ALENTEJO
Odemira terá mais uma centena de “aldeias” com o
alojamento de imigrantes em contentores
Cerca de 200 hectares ano é o ritmo de crescimento de
novas culturas em estufa, o que significa um aumento anual de 2000
trabalhadores imigrantes.
Carlos Dias
4 de Maio de
2021, 21:25
O movimento
Juntos Pelo Sudoeste, organização que defende a protecção do Parque Natural do
Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV) fez contas ao número de
alojamentos em contentores previstos na Resolução de Conselho de Ministros
179/2019 (RCM) e chegou a um número que colide com preservação dos valores do
PNSACV.
Sabendo-se que o
pico da apanha nas culturas existentes, com a dimensão actual, “requer cerca de
15.000 trabalhadores”, significa que “vamos ter 100 aldeias de contentores
espalhadas pelo território” do parque natural. Se a solução proposta pelo
Governo para solucionar o problema do alojamento da população imigrante que
trabalha nas chamadas “quintas” de produção intensa, sobretudo de frutos
vermelhos, vier a ser concretizada, o JPS faz uma pergunta: “Quem conseguirá
controlar as condições de habitabilidade de 100 aldeias e o impacto que terão
neste território?”.
O modelo
anunciado prevê que se construam “unidades de alojamento temporário amovível”,
em aglomerados de até 150 pessoas, que nalguns casos pode chegar aos 400
residentes. O número de pessoas concentradas nos contentores pode crescer ainda
mais. De forma “galopante” o JPS diz que se assiste a um ritmo de crescimento
“de 200 hectares de novas explorações e dois mil novos trabalhadores em cada
ano que passa” vêm trabalhar para o Perímetros de Rega do Mira (PRM).
Ter parques de
contentores a proliferar “como cogumelos” num parque natural não é uma solução
sustentável para uma área protegida, refere o movimento ambientalista que lança
duras críticas a Luís Mesquita Dias, presidente da Associação de Horfruticultores
do Sudoeste Alentejano (AHSA), por este ter afirmado que “em dez mil
trabalhadores que neste momento estarão a trabalhar no PRM, apenas três mil
estão mal alojados”.
Apesar do aumento
crescente do sector agrícola baseado em culturas intensivas, desde 2010, ano do
início da expansão desta agricultura moderna, “Odemira foi sempre um dos
concelhos alentejanos com o mais baixo rendimento per capita”, denuncia o IPS.
No entanto as empresas que operam no município, apresentam “resultados
brilhantes e fazem, disso, publicidade” acrescenta o JPS, explicando que o
modelo implementado “é predatório e tem efeitos nefastos em todas as
actividades e na economia local deste território”.
A apreciação
crítica do movimento estende-se a “algumas das explorações agrícolas” inseridas
em pleno parque natural, que poderão estar em situação de “duvidosa legalidade”
e terem sido instaladas sem estudos de impacto ambiental, para além de ocuparem
de áreas de protecção especial. O crescimento da área regada no PRM “está a ser
feita de uma forma totalmente irresponsável, tendo em conta todas as previsões
futuras” e que acaba por se reflectir na gestão e utilização da pouca água
existente na barragem de Santa Clara.
É ponto assente
que a região de Odemira não dispõe de mão-de-obra em número suficiente para as
tarefas que novas culturas implicam. A vinda de imigrantes é uma consequência
que o JPS encara como uma realidade incontornável. Mas ao contrário do que
disse o presidente da AHSA “que são o Governo e o município têm que resolver a
questão da habitação de parte destas pessoas mal alojadas”. O dirigente dos
produtores agrícolas alega que “normalmente” as entidades patronais “não são
responsáveis pelas instalações onde os trabalhadores vivem”.
O JPS propõe a
instalação de projectos de urbanização nos perímetros urbanos, e a “suspensão
de novos empreendimentos agrícolas” que dependam de mão-de-obra sazonal. E
lembra que RCM 179/2019 admite que as culturas debaixo de plástico, possam vir
a triplicar. Se tal vier a confirmar-se “como vão integrar 30 000 imigrantes
numa população de 32 000 pessoas que vivem em Odemira e Aljezur” alerta o
movimento ambientalista.


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