EDITORIAL
A Europa para além das “contas certas”
A actual consulta em curso sobre a reforma do PEC é
crucial para o relançamento europeu pós-pandemia. Falharemos se nos limitarmos
a regressar ao velho mundo da mais pura ortodoxia orçamental.
Tiago Luz Pedro
22 de Novembro de
2021, 6:05
https://www.publico.pt/2021/11/22/economia/editorial/europa-alem-contas-certas-1985849
A Comissão
Europeia tem actualmente em curso uma consulta pública que é crucial para o
futuro do projecto europeu e que interessa sobremaneira a Portugal. Trata-se da
revisão do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC) e das suas célebres regras
de ouro, que limitam o défice a 3% do valor do PIB e a dívida a 60%, numa
altura que a Europa se vai reerguendo dos escombros da crise pandémica e
prepara o grande salto em frente das transições ecológica e digital.
Faz sentido que
um pacto com regras do outro século, como o definiu Emmanuel Macron, continue a
nortear as políticas orçamentais europeias? Não faz. De 1997, quando o PEC foi
instituído, a 2021, a Europa enfrentou duas crises colossais e as respostas
radicalmente diversas que lhes demos podem ajudar a situar o debate em curso.
Fracassámos
rotundamente há dez anos, na ressaca da crise das dívidas soberanas, quando o
Norte frugal impôs ao Sul endividado uma austeridade devastadora que não deixou
pedra sobre pedra no edifício do bem-estar social; e inovámos agora que a
pandemia apanhou todos por igual, criando novos instrumentos de solidariedade
entre Estados, como a histórica emissão conjunta de dívida europeia. É este
caminho que importa prosseguir, introduzindo novos mecanismos de flexibilidade
no PEC que não sujeitem a regras cegas países que atravessam fases diferentes
dos seus ciclos de desenvolvimento e que sejam ao mesmo tempo mais favoráveis
ao investimento e ao crescimento económico.
É ilusório pensar
que o velho antagonismo entre frugais e os países do Sul se desvaneceu, mas a
simples constatação de que a Europa aceitou suspender a vigência do PEC durante
três anos (regressa a 1 de Janeiro de 2023) em prol da política do “gastar o
que for preciso” para responder à crise é a melhor prova de que sopram novos
ventos que é preciso aproveitar. O défice médio dos 19 países do euro saltou de
0,6% em 2019 para 7,2% em 2020 e deverá manter-se em valores altíssimos este
ano. Para muitas destas economias, regressar num tão curto período de tempo a
um cenário de “contas certas” simplesmente não será possível sem novos
sacrifícios que importa a todo o custo evitar.
A actual consulta
em curso sobre a flexibilização das regras orçamentais na zona euro é crucial
para dar lastro ao projecto de relançamento europeu pós-pandemia. Não
conseguiremos fazê-lo se ignorarmos tudo o que aprendemos e nos limitarmos a
regressar ao velho mundo quadrado da mais pura ortodoxia orçamental.
tp.ocilbup@zulogait
Sem comentários:
Enviar um comentário