quarta-feira, 5 de maio de 2021

Odemira terá mais uma centena de “aldeias” com o alojamento de imigrantes em contentores

 



ALENTEJO

Odemira terá mais uma centena de “aldeias” com o alojamento de imigrantes em contentores

 

Cerca de 200 hectares ano é o ritmo de crescimento de novas culturas em estufa, o que significa um aumento anual de 2000 trabalhadores imigrantes.

 

Carlos Dias

4 de Maio de 2021, 21:25

https://www.publico.pt/2021/05/04/local/noticia/odemira-tera-centena-aldeias-alojamento-imigrantes-contentores-1961204

 

O movimento Juntos Pelo Sudoeste, organização que defende a protecção do Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina (PNSACV) fez contas ao número de alojamentos em contentores previstos na Resolução de Conselho de Ministros 179/2019 (RCM) e chegou a um número que colide com preservação dos valores do PNSACV.

 

Sabendo-se que o pico da apanha nas culturas existentes, com a dimensão actual, “requer cerca de 15.000 trabalhadores”, significa que “vamos ter 100 aldeias de contentores espalhadas pelo território” do parque natural. Se a solução proposta pelo Governo para solucionar o problema do alojamento da população imigrante que trabalha nas chamadas “quintas” de produção intensa, sobretudo de frutos vermelhos, vier a ser concretizada, o JPS faz uma pergunta: “Quem conseguirá controlar as condições de habitabilidade de 100 aldeias e o impacto que terão neste território?”.

 

O modelo anunciado prevê que se construam “unidades de alojamento temporário amovível”, em aglomerados de até 150 pessoas, que nalguns casos pode chegar aos 400 residentes. O número de pessoas concentradas nos contentores pode crescer ainda mais. De forma “galopante” o JPS diz que se assiste a um ritmo de crescimento “de 200 hectares de novas explorações e dois mil novos trabalhadores em cada ano que passa” vêm trabalhar para o Perímetros de Rega do Mira (PRM).

 

Ter parques de contentores a proliferar “como cogumelos” num parque natural não é uma solução sustentável para uma área protegida, refere o movimento ambientalista que lança duras críticas a Luís Mesquita Dias, presidente da Associação de Horfruticultores do Sudoeste Alentejano (AHSA), por este ter afirmado que “em dez mil trabalhadores que neste momento estarão a trabalhar no PRM, apenas três mil estão mal alojados”.

 

Apesar do aumento crescente do sector agrícola baseado em culturas intensivas, desde 2010, ano do início da expansão desta agricultura moderna, “Odemira foi sempre um dos concelhos alentejanos com o mais baixo rendimento per capita”, denuncia o IPS. No entanto as empresas que operam no município, apresentam “resultados brilhantes e fazem, disso, publicidade” acrescenta o JPS, explicando que o modelo implementado “é predatório e tem efeitos nefastos em todas as actividades e na economia local deste território”.

 

A apreciação crítica do movimento estende-se a “algumas das explorações agrícolas” inseridas em pleno parque natural, que poderão estar em situação de “duvidosa legalidade” e terem sido instaladas sem estudos de impacto ambiental, para além de ocuparem de áreas de protecção especial. O crescimento da área regada no PRM “está a ser feita de uma forma totalmente irresponsável, tendo em conta todas as previsões futuras” e que acaba por se reflectir na gestão e utilização da pouca água existente na barragem de Santa Clara.

 

É ponto assente que a região de Odemira não dispõe de mão-de-obra em número suficiente para as tarefas que novas culturas implicam. A vinda de imigrantes é uma consequência que o JPS encara como uma realidade incontornável. Mas ao contrário do que disse o presidente da AHSA “que são o Governo e o município têm que resolver a questão da habitação de parte destas pessoas mal alojadas”. O dirigente dos produtores agrícolas alega que “normalmente” as entidades patronais “não são responsáveis pelas instalações onde os trabalhadores vivem”.

 

O JPS propõe a instalação de projectos de urbanização nos perímetros urbanos, e a “suspensão de novos empreendimentos agrícolas” que dependam de mão-de-obra sazonal. E lembra que RCM 179/2019 admite que as culturas debaixo de plástico, possam vir a triplicar. Se tal vier a confirmar-se “como vão integrar 30 000 imigrantes numa população de 32 000 pessoas que vivem em Odemira e Aljezur” alerta o movimento ambientalista.

Sem comentários: