opinião
Pedro Santos Guerreiro
Diretor executivo CNN Portugal
Um banqueiro sem peruca loira nem rabo de cavalo não é
natural
Ontem às 15:07
O caso João Rendeiro precisa de Restaurador Olex, para
regressar às cores primitivas da verdade
“Um homem corre
na noite
É uma imagem
banal
Por que foge? De
onde vem?
Por que olha para
trás inquietado?
Será soldado?
Vagabundo?
Criminoso?
Ratoneiro?”
Será banqueiro,
condenado, meliante, será Rendeiro?
“Será apenas o
primeiro
Dos que vão fugir
com ele?
Foge para salvar
a pele? Só a sua?”
Estas letras, da música “O Fugitivo”, de
Sérgio Godinho, são aqui dedicadas a João Rendeiro, depois da entrevista do
fundador do Banco Privado Português à CNN Portugal, dada atrás de um
computador, em certa parte incerta, “é óbvio que não estou no Belize”, ele está
onde faz uma vida “perfeitamente normal”, vai a restaurantes, ginásio, praias,
“não usa peruca nem rabo de cavalo” porque não disfarça, um homem que nem
precisa de muito para viver e vive “do seu trabalho”, que trabalho?, “operações
internacionais”, assessora agora um negócio de 500 milhões de dólares, sabe-se
lá para quem, sabe-se lá que nacionalidades ele passaporta ou para que país se
pré-evadiu da prisão, sabe-se lá onde é aquele quarto de cortinados cerrados,
sabe-se lá se é noite ou se é dia.
“Podia ser em
Madrid
Ou Joanesburgo,
ou em São Paulo
Ou Budapeste,
Nova Iorque
Ou Hollywood
Ou é claro em
Portugal”
Na prisão não há
cortinados. Na prisão não há condenados. Não nesta, a prisão portuguesa onde
deveria arrostar João Rendeiro, condenado em três processos, um dos quais com
trânsito em julgado depois de esgotados os recursos do chão até tecto jurídico
português.
Falsidade
informática e falsificação de documento querem dizer aldrabar as contas do BPP
e para isso já não há apelo, há cinco anos e oito meses de pena por cumprir.
Recursos há ainda para as condenações por burla, fraude, branqueamento de
capitais, abuso de confiança, que querem dizer coisas piores: enganar clientes
e sacar dinheiro nem sequer declarado ao Fisco.
Rendeiro tem
razão: a justiça é lenta, lentíssima, e outros como Ricardo Salgado envelhecem
ao sol que amarelece as folhas dos autos. Já passaram mais de sete anos desde o
colapso do BES e o processo é tão grande e tão complexo que um dia poderemos
acordar do delírio de acreditar que o processo será julgado em vida útil, e
vê-lo esmaecer de inútil. Se caso BPP demorou tantos anos – e mesmo assim foi o
primeiro -, quanto durarão os demais? De mais.
Em mais de uma
década de escândalos financeiros, o BPP foi o caso menos complexo e talvez
menos grave. Menos grave que o Banif, muito menos grave do que o BPN,
muitíssimo menos grave do que o do universo Espírito Santo. Mas é grave. Tão
grave que houve perdas de clientes, clientes de produtos de capital garantido que
acabaram a de mãos vazias à porta do banco. Tão grave que ditou cadeia
João Rendeiro
pode processar o Estado Português nos tribunais internacionais, é um direito
que lhe assiste. Pode pedir indultos ao Presidente da República, que em cinco
minutos lhe dá uma nega em direto, em termos aliás imprecisos. Pode insistir na
inocência e emocionar-se quando fala da sua mulher, que gosta da sua conchinha
e dos seus amores de estimação. Mas não pode fazer-se passar pelo que não é -
Rendeiro é um criminoso, um criminoso condenado, foragido e com mandados de
captura internacionais. Um criminoso que não pode criar ficções sobre
“condenações simples” e “apelos”, justificar-se com “legítima defesa” para
fugir ou vender obras de arte arrestadas, criar uma realidade paralela lá no
paralelo e meridiano onde se faz de exiliado quando é asilado de país
monoparental sem extradição.
É uma ficção.
“Um homem luta
contra o sangue que derrama e diz: valeu a pena?”, pergunta ainda Sérgio
Godinho na música do álbum “Na Vida Real”, de 1986. Por esse ano havia um
anúncio do Restaurador Olex, que usando frases hoje inaceitáveis promovia um
produto que retirava pinturas de cabelos restituindo-lhes “a sua cor
primitiva". A cor primitiva do caso BPP data dos idos de 2008, quando o
banco quebrou. É a cor da verdade. É a cor dos processos julgados após todos os
recursos.
Está tudo
esgotado. Tempo e paciência. Mas há descaramento para ficcionar. E há
uma cela vazia.
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