BAIRROS
No Príncipe Real, há uma guerra de vizinhos entre a
memória e a moda
Uma associação acabada de fundar diz querer devolver o
sentido de vizinhança a um bairro histórico de Lisboa, mas os vizinhos mais
antigos desconfiam das razões da participação de imobiliárias. É a
gentrificação, versão 2.0.
por Ana da Cunha
22.11.2021
Ouvem-se os
acordes de uma guitarra. O ritmo da Bossa Nova que começa a pulsar camuflando
as conversas em línguas do cinema. Há um ambiente cosmopolita, na esplanada do
Príncipe Real. O sol aquece a esplanada, há gente bonita e de todas as cores.
Mas num banco lateral, Maria Nazaré Alcântara, moradora no bairro há dezenas de
anos, encontra razões de protesto: “Ouvem-se todas as línguas menos a nossa”.
Terá razão na
rezinguice? Bem, se pensarmos que esta moradora do Príncipe Real, que já lá
vive há mais de 30 anos, tem até ao final do ano para abandonar a sua casa –
ordens do senhorio que vai reabilitar o imóvel para vender – percebemos melhor
o conflito e as suas razões. Nos livros de urbanismo chama-se gentrificação.
Ela explica melhor em palavras lisboetas: “Aqui existe a desunião e o correr
com os moradores”.
Recentemente,
houve mais um episódio na história socio-cultural de um bairro que a tem já
longa. Foi lançada no dia 9 de outubro a Príncipe + Real, uma associação que
diz querer reunir moradores e comerciantes com a ideia de trabalhar a coesão do
bairro de forma a recuperar a sua identidade. Mas o facto de uma das sócias da
associação ser a EastBanc, imobiliária que nos últimos anos tem investido na
zona, contribuindo para a mudança para bairro de luxo, e o Presidente ser Tiago
Eiró, ele mesmo o CEO desta empresa, levantou celeuma.
“Esta associação
não é um gato com rabo escondido. É clara: está ligada à EastBanc. Acontece que
esta é a promotora da gentrificação”, acusa Jorge Pinto, morador do bairro e um
dos responsáveis pelo grupo “Amigos do Príncipe Real” que, não sendo uma
associação formal, dinamiza um grupo no Facebook e um blogue há alguns anos.
É interessante
que um grupo imobiliário que tem promovido a reabilitação de edifícios de luxo
tenha também a necessidade de promover a “autenticidade do bairro”? É o
suficiente para merecer um olhar atento. Se até uma empresa imobiliária como a
EastBanc o faz quer dizer que a questão da gentrificação excessiva estará a
afetar o próprio valor do bairro, mesmo imobiliário.
O geógrafo Luís
Mendes, do Centro de Estudos Geográficos da Universidade de Lisboa,
especialista em gentrificação e regeneração urbana, aponta para uma certa moda
do ativismo: com o objetivo de “gerar algum diálogo com a comunidade”, há uma
“estratégia para garantir que os processos de mudança se fazem com maior
pacifismo, sem gerar muita resistência”.
E o geógrafo tem
uma explicação para o “fenómeno” da procura da autenticidade. “Os novos
moradores, os novos públicos destes bairros, procuram alguma genuinidade e
autenticidade de convívio”, diz. “Mas o bairro tem vindo a tornar-se apenas um
cenário, um palco da sua vivência, não há um entrosamento. Os nómadas digitais,
por exemplo, são muito sensíveis ao autêntico, ao genuíno. Mas no entanto não
se misturam nos espaços populares da sociedade”.
O geógrafo
refere-se, pois, aos novos moradores do bairro do Príncipe Real, que escolhem
esta zona pelas suas características identificativas. Frequentam a esplanada,
ouvem música, passeiam pelo bairro mas acabam por não participar do “espírito
de comunidade”: não têm contacto com os velhos moradores… até porque são cada
vez mais escassos.
Ora a Príncipe +
Real apresenta como principal objetivo esse mesmo: unir novos e velhos,
recuperando-se o tão procurado sentido de vizinhança.
Mas os mais
velhos não acharam piada à ideia: dizem que não foram consultados, para já. E
duvidam das intenções da associação, algo que revelaram nos comentários a uma
primeira notícia da Mensagem sobre o assunto.
Criar sinergias
entre associações
Um desses grupos
é o dos “Amigos do Príncipe Real” que já existe desde os anos 2000 e que se tornou
mais conhecido entre 2013 e 2014, quando conseguiu unir os moradores contra a
construção de um parque de estacionamento subterrâneo a contornar a estrutura
do jardim, que, diziam, poria em causa o Reservatório da Patriarcal, um núcleo
do Aqueduto das Águas Livres classificado como Monumento Nacional. Foi graças a
um abaixo-assinado por eles promovido que se impediu a sua construção. Para
além deles, existe ainda o grupo “Liga Amigos Jardim Botânico”, que diz também
não ter sido consultado pela nova associação – daí a quezília.
Tiago Eiró, o CEO
da EastBanc e Presidente da Príncipe + Real, diz que o propósito da associação
é “falar abertamente com outras organizações e iniciativas que também querem o
melhor para o bairro e para os seus residentes”. E não exclui (muito pelo
contrário) dialogar com os grupos já existentes: “Certamente que, no seu
percurso, a Associação ‘Príncipe + Real’ vai colaborar com outras organizações
e entidades porque, sem sinergias e união, não conseguiremos cumprir com a nossa
missão de tornar o nosso bairro um sítio melhor para todos”.
A EastBanc: de
Georgetown a Lisboa
A Eastbanc tem
tido uma intervenção forte no Príncipe Real. Logo ao virar na Avenida da
Liberdade para a Praça da Alegria vê-se a sua última obra, um antigo edifício
do século XIX – em tempos residência da família Keil e onde, mais tarde,
funcionaria uma empresa de venda de componentes eletrónicos, a DIMOFEL –
completamente vedado com andaimes. Será, em breve, o Alegria One, edifício a
cargo da JLL e da Cushman & Wakefield, que conta com 2 800 metros quadrados
de área total de construção e sete pisos. A assinatura do empreendimento é do
arquiteto Eduardo Souto Moura e o investimento foi de 11 milhões.
É o mais recente
símbolo da EastBanc e da sua influência no bairro.
O Alegria One,
entre a Avenida da Liberdade e a Praça da Alegria. Foto: Alegria One
A EastBanc não se
apresenta no mercado como uma simples imobiliária: há toda uma filosofia por
detrás da marca e é essa que se está a replicar no Príncipe Real, depois de
Georgetown, bairro da cidade americana de Washington, onde Anthony Lanier
conseguiu tornar trendy uma área “moribunda”, nas palavras do CEO português
numa entrevista ao podcast HomeHunting
A mudança, em
Lisboa, não será tão grande, até porque a Eastbanc não tem o mesmo nível de
propriedades que tinha em Georgetown, mas as transformações são visíveis.
Com carreira
começada na Áustria, foi em Washington que Anthony Lanier, o fundador da
Eastbanc, começou a levar a cabo a reabilitação de bairros americanos. Em 2005,
um artigo do The New York Times descrevia-o como “um autêntico pioneiro, alguém
que antecipou não só a ressurgência do mercado imobiliário da cidade mas também
da popularidade crescente das compras feitas a pé”. No fundo, era o regresso da
cidade de proximidade – mas com todos os confortos do luxo.
Essa também foi a
história da modernização de Georgetown: era uma cidade portuária independente
até 1871 quando se tornou uma área em Washington, e mesmo morando aqui muitas
figuras de poder, a maioria das suas compras eram feitas nos malls dos
subúrbios. Nos anos 70, como conta o The New York Times, o lado mais comercial
de Georgetown, pela M Street e a Winscon Avenue, começara a declinar. Atrás
desta M Street, ficava a Cady’s Alley, com 16 edifícios. E foi precisamente
nessa área que Lanier começou a apostar, depois de, em 1996, ter comprado e
renovado pequenos edifícios comerciais no seu bairro. Em 1998, comprava o
primeiro edifício na Cady’s Alley, hoje absolutamente transformada.
O objetivo era
criar uma rua de comércio inspirada nas grandes cidades europeias. Mas não sem
negociar com os “preservacionistas”, como lhes chamam nos Estados Unidos –
aqueles que querem preservar os edifícios históricos de uma cidade – que lhe
deram permissão para reabilitar oito edifícios virados para a M Street como uma
só estrutura, se, em troca, Lanier preservasse 70% das paredes exteriores
originais desses mesmos edifícios, como explica o The New York Times.
Foi o que
aconteceu. E o resultado final é uma Cady’s Alley que hoje combina diferentes
estilos e materiais arquitetónicos e que convenceu até os mais críticos das
transformações. Entretanto, a EastBanc já se estendeu para outras áreas de
Washington.
A empresa
EastBanc chegou a Portugal há 20 anos e escolheu o Príncipe Real como a sua
área de atuação – pela beleza e potencial óbvios. Com um portfolio de cerca de
40 mil metros quadrados, em vários segmentos de mercado (a maioria espaços de
retalho e escritórios), já comprou mais de 20 edifícios, entre eles o Palacete
Ribeiro da Cunha (atual EmbaiXada). Este é, segundo Tiago Eiró, o exemplo
máximo da “revitalização” que pretende fazer ao bairro. A sua mão esteve também
no Palacete Faria, nos restaurantes Pizzaria Zero Zero, Atalho, Gin Lovers,
Tapisco (Chef Henrique Sá Pessoa), no bar Pavilhão Chinês, nas lojas Barbour e
até mesmo no restaurante de Jamie Oliver.
No fundo, é este
mesmo modelo que tem vindo a ser aplicado no Príncipe Real, nota-se à vista. E
Luís Mendes explica o que se passou aqui: “As imobiliárias por vezes acabam por
ser atores fundamentais suportadas pelos executivos que valorizam o que estas
podem fazer em termos de planeamento urbano. E acabam por quase substituir a
Câmara em planos de intervenção urbana”. A proposta da nova associação inclui
precisamente a substituição das autoridades locais em alguns assuntos de
resolução pelos vizinhos.
Lojas, lojas,
lojas
O modelo americano
é um dos motivos pelos quais o bairro tem atraído tanto turismo e expatriados
em busca de um bairro com estilo e modernidade e conforto. Basta avançar pela
rua da Escola Politécnica para se ter uma ideia desta “revitalização urbana”: a
cada passo, lojas de luxo, brunches, cafés americanizados…
Mas o que agrada
aos turistas e estrangeiros levanta dúvidas aos moradores que parecem preferir
o tradicional, embora menos moderno, comércio de bairro antigo. “A zona perdeu
as suas características”, acusa Manuela Soares Correia.
Por exemplo? O
fim da tabacaria-papelaria do senhor Amândio. “Já não há uma tabacaria na parte
de cima do bairro”, lamenta a vizinha.
“Gentrificação comercial”,
é assim que Luís Mendes define a transformação do Príncipe Real. “A estrutura
comercial está orientada para suprir as necessidades do turista. Os
estabelecimentos comerciais enobrecem-se, estetizam-se, ganham outras
características, há um aburguesamento”.
E, de facto, a
palavra inglesa “gentrification” remete para isso mesmo: um processo através do
qual uma área se torna mais “nobre”.
Esta é uma
realidade que Tiago Eiró não ignora. Diz que para se conseguir a “revitalização
urbana”, há que manter o que ainda faz sentido no bairro, mas sempre
“renovando, e acrescentando qualidade”. E dá particular destaque a essa mesma
palavra numa entrevista à Homehunting. “Se olharmos para outros bairros de
Lisboa, falta-lhes comércio. Esta lógica de complementaridade é fundamental.
Damos valor ao comércio, e ao ter cá moradores, turistas. O segredo está no
equilíbrio.”
As lojas são,
portanto, fundamentais, mas também aqui o equilíbrio é algo que muito
dificilmente se conseguirá deixando o mercado funcionar, apenas, sem regras,
como explica o projeto da cidade de 15 minutos, em Paris: a Câmara comprou mais
62 mil lojas a privados e pô-las a concurso para usos especificados.
Se isso não
acontecer é bem possível que o resultado sejam as habituais consequências da
modernização numa zona de grande pressão imobiliária: o surgimento das novas
lojas turísticas que substituem muitas lojas de bens essenciais, que acompanha
o aumento de rendas, despejos, a proliferação dos alojamentos locais (há
registo de 3542 AL na freguesia da Misericórdia).
“Os
empreendimentos no Príncipe Real são positivos para a sociedade, mas aumentam
os valores do imobiliário e estão na causa dos despejos”, diz Luís Mendes.
Com a chegada de
um novo executivo à Câmara de Lisboa, o geógrafo prevê dois possíveis cenários:
“Se for mais neoliberal, vamos ter uma tendência de desigualdades e de
desentendimentos entre a oferta e a procura. Se tivermos um planeamento mais
regulado, em que efetivamente o executivo e o departamento do urbanismo tomem o
pulso da situação, com uma política de comércio urbano, poderá haver um
convívio equilibrado das funções residenciais e comerciais”, explica. E propõe
uma nova lei de arrendamento, que permita proteger as rendas e revitalizar o
comércio tradicional.
Unir a vizinhança
no bairro da moda: utopia ou realidade?
É assim que está
o Príncipe Real. Debaixo das avalanches turísticas das últimas semanas (antes
que regresse algum tipo de restrições) e do rame rame quotidiano do bairro, há
uma certa tensão entre os movimentos de vizinhos antigos, e os dos novos
habitantes do bairro.
No evento de
lançamento da Príncipe + Real , do dia 9 de outubro, havia muitos estrangeiros.
“Não vi o senhor José da tasca, nem a Dona Quina da mercearia, nem a dona
Olívia da florista”, diz Manuela Soares Correia, sócia fundadora dos “Amigos do
Príncipe Real”. “Se for para coabitar com equilíbrio, ótimo, se for para manter
como está, péssimo, se for para continuar o que se está a passar, não vai haver
paz, vai haver guerra no bairro”, ameaça.
Patrícia Luz,
responsável pela Príncipe + Real, contrapõe numa só frase: “A nossa ideia é
começar do zero e fazer um trabalho de conjunto”. E, quanto à presença da
EastBanc, argumenta: “É uma sócia como qualquer outra pessoa, não tem
ponderação maior do que o senhor José que vive no bairro há anos”.
O Príncipe Real
está menos gentrificado do que pode parece à primeira vista. Quem quiser
encontrar um bairro antigo de Lisboa basta ir todos os dias às mesas do jardim
onde o mesmo grupo de velhotes joga às cartas. António Alberto (conhecido por
“Benfica” pelos amigos por razões óbvias) pousa as cartas para contar como a
filha, tal como os filhos do seu amigo Joaquim Pires, se viram obrigados a
procurar onde morar fora de Lisboa face às rendas exorbitantes.
Num dos bancos, a
vizinha Isabel Ferreira lamenta a evolução do bairro: “Esse tipo de iniciativas
é para os turistas que passam”. Maria Nazaré queixa-se de que “não há vizinhos,
é só estrangeirada”. A amiga que se senta ao seu lado concorda com a cabeça.
Ideias feitas ou
sentimentos fortes?
“Eu não sou
antiquado, mas gostava mais do antigamente”, diz “Benfica”. “Havia mais
convivência, mais amizades. As portas estavam sempre abertas, partilhava-se
tudo”. Este é talvez o espírito do bairro que mais muda, com a saída dos
antigos e a chegada de novos habitantes. É uma história mais velha do que as
cidades, provavelmente. Já lá vão os verões em que a “gente nova” de Lisboa se
encontrava no Príncipe Real para namorar, como recorda Joaquim Pires. “Isto
agora é só velhos… e turistas”.
Tiago Eiró
recusa-se a aceitar isso. E acha que é possível mudar com a nova associação: “O
sentimento de vizinhança vai depender muito da forma como formos capazes de
unir residentes e moradores, e isso é um dos nossos objetivos e que queremos
materializar através de ações e iniciativas com as quais o bairro se
identifique e que acrescentem valor, não só ao Príncipe Real, mas
principalmente às pessoas que ‘fazem o bairro”, explica, por escrito, em
resposta à Mensagem.
“Com a Associação
Príncipe + Real, criamos uma estrutura que está atenta e participa na
manutenção destes equilíbrios do bairro e na sua evolução. E a pandemia veio
reforçar ainda mais esta necessidade porque as pessoas passaram mais a viver o
seu bairro, a sentir na pele a importância da proximidade”, conclui.
Será possível
ainda reverter o paradigma a que todos parecem resignados por ali? Para já, a
associação diz não ter uma “agenda estabelecida” – tudo dependerá daqueles que
aderirem e do que fizerem.
Patrícia Luz, a
responsável da nova associação, deixa bem claro que, estando consciente das
“batalhas dos moradores”, espera que estes se associem e contribuam com os seus
pontos de vista. “Temos os eixos de intervenção e, dentro disto, temos tudo
para construir”.
Há quem esteja
otimista. Mariana Carvalho vive há 50 anos na zona e continua contente com o
seu bairro. “Eu acho que ainda existe espírito de vizinhança e que é possível
estabelecer diálogo entre a ‘gente nova’ que vai surgindo e ‘os mais
bairristas’, que ainda não desapareceram por completo”.
Estará aí o
segredo para o futuro? Na verdade, que haja uma nova associação a pensar no
mesmo que as antigas pode trazer algo de novo. Mas nada irá mudar se não houver
políticas públicas ou regras que impliquem novos usos ou impeçam os despejos,
como defende Luís Mendes.
Nesta que é uma
das zonas mais bonitas da cidade, a gentrificação não começou hoje. Na esplanada
do Príncipe Real, há copos com líquidos coloridos e personagens vindas de todos
os cantos do mundo. Um casal de turistas consulta um mapa da cidade e amigas
francesas riem-se das memórias já criadas numa Lisboa que está na moda. Além da
banda sonora que faz os pés dançar debaixo das mesas, há senhoras com sotaque
lisboeta a conversar, jovens a fumar ao som de hip-hop. Lisboa está a mudar, o
Príncipe Real está a mudar. O que será o futuro de ambos, está na mão de todos,
dos seus políticos e dos seus habitantes.
ANA DA CUNHA
Nasceu no Porto,
há 24 anos, mas desde 2019 que faz do Alfa Pendular a sua casa. Em Lisboa,
descobriu o amor às histórias, ouvindo-as e contando-as na Avenida de Berna.
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