Batalha pela ordem mundial
Jorge Almeida
Fernandes
3 de Junho de
2022, 7:15
https://www.publico.pt/2022/06/03/mundo/analise/batalha-ordem-mundial-2008744
A primeira coisa
que se percebeu quando a Rússia invadiu a Ucrânia foi que a guerra não dizia
apenas respeito a Kiev. O que estava em causa era o futuro do sistema
internacional e da ordem mundial. Moscovo, apoiada por Pequim, desafiava a Pax
Americana, a ordem mundial liberal liderada pelos Estados Unidos desde o fim da
Guerra Fria.
Os combates
travam-se na Ucrânia, mas têm uma repercussão mundial. Do futuro, pouco se pode
dizer. O que hoje se discute é a marcha da guerra, que voltou a endurecer, e o
longínquo quadro de uma negociação de paz. O modo de resolução da guerra, isto
é, um acordo de paz, é ainda um enigma. Ninguém sabe o que quer ou pode
alcançar, dada a incerteza dos combates e das sanções internacionais.
Desenham-se
cenários, com diferentes consequências geopolíticas. Um analista russo, Andrey
Kortunov, avança três hipóteses. O triunfo da Ucrânia levaria a uma “Rússia
domesticada” e permitiria ao Ocidente “lidar mais facilmente com a China”.
Admite também uma “desescalada” por exaustão de ambas as partes. Uma solução
“menos imperfeita”, mais equilibrada para Rússia do ponto de vista do autor,
abriria um horizonte diferente: “Se um acordo com Putin for possível, um acordo
com Xi Jinping seria a continuação lógica”. Se o conflito se prolongar, podemos
esperar “mais caos nos próximos anos”. Não são cenários muito originais.
Tanto a China
como a Rússia estão determinados a criar uma ordem global pós-ocidental. Por
sua vez, os americanos desistiram de ser “o polícia do mundo” mas não abdicaram
da sua vontade de hegemonia. Depois de terem voltado as suas prioridades para o
Indo-Pacífico, os EUA regressam parcialmente à Europa e Moscovo sofre um
desaire com o reforço da NATO, que queria esvaziar, na Europa de Leste.
A China, escreve
a analista Angela Stent, da Brookings Institution, “quer uma ordem em que tenha
um maior papel na definição da agenda mundial”. Ao contrário, a Rússia de
Putin, potência revisionista, aposta no arbítrio e numa ordem com menos regras.
Os analistas
adivinham um declínio do estatuto internacional da Rússia, independentemente do
desfecho militar da guerra. Moscovo sobrestimou a sua força. Os erros de
cálculo de Vladimir Putin e as primeiras semanas de guerra exerceram uma
influência devastadora. Moscovo aparece doravante como “sócio menor” de Pequim.
Note-se que
Washington e Pequim não se quiseram imiscuir directamente na guerra ucraniana.
Ambas as superpotências lêem o conflito em termos de ordem e equilíbrios
mundiais.
O Ocidente e o
“Resto”
Angela Stent abre
uma outra pista ao analisar a reacção do “Resto”, do mundo não ocidental, sobre
as sanções e a condenação da invasão. Putin enganou-se em quase tudo, excepto
num ponto: se a Rússia ficou isolada no mundo ocidental, não foi condenada nem
sancionada pelo mundo não ocidental. Em parte, isto deve-se ao longo
investimento diplomático da Rússia no Médio Oriente, na Ásia, na América Latina
e na África.
Quer isto dizer
que o mundo não esteve unido na condenação da agressão russa. “A relutância do
‘Resto’ em condenar a Rússia de Putin irá complicar a capacidade do Ocidente em
criar laços e aliados, inclusive quando a guerra estivar terminada”, afirma
Stent. É um factor que no futuro pesará. O “Resto” representa mais de metade da
população do mundo.
Uns países reagem
por uma histórica alergia aos Estados Unidos, outros, aliados dos americanos,
por razões nacionais. A Rússia tem intensas relações com todos os países do
Médio Oriente, desde a Síria que controla à sunita Arábia Saudita ou ao xiita
Irão. Mas também não foi condenada pelos Emirados Árabes Unidos, pelo Egipto ou
por Israel. Porquê Israel? Os iranianos estão na Síria, mas quem manda são os
russos, e Israel quer poder agir na Síria sem pôr em perigo a sua fronteira
norte. Na América Latina, Bolsonaro gosta de Putin e o México recusou uma
mensagem comum da América do Norte, com os EUA e o Canadá.
A Índia é caso
especial. Por um lado, participa na Quadrilateral (Quad) com os Estados Unidos,
Japão e Austrália. Por outro, precisa do velho aliado russo para equilibrar as
relações com a China, a razão básica da sua opção. Mas também há interesses:
indianos e chineses contam adquirir o petróleo russo a preço “especial”. A
Rússia, embora perdendo estatuto, não é um “pária mundial”, graças à China e à
Índia.
Embora
indiferentes ou amigos de Moscovo, são os países da África e do Médio Oriente
os que mais depressa vão sofrer o efeito do bloqueio do trigo ucraniano pelos
russos, ou seja, a fome. Esta guerra tem múltiplas frentes.
A fadiga de
guerra
As guerras acabam
pela derrota de uma das partes ou quando ambas percebem que nada ganham em
continuar os combates. No fim, há negociações. O panorama não é optimista. A
Rússia quer alargar a ocupação de territórios, para os anexar ou para reforçar
a sua posição negocial. Putin tem de arranjar uma qualquer proclamação de
vitória.
A posição de
Zelensky é muito difícil. Para negociar, será pressionado pelos países amigos a
fazer concessões territoriais, o que é difícil fazer aceitar aos ucranianos. De
resto, trava-se uma prova de força ou de resistência. “A Rússia não está em
condições de combater muito tempo, porque se esgotam os recursos humanos”, diz
um analista russo. Por sua vez, Moscovo aposta na “fadiga de guerra” que se
começa a manifestar no Ocidente, escreve o Financial Times.
Enfim, o desfecho
desta guerra determinará a ordem mundial e, até, alguns princípios
civilizacionais.


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