and its anti-competitive practices, Apple
and the use of cheap labor companies, or Spotify and the low pay of artists –
have gained power above the states to the detriment of the same states and
producers.
The case also
shows how public opinion is manipulated and perhaps accept the abuse of rules
and laws if you love these services.
And it shows how
those who must protect the weakest, legislators, align in the deregulation of
the labor market and are bullied by entrepreneurs much smarter than them.
The case finally
shows not only that the strongest win the weakest, but that the strongest sow
public discord among the weakest and private concord among legislators to
destroy rules and markets abusing their power. As Michel Houellebecq writes in
"Annihilation," "to Paul [character, an aide to the French
government] it seemed evident that the whole system would collapse into a
gigantic collapse, without being able to predict at this time when it was, nor
by what ways – but the date could be anticipated, and the modes would prove
violent."
What is
"success"? For those who wrote the phrase, success is profit, if
necessary without scruple. Who reads it to, what? Get in the back seat of a car
that stops at the door?


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